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Diante do espelho, seu corpo nu revelava as nuanças do desejo reprimido nas entranhas. As curvas dos ombros pendiam sem alinhamento. Os seios também. Ligeiramente, eles se soltaram um pouco desencontrados. Ainda eram bonitos e convidativos. O ventre, assim contraído, lembrava as bailarinas do oriente. Os cabelos, caindo sobre o colo e as costas, falavam de sua eterna juventude. O rosto refletia a imobilidade da cena.
Ela observava o corpo nu. A princípio, vazia de sentimentos, friamente, como quem olha um objeto estático. Aos poucos, porém, a cena ganha movimentos inesperados. São as mãos dele que ela vê, passeando aflitas pelos cabelos, pescoço, ombros, apertando os seios, afagando-os daquele jeito atrevido e gostoso. As mãos dele, esculpidas com precisão artística num desenho de formas alongadas e elegantes, quentes de desejo, deslizando pelo ventre e encontrando o encontro de suas pernas.
Sentiu o corpo dele colado ao seu, o sexo tenso resvalando de dentro da roupa. O movimento sincrônico dos corpos ganhando expressão, e o desejo crescendo… crescendo… Aquela vontade louca de senti-lo dentro dela, inteiro, sem medidas, loucamente, naquele vai-e-vem alucinado transcendendo o êxtase. Já não havia mais como impedir a cena; ela interferiu na sua expectativa, saindo do espelho para a cama. E ele estava ali, sobre ela, dentro dela, quente e úmido, fazendo-a gritar de prazer.
Seu corpo estremeceu ligeiramente. Abriu os olhos, e o que viu foi o teto branco do quarto caindo sobre ela. Novamente, fora tomada pelo desvario da paixão. Fechou os olhos, tentando retomar a presença dele ao seu lado, para agora, depois do amor, aconchegá-la nos braços num abraço afetivo e acolhedor. Quem sabe, ela ainda conseguiria sentir seu beijo carinhoso no rosto afogueado de prazer? Que bom seria olhar o rosto dele, agora descontraído e iluminado pela paz!
As lágrimas deslizaram sem aviso e o tremor do corpo trepidou a cama. De novo, a imobilidade impunha seus traços à cena. Porém, em seu pensamento, as lembranças traziam os movimentos daquela história de amor. Uma trama louca que a envolvera num enredo de dúvidas e incertezas quanto aos sentimentos dele.
A recordação do último encontro sobreveio sem aviso. Ele se emocionara, e ela não conseguira esconder seu incontrolável sentimento de amor, que doía reprimir. Depois do abraço contido dele e de sua saída precipitada, o vazio do absurdo invadindo o momento. Aquela sensação de desamparo acompanhando-a na retirada solitária. O nó na garganta comprimindo suas ilusões, e a palavra adeus sendo dita para si mesma, sem se anunciar, de forma tão inesperada quanto assustadora. Por que dissera adeus? Não… Não era para ele que dizia adeus, e sim, para o sofrimento da incerteza de ser amada. Ele tinha o dom de falar de amