Chá.com Letras Rss

Nietzsche e a subversão dos valores dominantes (Ensaio I)

Postado em: 28-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Fotos

3

Nietzsche_3_Olde_06Nietzsche e sua irmã Elisabeth Förster-Nietzsche

LEILABRITO

As obras de Nietzsche pós-Zaratustra são todas cunhadas na idéia de transvaloração de todos os valores, porque, para o filósofo, todos os problemas da Filosofia têm origem no valor. Assim, todo pensamento anterior sobre o ser foi dominado pelo ponto de vista dos valores. Fato é que, para Nietzsche, o problema maior da Filosofia é ter estado, até então, comprometida com a verdade, e não, com a vida. É este pensamento que o leva a questionar a verdade e a buscar uma re-significação para a vida. Ele se coloca como homem, subordinando a questão da vida e do homem, para formar valores ligados à vida.

Assim, sua filosofia é uma luta contra os sentidos das coisas pela sua re-significação. Ele coloca em suspeita o que seria insuspeito e, em seu filosofar, destrói ídolos, verdades, crenças e certezas, valorizando o que nunca foi valorizado: o corpo, o poder, o egoísmo, a crueldade. Para Nietzsche, a crueldade humana tem caráter instintivo e, cada vez mais, é internalizada como forma de sublimação. Assim, não é porque o homem é civilizado, que deixa de ser cruel.

Com um sentido universal de subversão dos valores dominantes através da suspeita que lança sobre esses valores, segundo Chagas (1985, p. IV), Nietzsche “inaugura uma nova filosofia, com novos valores, tendo como solo firme para plantar seu pensamento a vontade de poder, a morte de deus e o eterno retorno”.

Em sua Genealogia da Moral, Nietzsche questiona a verdade do existente, a verdade das ciências e a verdade da metafísica, tomando como base o entendimento de que o terreno dos valores é um terreno de luta, de disputa; não apenas para destruir, mas para construir sobre a destruição. Assim, ele destrói um valor para reconstruir uma idéia, jogando por terra o relativismo, visto por ele como o princípio da banalização da existência, uma vez que, pela flexibilidade, atua como um entorpecente contra o desespero.

Nietzsche se refere à sua Genealogia da Moral como uma obra crítica cultural bem fundamentada, onde se propõe a fazer uma interpretação, e não um aperfeiçoamento das teorias morais. Nesta interpretação, luta contra a própria maneira como a moral se apresenta, para então desmascará-la:

Necessitamos uma crítica dos valores morais, e antes de tudo deve discutir-se o ‘valor desses valores’, e por isso é de toda a necessidade conhecer as condições e os meios ambientes em que nasceram, em que se desenvolveram e deformaram (a moral como conseqüência, máscara, hipocrisia, enfermidade ou equívoco, e também a moral como causa, remédio, estimulante, freio e veneno) conhecimento tal que nunca teve outro semelhante nem é possível que o tenha. Era um verdadeiro postulado o valor desses valores: atribuía-se ao bem um valor superior ao valor do mal, ao valor do progresso, da utilidade, do desenvolvimento humano. E por quê? Não poderia ser verdade o contrário? (NIETZSCHE, 1985, p. XIV).

Como sua intenção não é refutar, nem substituir um erro por uma verdade, ou um erro por outro, ou ainda, uma verdade por outra verdade, Nietzsche usa de ironia:

Mas quando pudermos gritar: “Avante! A nossa velha moral entra também no ‘domínio da comédia’, teremos descoberto para o drama trágico dos destinos da alma uma nova intriga, uma nova possibilidade e até poderíamos assegurar que já disto se aproveitou o grande, o antigo e eterno poeta das comédias da nossa existência (NIETZSCHE, 1985, p. XV-XVI).

Sua intenção é fazer uma interpretação que destrua a interpretação dominante; fazer uma abordagem hermenêutica. O que Nietzsche pretende, na verdade, é uma interpretação que seja uma ação, uma potência que tenha uma predisposição de luta. Isto porque, segundo seu entendimento, interpretar é um ato de força, de potência – é uma atitude visceral comprometida.

Desta forma, Nietzsche vê o mundo como perspectivismo de forças, ou seja, as perspectivas últimas no mundo são as das forças. A força tem a designação de vontade e potência, e a condição da idéia elementar de interpretação é que as forças apareçam. E essa idéia é importantíssima, porque leva o filósofo a desconstruir para construir.

Força, para Nietzsche, é uma efetivação de potência – ela está em plena ação. Para ele não existe força na forma pura. O mundo se traduz em combinações de forças agindo uma sobre a outra. Estando em ação, a força nunca é; por isso, é sempre vir-a-ser. Se se descontrói a idéia do vir-a-ser, fica impossível conceber a idéia do ser.

Há várias maneiras da cultura ocidental tratar o aparecer, as coisas, as manifestações do mundo. O perspectivismo nietzschiano implica a ênfase na diferença, nas intensidades. Se as forças aparecem, isto quer dizer que os acontecimentos têm vida, mas não têm pureza, essência, lógica, o quer dizer, que não têm nada a ver com o que é cultivado na cultura ocidental. Assim, para o filósofo, as moralidades e as ciências dominantes não vão a fundo na questão das forças; não abrigam uma filosofia das forças.

Por um lado, Nietzsche é um intérprete; por outro, é alguém que busca a pré-história afetiva das valorações. Por isso, seu trabalho é de desmascaramento.  Basta olhar para a moral, que ela não é o que diz ser. O genealogista é também um psicólogo, na medida em que quer prescrutar, revelar idéias ainda não provocadas por nenhum saber.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, JUL 2007.

Referências:
BRITO, Leila. Nietzsche como crítico da cultura: a crítica ao cristianisno e ao socratismo. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 8 f. Mimeografado.
BRITO, Leila. Nietzsche: o mundo como perspectivismo de forças. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 62 f. Notas de aula.
CHAGAS, Sílvio Donizete. Prefácio da editora. In: NIETZSCHE, Friederic Wilhelm. A genealogia da moral. Tradução de Joaquim José de Faria. São Paulo: Editora Moraes, 1985. p. I-VII.
NIETZSCHE, Friederic Wilhelm. A genealogia da moral. Tradução de Joaquim José de Faria. São Paulo: Editora Moraes, 1985.

Ilustração:
Nietzsche fotografado por Hans Olde, em jun./ago. 1899.

Vídeo da Semana

Postado em: 19-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Vídeos

1

jose-saramago-459x293

O escritor português José Saramago dispensa apresentação da mesma forma que dispensa elogios a sua valiosa obra que reúne o que de mais rico e singular existe na expressão literária da Língua Portuguesa.

A morte de  Saramago, ocorrida nesta data, desperta nos amantes da Literatura um sentimento de profunda tristeza manifestada na mais justa admiração e no mais profundo respeito, tanto por sua refinada inteligência criativa como por sua aguda lucidez e seu imbatível senso crítico, que o conduziu à produção de uma obra literária acima de tudo denunciadora da podridão vigente entre os homens na forma de poderes destrutivos da lucidez humana, objetivando a alienação do homem e sua consequente dominação.

Sua aguçada visão crítica e sua personalidade desafiadora provocou diversas polêmicas. Assim, suas opiniões sobre religião e sobre a luta internacional contra o terrorismo resultaram em acusações de diversos quadrantes. Crítico feroz da Igreja Católica Apostólica Romana, classificou a Bíblia como um manual de maus costumes, provocando reações de protestos do Vaticano.

A propósito, citando Laerte Braga em sua crônica “O bloco do pau de arara e do choque elétrico”: Perguntaram a José Saramago por qual motivo continuava sendo comunista diante dos “crimes” de Stalin. Saramago respondeu de forma simples: “Por convicção ou alguém deixa de ser católico por conta dos crimes da Inquisição?”.

Quanto à posição de Israel no conflito contra os palestinos, caracterizado pela crueldade de um lento genocídio, numa visita a São Paulo, a 13 de outubro de 2003, em entrevista ao jornal O Globo, Saramago afirmou que os judeus  não merecem a simpatia pelo sofrimento por que passaram durante o Holocausto… Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós. A Anti-Defamation League (Liga Anti-Difamação – ADL), um grupo judaico de defesa dos direitos civis, caracterizou estes comentários como sendo anti-semitas.

Em defesa de Saramago, diversos autores afirmam que ele não se insurgiu contra os judeus, mas contra a política de Israel, como, por exemplo, num artigo publicado a 3 de Maio de 2002 no jornal Público, onde, comparando o atual conflito com a cena bíblica de David e Golias, o escritor diz que David, representando Israel, se tornou num novo Golias“, e que aquele “lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinianos para depois negociar com o que deles restar“.

Lendo este discurso apaixonado em defesa dos mais fracos, o que podemos concluir, neste momento em que Saramago deixa este mundo-cão, é que  a Humanidade perde hoje um de seus mais dignos e corajosos defensores.

No vídeo ao lado, apresentamos a reportagem de uma TV portuguesa sobre a morte do escritor, com flashs de uma entrevista concedida ao programa Última Hora, onde ele relata momentos importantes de sua vida e fala sobre sua obra.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 18 jun 2010

Ilustração:
Saramago clicado por fotógrafo desconhecido desta escritora.

Referência:
WIKIPÉDIA. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago>. Acesso em: 18 jun. 2010.

Um conto de Saramago

Postado em: 18-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

1

Embargo
EMBARGO

Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com um lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro d seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a idéia do casulo morno q era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos aquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro.

Disse à mulher que não se levantasse, que aproveitasse um pouco mais da manhã, e escorregou para o ar frio, para a humidade indefinível das paredes, dos puxadores das portas, das toalhas da casa de banho. Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera. Tossiu como todas as manhãs. Depois vestiu-se às apalpadelas, sem acender a luz do quarto. Na queria acordar a mulher. Um cheiro fresco de água-de-colônia avivou a penumbra, e isso fez que a mulher suspirasse de prazer quando o marido debruçou-se na cama para lhe beijar os olhos fechados. E ele sussurrou que não viria almoçar a casa.

Fechou a porta e desceu rapidamente a escada. O prédio parecia mais silencioso que de costume. Talvez do nevoeiro, pensou. Reparara que o nevoeiro era assim como uma campânula que abafava os sons e os transformava, dissolvendo-os, fazendo deles o que fazia com as imagens. Estaria nevoeiro. No último lanço da escada já poderia ver a rua e saber se acertara. Afinal havia uma luz ainda cinzenta, mas dura e rebrilhante, de quartzo. Na berma do passeio, um grande rato morto. E enquanto, parado à porta, acendia o terceiro cigarro, passou um garoto embaçado, de gordo, que cuspiu em cima do animal, como lhe tinham ensinado e sempre via fazer.

O automóvel estava cinco prédios abaixo. Grande sorte ter podido arrumá-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança. O automóvel apareceu-lhe coberto de gotículas, os vidros tapados de humidade. Se não fosse o frio tanto, poderia dizer-se que transpirava como um corpo vivo. Olhou os pneus segundo o deu hábito, verificou de passagem que a antena não fora partida e abriu a porta. O interior do carro estava gelado. Com os vidros embaciados, era uma caverna translúcida afundada sob um dilúvio de água. Pensou que teria sido melhor deixar o carro em sítio onde pudesse faze-lo descair para pegar mais facilmente. Ligou a ignição, e no mesmo instante o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente. Sorriu, satisfeito da surpresa. O dia começava bem.

Rua acima, o automóvel arrancou, raspando o asfalto como um animal de cascos, triturando o lixo espalhado. O conta-quilómetros deu um salto repentino para 90, velocidade de suicídio na rua estreita e ladeada de carros parados. Que seria isto? Retirou o pé de acelerador, inquieto. Por pouco diria que lhe teriam trocado o motor por outro muito mais potente. Pisou à cautela o acelerador dominou o carro. Nada de importância. Às vezes não se controla bem o balanço do pé. Basta que o tacão do sapato não assente no lugar habitual para que se altere o movimento e a pressão. É simples.

Distraído com o incidente, ainda não olhara o marcador da gasolina. Ter-lhe-iam roubado durante a noite, como já não era a primeira vez? Não. O ponteiro indicava precisamente meio depósito. Parou num sinal vermelho, sentindo o carro vibrante e tenso nas suas mãos. Curioso. Nunca dera por essa espécie de frémito animal que percorria em ondas a chapas da carroçaria e lhe fazia estremecer o ventre. Ao sinal verde, o automóvel pareceu serpentear, alongar-se como um fluido , para ultrapassar os que lhe estavam à frente. Curioso. Mas, na verdade, sempre se considerara muito melhor condutor do que o comum. Questão de boa disposição, esta agilidade dos reflexos hoje, talvez excepcional. Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha que dar antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, filas de dezenas e dezenas de carros. Meio depósito. Outros andam a essa hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento,  lançou-se numa subida íngreme sem esforço. Ali perto havia uma bomba pouco  conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e ocupar espaço na fila que esperava. Boa lembrança.

Olho o relógio. Deviam estar à frente uns vinte carros. Nada de exagerado. Mas pensou que seria melhor ir ao escritório e deixar as voltas para a tarde, já cheio o depósito, sem preocupações. Baixou o vidro para chamar um vendedor de jornais que passava. O tempo arrefecera muito. Mas ali, dentro do automóvel, de jornal aberto sobre o volante, fumando enquanto esperava, havia um calor agradável, como o dos lençóis. Fez mover os músculos das costas, com uma torção de gato voluptuoso, ao lembrar-se da mulher ainda enroscada na cama àquela hora, e recostou-se melhor no assento. O jornal não prometia nada de bom. O embargo mantinha-se. Um Natal escuro e frio, dizia um dos títulos. Mas ele ainda dispunha de meio depósito e ao tardaria a té-lo cheio. O automóvel da frente avançou um pouco. Bem.

Hora e meia mais tarde estava a atestar , e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava restrições rigorosas. Enfim, do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou o rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.

De repente, o carro deu uma guinada e descaiu para a rua à direita, até parar numa fila de automóveis mais pequena do que a primeira. O que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas. Que disparate. Agora avaria. O automóvel da frente avançou. Receosamente, a contar com o pior, engatou a primeira. Tudo perfeito. Suspirou de alívio. Mas como estaria a marcha atrás quando tornasse a precisar dela?

Cerca de meia hora depois metia meio litro de gasolina no depósito, sentindo-se ridículo sob o olhar desdenhoso do empregado da bomba. Deu uma gorjeta absurdamente alta e arrancou num grande alarido de pneus e acelerações. Que diabo de ideia. Agora ao cliente, ou será uma manhã perdida. O carro estava melhor do que nunca. Respondia aos seus movimentos como se fosse um prolongamento mecânico do seu próprio corpo. Mas o caso da marcha atrás dava que pensar. E eis que teve que pensar mesmo. Uma grande camioneta avariada tapava todo o leito da rua. Não podia contorná-la, não tivera tempo, estava colado a ela. Outra vez a medo, manejou a alavanca, e a marcha atrás engrenou com um ruído suave de sucção. Não se lembrava de a caixa de velocidades ter reagido dessa maneira antes. Rodou o volante para esquerda, acelerou, e de um só arranco o automóvel subiu o passeio, rente aa camioneta, e saiu do outro lado, solto, com uma agilidade de animal. O diabo do carro tinha sete fôlegos. Talvez que por causa de toda essa confusão do embargo, tudo em pânico, os serviços desorganizados tiveram feito meter nas bombas gasolina de muito maior potência. Teria a sua graça.

Olhou o relógio. Valeria ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou. Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório o e deixar para tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro. Gasolina queimada sem proveito. Enfim, o depósito estava cheio. Num largo ao fundo da rua por onde descia viu outra fila de automóveis, à espera de vez. Sorriu de gozo e acelerou, decidido a passar roncando contra os entanguidos automobilistas que esperavam. Mas o carro, a vinte metros, obliquou para esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que cisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio? Ficou a olhar os diversos mostradores, a apalpar o volante custando-lhe a reconhecer o carro, e nessa sucessão de gestos puxou o retrovisor e olhou-se no espelho. Viu que estava perplexo e considerou que tinha razão. Outra vez pelo retrovisor distinguiu um automóvel que descia a rua, com todo o ar de vir colocar-se na fila. Preocupado com ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de leva-lo à oficina. Uma marcha atrás que funcionava ora sim ora não, é um perigo.

Tinha passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar-se o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atesta-se o depósito. No mesmo instante, fez uma tentativa para fugir à vergonha, meteu uma rápida primeira e arrancou. Em vão. O carro não se mexeu. O homem da bomba olhou desconfiado, abriu o depósito, e, passados poucos segundo, veio pedir o dinheiro de um litro, que guardou resmungando. No instante logo, a primeira entrava  sem qualquer dificuldade e  o carro avançava, elástico, respirando pausadamente. Alguma coisa não estaria bem no automóvel, nas mudanças, no motor, em qualquer sítio, diabo levasse. Ou estaria ele a perder a suas qualidades de condutor? Ou estaria doente? Dormira ainda assim bem, não tinha mais preocupações da vida que em todos os outros dias dela. O melhor seria desistir por agora de cliente, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do caro vibravam rapidamente, não à superfície, mas no interior dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber por quê, deu por que estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse das outras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça. Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente ao escritório. Pôde arrumar o carro suspirou de alívio. Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair.

Julgou que a aba da gabardina se prendera, que a perna ficara entalada na coluna do volante, e fez outro movimento. Ainda procurou o cinto de segurança, a ver se o colocara sem dar por isso. Não. O cinto estava pendurado ao lado, tripa negra e mole. Disparate, pensou. Devo estar doente. Podia mexer livremente os braços e as pernas, flectir ligeiramente o tronco consoante as manobras, olhar para trás, debruçar-se um pouco para a direita, para o cacifo das luvas, mas as costas aderiam ao encosto do banco. Não rigidamente, mas como um membro adere ao corpo. Acendeu um cigarro, e de repente preocupou-se com o que diria ao patrão se assomasse a uma janela e o visse ali sentado, dentro do carro, a fumar, sem nenhuma pressa de sair. Um toque violento de claxon fé-lo fechar a porta, que abrira para a rua. Quando o outro carro passou, deixou descair lentamente a porta outra vez, atirou o cigarro fora e, segurando-se as mãos ambas ao volante, fez um movimento brusco, violento. Inútil. Nem sequer sentiu dores. O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso. Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo retrovisor e olhou-se. Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina.

Voltou a olhar no espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia.Manobrou para desencostar, rapidamente, deixando a mão à porta para fechá-la, e desceu a rua o mais depressa que podia. Tinha um fito, um objectivo muito definido que já o tranqüilizava e tanto que se deixou ir com um sorriso que aos poucos lhe abrandara a aflição.

Só reparou na bomba de gasolina quando lhe ia a passar pela frente. Tinha um letreiro que dizia “esgotado”, e o carro seguiu, sem o mínimo desvio, sem diminuir a velocidade. Não quis pensar no carro. Sorriu mais. Estava a sair da cidade, eram já os subúrbios, estava perto o sito que procurava. Meteu por uma rua em construção, virou à esquerda e à direita, até uma azinhaga deserta, entre valados. Começava a chover quando parou o automóvel.

A sua ideia era simples. Consistia em sair de dentro da gabardina, torcendo os braços e o corpo, deslizando para fora dela, tal como faz a cobra quando abandona a pele. No meio de gente não se atreveria, mas, ali, sozinho, com um deserto em redor, só longe a cidade que se escondia por trás da chuva, nada mais fácil. Enganara-se, porém. A gabardina aderia ao encosto do banco, do mesmo modo que ao casaco, à camisola de lã, à camisa, à camisola anterior, à pele, aos músculos, aos ossos. Foi isso que pensou não pensando quando daí a dez minutos se retorcia dentro do carro, a chorar. Desesperado. Estava preso no carro. Por mais que se torcesse para fora, para a abertura da porta, por onde a chuva entrava emperrada por rajadas súbitas e frias, por mais que fincasse os pés na saliência alta da caixa de velocidades, não conseguia arrancar-se do assento. Com as duas mãos segurou-se ao tejadilho e tentou içar-se. Era como se quisesse levantar o mundo. Diante dos seus olhos, os limpa-vidros, que sem querer pusera em movimento no meio da agitação, oscilavam com um ruído seco, de metrônomo. De longe veio o apito da fábrica. E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca. O homem que pedalava olhou curiosamente para dentro do carro e seguiu, talvez decepcionado ou intrigado, por ver um homem sozinho, e não o casal que de longe lhe parecera.

O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso dessa maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali. À força não podia ser. Talvez numa garagem? Não. Como iria explicar? Chamar a polícia? E depois? Juntar-se ia gente, tudo a olhar, enquanto a autoridade evidentemente o puxaria por um braço e pediria ajuda aos presentes, e seria inútil, porque o encosto do banco docemente o prenderia a si. E viriam os jornalista, os fotógrafos, e ele seria mostrado metido no seu carro em todos os jornais do dia seguinte, cheio de vergonha como um animal tosquiado à chuva. Tinha de arranjar outra maneira. Desligou o motor e sem interromper o gesto atirou-se violentamente para fora, como quem ataca de surpresa. Nem um resultado. Feriu-se na testa e na mão esquerda, e a dor causou-lhe uma vertigem que se prolongou , enquanto uma súbita e irreprimível vontade de urinar se expandia, libertando interminável o líquido quente que vertia e escorria entre as pernas para piso do carro. Quando tudo isso sentiu, começou a chorar baixinho, num ganido, miseravelmente, e assim esteve até que um cão, vindo da chuva, veio ladrar-lhe, esquálido e sem convicção, à porta do carro.

Embraiou devagar,  com os movimentos pesados de um sonho de cavernas, e avançou pela azinhaga fazendo força para não pensar, para não deixar que a situação se lhe figurasse num entendimento. De um modo vago sabia que teria de procurar alguém que o ajudasse. Mas quem poderia ser? Não queria assustar a mulher, mas não restava outro remédio. Talvez ela conseguisse. Ao menos não se sentiria tão desgraçadamente sozinho.

Voltou a entrar na cidade, atento aos sinais, sem movimentos bruscos no assento, como se quisesse apaziguar os poderes que o prendiam. Passavam das duas horas e o dia escurecera muito. Viu três bombas de gasolina, mas o carro não reagiu. Todas tinham o letreiro de “esgotado”. À medida que penetrava na cidade, ia vendo automóveis abandonados em posições anormais, com os triângulos vermelhos colocados na janela de trás, sinal que noutras ocasiões seria de avaria, mas que significava, agora, quase sempre, falta de gasolina. Por duas vezes viu grupos de homens a empurrar automóveis para cima dos passeios , com grandes gestos de irritação, debaixo da chuva que não parara ainda.

Quando enfim chegou à rua onde morava, teve de imaginar como iria chamar a mulher. Parou o carro em frente da porta, desorientado, quase à beira doutra crise nervosa. Esperou que acontecesse o milagre de a mulher descer por obra e merecimento do seu silencioso chamado de socorro. Esperou muitos minutos, até que um garoto curioso da vizinhança se aproximou e ele pôde pedir-lhe, com o argumento de uma moeda, que subisse ao terceiro andar e dissesse à senhora que lá morava que o marido estava em baixo à espera, no carro. Que viesse depressa, que era muito urgente. O rapaz foi e desceu, disse que a senhora já vinha e afastou-se a correr, com o dia ganho.

A mulher descera como sempre andava em casa, nem sequer lembrara de trazer um guarda-chuva e agora estava entreportas, indecisa, desviando sem querer os olhos para um rato morto na berma do passeio, para o rato mole, de pelo arrepiado, hesitando em atravessar o passeio debaixo da chuva, um pouco irritada contra o marido que a fizera descer sem motivo, quando poderia muito bem ter subido a dizer o que queria. Mas o marido acenava de dentro do carro e ela assustou-se e correu. Deitou a mão ao puxador, precipitando-se para fugir à chuva, e quando enfim abriu a porta e viu diante do seu rosto a mão do marido aberta empurrando-a sem lhe tocar. Teimou e quis entrar, mas ele gritou-lhe que não, que era perigoso, e contou-lhe o que acontecia, enquanto ela encurvada recebia nas costas toda a chuva que caía e os cabelos se lhe desmanchavam, e o horror lhe crispava a cara toda. E viu o marido, naquele casulo quente e embaciado que o isolava do mundo, torcer-se todo no assento para sair do carro e não conseguir. Atreveu-se a agarra-lo por um braço e puxou, incrédula, e não pode também move-lo dali. E como aqui era horrível demais para ser acreditado, ficaram calados a olhar-se, até que ela pensou que o marido estava doido e fingia não poder sair. Tinha de ir chamar alguém para o tratar, para o levar aonde as loucuras se tratam. Cautelosamente, com muitas palavras, disse ao marido que esperasse um bocadinho, que ela não tardaria, ia procurar ajuda para ele sair, e assim até poderiam almoçar juntos e ele telefonaria para o escritório a dizer que estava constipado. E não iria trabalhar da   parte da tarde. Quer sossegasse, o caso não tinha importância, a ver que não demora nada.

Mas quando ela desapareceu na escada, ele tornou a imaginar-se rodeado de gente, o retrato nos jornais, a vergonha de se ter urinado pelas pernas abaixo, e esperou ainda uns minutos. E quando em cima a mulher fazia telefonemas para toda a parte, para a polícia, para o hospital, lutando para que acreditassem nela, e não na sua voz, dando seu nome e o do marido, a cor do carro, e a marca, e a matrícula, ele não pôde agüentar a espera e a imaginação, e ligou o motor. Quando a mulher tornou a descer, o automóvel já desaparecera e o rato escorregara da berma do passeio, enfim, e rolava na rua inclinada, arrastado pela água que corria dos algeroses. A mulher gritou, mas as pessoas tardaram a aparecer e foi muito difícil de explicar.

Até o anoitecer o homem circulou pela cidade, passando por bombas esgotadas, entrando em filas de espera sem o ter decidido, ansioso por o dinheiro se lhe acabava e ele não saberia o que poderia acontecer quando não houvesse mais dinheiro e o automóvel parasse ao pé duma bomba para receber mais gasolina. E isso só não aconteceu porque todas as bombas começaram a fechar e as filas de espera que ainda se viam apenas aguardando o dia seguinte, e então o melhor era fugir de encontrar bombas ainda abertas para não ter que parar. Numa avenida muito longa e larga, quase sem outro trânsito, o carro da polícia acelerou e ultrapassou-o, e quando o ultrapassava um guarda fez-lhe sinal para que parasse. Mas ele teve outra vez medo e não parou. Ouviu atrás de si a sereia da polícia e viu, também, vindo não soube donde, um motociclista fardado quase a alcançá-lo. Mas o carro, o seu carro, deu um rondo, um arranco poderoso e saiu, de um salto, logo adiante, para o acesso duma auto-estrada. A polícia seguia-o de longe, cada vez mais longe, e quando a noite se fechou não havia sinais deles, e o automóvel rolava por outra estrada.

Sentia fome. Urinara outra vez, humilhado demais para se envergonhar e delirava um pouco: humilhado, himolhado. Ia declinando sucessivamente, alterando as consoante e as vogais, num exercício in consciente e obsessivo que o defendia da realidade. Não parava porque não sabia para que iria parar. Mas, de madrugada, por duas vezes, encostou o carro a berma e tentou sair devagarinho, como se entretanto ele e o carro tivessem chegado a um acordo de pazes e fosse a altuar de tirar a prova da boa-fé de cada um. Por duas vezes falou baixinho quando o assento o segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixa-lo sair a bem, por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar. E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado, continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir.

Toda a noite viajou sem saber por onde. Atravessou povoações de que não viu o nome, percorreu longas rectas, subiu e desceu montes, fez e desfez laços e deslaços de curvas, e quando a manhã começou a nascer estava em qualquer parte, numa estrada arruinada, onde a água da chuva se juntava em charcos arrepiados à superfície. O motor roncava poderosamente , arrancando as rodas à lama, e toda a estrutura do carro vibrava, com um som inquietante. A manhã abriu por completo, sem que o sol chegasse a mostrar-se, mas a chuva parou de repente. A estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante. Foi nesse momento que viu que ponteiro do indicador da gasolina estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e arrastou o carro por mais vinte metros. Era outra vez estrada para lá daquele lugar, mas a gasolina acabara.

A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os  olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou do carro. Escorregou um pouco mais, e ficou deitado sobre as pedras. A chuva recomeçara a cair.

Copyright© 1994 Companhia das Letras

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
SARAMAGO, José. Objeto Quase. São Paulo: Cia das Letras, 1994.

Vídeo da Semana

Postado em: 09-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Literatura, Vídeos

0

machado-de-assis2

Ilustrando o ensaio “As mulheres preferem os tolos(?)”, post anterior, disponibilizo, no espaço de vídeo deste blog, uma aula ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Schwarz contextualizando e analisando a obra de Machado de Assis, adentrando, inclusive, o tom político da crítica que o escritor faz à elite nacional em seus romances, no sentido de considerá-la inculta, alienada, preconceituosa, vulgar e meramente preocupada com a garantia da propriedade.

Schwarz exemplifica tal perfil criticado por Machado, equiparando-o ao da mesma elite brasileira que apoiou o Golpe de Estado de 64, esclarecendo que jamais se poderia esperar dessa classe social uma atitude de “mentores esclarecidos”, e sim de pessoas unicamente preocupadas com a preservação da posse de seus bens e com a possibilidade de enriquecerem ainda mais com o Regime Militar.

Crítico literário, professor aposentado de Teoria Literária da USP e um dos continuadores da obra de Antonio Candido, Schwarz redigiu estudos críticos sobre Machado de Assis elencados entre os mais representativos sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sobre a tradição crítica a que se filia, o próprio Schwarz afirma que se impregnou muito dos livros e pontos de vista de Antonio Candido, e acrescenta: “Meu trabalho seria impensável, igualmente, sem a tradição – contraditória – formada por Lukács, Benjamin, Brecht e Adorno, e sem a inspiração de Marx.”

O vídeo é de curta duração e, por isso, não tomará muito do seu tempo. Sugiro, pois, que assista à essa magnifica aula do Prof. Schwarz que, sem dúvida, acrescenta informações valiosas sobre a incomparável produção literária do maior escritor brasileiro de todos os tempos.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 9 de junho de 2010.

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
WIKIPÉDIA. Roberto Schwarz. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_Schwarz>. Acesso em: 9 jun. 2010

As mulheres preferem os tolos(?)

Postado em: 08-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Literatura

3

capitu1

LEILA BRITO

Essa é a tese defendida pelo maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis, em sua obra literária.  E é o teórico francês Victor Henaux o autor de tão revolucionária teoria, exposta em um artigo intitulado Queda que as mulheres têm para os tolos, traduzido por Machado em 1861. Segundo Henaux:

O tolo não se faz, nasce feito. [...] Mulher alguma resistiu nunca a um tolo. [...] Nenhum homem de espírito teve ainda impunemente um parvo como rival. [...] Em matéria de amor, deixa-se o homem de espírito embalar por estranhas ilusões. [...] Respeitoso até a timidez não ousa exprimir o seu amor em palavras; exala-o por meio de uma não interrompida série de meigos cuidados, ternos respeitos e atenções delicadas. [...] O tolo, porém, não tem escrúpulos. [...] Para fazer-se notar daquela que ama, importuna-a, acompanha-a nas ruas, vigia-a nas igrejas e espia-a nos espetáculos. Arma-lhe laços grosseiros (HENAUX, 1859).

Este texto de Victor Henaux pertence à produção teórica dos moralistas franceses, foi escrito com uma roupagem esteticista da época, e expõe a comparação do homem de espírito (homem culto) com o homem tolo (homem inculto), para defender a tese de que a mulher tem queda pelos tolos, e que isto é algo irremediável nela, tratando-se, pois, de uma tendência “genética” do sexo feminino.

Na primeira parte do texto, HENAUX (1859) mostra que as mulheres agiriam normalmente, de uma forma geral, exceto na questão do amor, cuja regularidade no comportamento aponta para a sua preferência pelos homens tolos – qualidade inferior de homens. Na segunda parte do texto, o autor exalta o homem tolo, porque qualquer carreira que ele escolha o levará ao sucesso, não importando a profissão dele. Na verdade, a tolice seria uma virtude que o leva ao sucesso com as mulheres. Esse cientificismo é visto de forma determinante, chegando o autor a colocar o tema no interior da Física para demonstrar o determinismo do sucesso do tolo. Na terceira parte do texto, o autor mostra que o homem de espírito tem uma visão aprofundada do mundo. Já o tolo vê o mundo a partir de uma visão estratégica ou pragmática. Em vista disso, o homem  de espírito é voltado para a interioridade(virtudes), buscando a si próprio, pois tem consciência de suas limitações, enquanto o homem tolo volta-se para a exterioridade  (coisas mundanas), sendo marcado pela vaidade (se acha o tal), e essa característica é fundamental para que conquiste as mulheres (em francês vanité – van = vão, ou seja, o tolo não sabe nada mas acha que sabe, e é por isso que alcança o sucesso).

Por fim, o autor explica que “o amor é uma jornada do sentimento à sensação”. O homem de espírito valoriza o sentimento enquanto o homem tolo valoriza a sensação.  Tem-se, então, um confronto entre o amor mais espiritualizado e o amor mais carnal. Assim, porque o homem de espírito é um questionador de seus valores, ele está sempre em dúvida quanto ao seu amor (é perturbado pela dúvida), enquanto o homem tolo é um amante sempre contente e tranquilo, porque tem confiança nos seus predicados e, portanto, tem certeza de ser amado. O homem de espírito preocupa-se com o amor que doa, enquanto o homem tolo preocupa-se com o amor que recebe. O homem de espírito é um ser ético; o homem tolo é um ser estratégico (manipulador). Assim, para o homem de espírito a mulher é um FIM, enquanto para o homem tolo a mulher é um MEIO (HENAUX, 1859).

A visão da mulher que se tinha na época é a de um ser volúvel na esfera dos sentimentos, expondo o movimento natural da vida em contante mutação, refletindo, pois, em seu comportamento, o “vir-a-ser”. Diante disto, para HENAUX (1859), o homem de espírito não se ajusta a esta mutabilidade e se sente perdido, enquanto o homem tolo coloca-se acima disto, utilizando a traição para seguir em frente. Assim, o homem tolo é bem ajustado ao “vir-a-ser”, à temporalidade, enquanto o homem de espírito vive um estranhamento em relação ao “vir-a-ser”, sendo um filósofo voltado para as coisas eternas. Por isso, o homem de espírito tenta se sobrepor aos reveses e muda, cresce, enquanto o homem tolo, que não sofre reveses na vida, permanece imaturo.

Num estudo aprofundado da ficção machadiana, constata-se que o escritor adota a teoria de HENAUX (1859), expondo a problemática da oposição entre vida interior (vida íntima), opção do homem de espírito, e vida exterior (vida social), opção do homem tolo. O primeiro sabe que lhe falta muito; tem consciência de sua condição humana limitada, sendo, por isso, um questionador de seus valores e, por estar voltado para a interioridade do próprio ser, não alcança o sucesso mundano (incluindo-se aí as mulheres). Já o segundo é cheio de si, vaidoso de seus predicados e, por estar voltado para a exterioridade do próprio ser, alcança o sucesso mundano (particularmente com as mulheres). Ao longo de sua obra, o homem de espírito de Machado vai se transformando no personagem cético, em um perdedor no campo amoroso, que se caracteriza em Brás Cubas (um cético morto) – Memórias póstumas de Braz Cubas, evolui em Bentinho (um cético vivo) – Dom Casmurro, e se define em Aires (o cético convicto – um ataráxico) – Memorial de Aires. Tal processo foi possibilitado pela mudança do foco narrativo, com os personagens Brás Cubas, Bentinho e Aires no papel de narradores/escritores da própria história.

Assim, no transcurso de sua obra, Machado de Assis expõe a problemática da oposição entre vida interior e vida exterior, e tal confronto é refletido no triângulo amoroso que ambasa todos os seus romances, com o homem tolo sempre vencendo o homem de espírito. Em Dom Casmurro, Bentinho se afasta da vida exterior, representada por Capitu, amargando a dúvida da traição que ele nunca admite explicitamente. Enfim, o grande escritor não deixa dúvida: “as mulheres preferem os tolos”.

Referências:
ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. 4. ed. São Paulo: Ática, 1985. (Bom Livro)
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Crawfordsville-USA: Klick Editora, 1997.
ASSIS, Machado de. Dom casmurro. In: MINISTÉRIO DA CULTURA. Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: www.dominiopublico.org.br. Acesso em: 8 set. 2007.
BRITO, Leila. A filosofia na ficção de Machado de Assis: Pacal, Montaigne, Shopenhauser, Comte. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 14 f. Mimeografado.
BRITO, Leila. O ceticismo em Machado de Assis. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 50 f. Notas de aula.
HENAUX, Victor. [1859]. Queda que as mulheres têm para os tolos. Tradução de Machado de Assis. AM, 19, 23, 26 e 30 abr. e 3 mai. 1861. In: ASSIS, Machado de. Obras Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1937-58. v. III).
MAIA NETO, José Raimundo. A condição de observador na obra de Machado de Assis. 1987. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1987.

Ilustração:
Atores representando as personagens principais de Dom Carmurro na minissérie Capitu produzida pela Rede Globo.

Orgia

Postado em: 07-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

4

Espada Flor

entretanto
entre tantos olhares e
beijos e gemidos e nudez do
desejo escapando entre bocas
e braços e pernas e corpos
no ato desatado de te querer
muito e tanto que
entretanto
me espanto de tanto te amar
e brinco e rio e danço e canto
e entre tantos olhares e beijos e
gemidos e nudez do desejo
me deixo abrir
em flor e cor e dor e
entre tantos entretantos
do amor.

LEILA BRITO

Ilustração:
©www.fireballimage.hpg.com.br

Referência:
BRITO, Leila. Launim. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010, p. 28. No prelo.

Vídeo da Semana

Postado em: 23-05-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Música, Política, Vídeos

3

Ari Barroso2 Ary Barroso – Ubá-MG (1903-1964)

Ilustrando, com o merecido requinte, o poema Terra Nação, do poeta e músico-violonista-compositor Eugênio Britto, apresento, no espaço de vídeo deste blog (à direita), a mais bela canção brasileira de todos os tempos – AQUARELA DO BRASIL, do mestre Ary Barroso, arranjada e executada pelo Perpetuum Jazille – grupo de jazz e música popular eslovênio, e pelo BR6 – grupo vocal brasileiro, sediado no Rio de Janeiro, e formado por Crismarie Hackenberg (mezzo), Deco Fiori (tenor), Marcelo Caldi (tenor), André Protasio (barítono), Simô (baixo) e Naife Simões (Percussão Vocal).

Aribarroso1

Ary Barroso é autor de centenas de composições em estilos variados, como choro, xote, marcha, foxtrote e samba. Entre outras canções, compôs Tabuleiro da Baiana (1937)  e Os Quindins de Yayá (1941), Boneca de Piche etc. Durante as décadas de 1940 e 1950  compôs vários dos sucessos consagrados por Carmem Miranda no cinema.  Ao compor Aquarela do Brasil inaugurou o gênero samba-exaltação.  O sucesso só aconteceu após sua inclusão no filme de animação Saludos Amigos, lançado em 1942, pelo Studio Disney. Foi a partir de então, que a canção ganhou reconhecimento não só nacional como internacional, tendo se tornado a primeira canção brasileira com mais de um milhão de execuções nas rádios estadunidenses. Assim, Aquarela do Brasil passou de simples canção a símbolo nacional brasileiro.

Auarela-Brasil

Agradeço ao amigo Professor de História e blogueiro Ricardo Moura Faria (Boletim Mineiro de História: <http://boletimmineirodehistoria.blogspot.com/>), pela colaboração com este post, enviando-me tão preciosa indicação de vídeo.

Senhoras e Senhores,  Aquarela do Brasil!

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 23 maio 2010

Ilustração:
Autoria das fotos desconhecida desta escritora.

Caótico

Postado em: 20-05-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

5

Desilusão-amor-perdido

e no êxtase do encantamento
fez-se o caos da desilusão e
sobre a luz o breu
sobre a prata o negro
sobre a canção o frio
sobre a alegria o flagelo
sobre o riso o gemido
sobre o dia o fardo
sobre a noite a dor
sobre o orvalho o sono
sobre a estrela o abismo
sobre o sonho o silêncio
sobre a esperança o medo
sobre o anseio o nada
sobre a ilusão a apatia
sobre a razão a mágoa
sobre a lucidez a sombra
sobre a certeza o pesar
sobre a força o abalo
sobre o arrojo o recuo
sobre o encanto a agonia
sobre a paixão o gelo
sobre o fogo o desmaio
sobre os sentidos o torpor
sobre a libido o ópio
sobre o desejo a solidão
sobre o gozo o tédio
sobre o prazer o calafrio
sobre o humor a aridez
sobre o voo a pausa
sobre a beleza o véu
sobre o bálsamo o fel
sobre a paz o dilema
sobre a doçura o pranto
sobre a virtude o castigo
sobre a flor a tristeza
sobre o fruto a seca
sobre o corpo a teia
sobre o leito a pedra
sobre o ontem o jugo
sobre o amanhã o limite
sobre a sorte o vazio
sobre a liberdade a rédea
sobre o poder a fuga
sobre a luta a ruína
sobre a conquista o erro
sobre a saudade o ocaso
sobre a espera o cerco
sobre o encontro o vácuo
sobre o querer a recusa
sobre o Amor a cruz.

LEILA BRITO

Ilustração:
Autor desconhecido desta poeta.

Referência:
BRITO, Leila. Launim. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010, p. 41. No prelo.

Vídeo da Semana

Postado em: 13-05-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Política, Vídeos

6

STF ABSOLVE TORTURADORES DA DITADURA

lamarca e Zequinha

Capitão Lamarca e Zequinha assassinados no sertão baiano

No regime ditatorial ocorrido no Brasil entre 1964 e 1985, agentes do Estado sequestraram, torturaram e mataram cidadãos que, resistindo à cassação dos direitos civis do povo brasileiro, enfrentaram o Governo Militar. O que se tem de ressaltar, neste contexto de crimes de lesa-humanidade, é que, mesmo em se tratando de uma DitaDURA, tais condutas dos agentes públicos eram ILEGAIS à época, em face das leis vigentes, e foram praticadas em substituição a qualquer rito de investigação, processamento e julgamento aplicáveis.

Ditadura - Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura é torturado e assassinado por agentes do DOI-CODI em São Paulo.

Vladimir Herzog – torturado e assassinado no DOI-Codi/SP
(simulação de suicídio em foto para a imprensa)

Com base nessa arbitrariedade, a OAB, por intermédio do emérito jurista Fábio Konder Comparato, propôs ao STF uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 153) com vistas à revisão da Lei da Anistia (Lei nº 6683/79), propositadamente desvirtuada em seus termos legais e usada, também, para anistiar os torturadores, dando à tortura, estupros, sequestros, assassinatos, ocultação de cadáveres e desaparecimentos de pessoas a absurda conotação de crime político. O objetivo da OAB foi contestar a compatibilidade, a recepção, em termos jurídicos, da referida lei com a vigente Constituição Federal de 1988. Compatibilidade improvável, uma vez que a atual Carta Magna veda a tortura e a considera crime imprescritível.

Para o Professor Paulo Sérgio Pinheiro, no julgamento da Suprema Corte, cujo resultado final privilegiou a absolvição dos torturadores, não foi levada em conta a evolução da norma internacional, da prática acumulada das democracias e dos Judiciários no mundo em face de crimes cometidos por regimes de exceção e a exigibilidade de sua punição. Prevaleceu a contrafação histórica da Lei nº 6.683/79, como resultado de um grande “acordo político”, apesar de a conjuntura de 1979 ali descrita não bater com o que aconteceu, ou seja, não corresponder à verdade dos fatos.

Sônia Moraes - 462909Sônia teve os seios arrancados em sessão de tortura.

Segundo o citado professor: Foi inebriante o coro, com acentos gongóricos, de condenações à tortura. Pena que o clamor de justiça pela sociedade e pelos familiares dos desaparecidos, sequestrados, estuprados, torturados e assassinados pelos agentes da Ditadura não tenha sido levado a sério. Por zelo formalista, a maioria dos ministros jogou pá de cal no exame, pelo Judiciário, desses crimes. A execração da tortura soou farisaica, pois consagrou a impunidade dos torturadores e negou direitos e justiça às vítimas.

Para Criméia Almeida, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo, o resultado do julgamento era esperado: O Poder Judiciário tem a postura a favor da impunidade, afirmou. Segundo ela, a decisão de ontem faz o que o João Batista de Oliveira Figueiredo [último presidente militar, que assinou a Lei da Anistia] não teve coragem de fazer. O ex-presidente foi mais dissimulado. A lei não diz que estão anistiados quem cometeu crime comum.

MarisReginaFigueiredo-462905
Diante do resultado catastrófico da votação do STF, pois contra a revisão proposta pela OAB (7 votos contra e 2 votos a favor), Comparato assim se expressou:  O Brasil é um país de duas faces. Lá no exterior, nós somos civilizados e respeitadores dos direitos humanos, sorridentes e cordiais. Por dentro, nós somos de um egoísmo feroz. [...] Isso é um escândalo internacional. Nós somos o único país da América Latina que não julgou inválidas essas anistias.

O jurista acredita que o Estado brasileiro será condenado, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, por causa da prisão arbitrária, tortura e desaparecimento de 70 pessoas na Guerrilha do Araguaia, na década de 1970. O julgamento na Corte está previsto para os próximos dias 20 e 21 de maio.

Em repúdio à asquerosa (e suspeita) decisão dos 7 ministros que votaram a favor da absolvição dos torturadores da DitaDURA, o Chá.com Letras apresenta, no seu espaço de vídeo, o histórico discurso da ex-Ministra da Casa Civil e ex-militante da resistência ao regime militar Dilma Rousseff (numa dessas CPI’s criadas objetivando golpe de Estado), que, além de ter sido sequestrada, torturada e estuprada por agentes da DitaDURA, foi julgada e condenada a três anos de prisão (cumpriu pena), enquanto seus torturadores (e estupradores e assassinos de centenas de outros cidadãos brasileiros, muitos deles com corpos ainda não identificados e outros desaparecidos) foram simplesmente anistiados, com o ultrajante perdão de seus crimes de lesa-humanidade ora VERGONHOSAMENTE avalizados pelo Supremo Tribunal Federal. Tal decisão sinaliza que, por aqui, os Estados Unidos da América do Norte, através da CIA (apoiada por políticos e pela Grande Mídia – defensores dos interesses da elite nacional), continuam dando as cartas, como nos tempos da DitaDURA habilmente engendrada, implantada, implementada e patrocinada por eles.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 8 de maio de 2010

Ilustração:
Fotos de arquivos diversos expostas na Internet.

Dedicado a Maria

Postado em: 08-05-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

8

higesipo_leila_maria

NOSSA MARIA

Sorrir de prazer, suar, contrair, doer
envolver, embalar, dois atos, um nascer
afagar cabelos, seios, alimento, amor
limpar, banhar, cantarolar, recompor.

Palmadas ardidas, lamentos e ais,
terreiro festivo, vento e varais
mão sobre mãozinha, rabiscar papel
curativo, cicatriz, ferida, vida carrocel.

Bater poeira, varrer medo além quintal
costurar, arrematar, agulhadas e dedal
pratos fundos de ilusão, café, fumaça, chaminé
semear vagens de esperança, colher grãos de fé.

Doses de paciência, medir temperatura
verão, inverno, diversidade, jogo de cintura
aparência rota, cansaço, angústia, saúde doente
intuição, cura, compressa quente.

Mala, beleza, sorriso, faceira
sonhos, adeus, escadaria, voar
passageira felicidade, conchas, areia
uma vida, um momento, brisa e mar.

Corpo e alma, remanescer sabedoria
acolher aos justos e aos pródigos filhos da solidão
meio Santa, Nossa Senhora, Nossa Maria
meio Cristo no milagre da multiplicação.

ÂNGELA BRITO
1989

Ilustração:
Na foto de Kadu Vianna, esta escritora abraçada a seus pais Maria e Higesipo (JULHO 2005-Rio Acima-MG).

Referência:
BRITO, Ângela. Nossa Maria. BRITO, Leila et al. O princípio é o verso. Belo Horizonte: Lutador, 1989, p. 86.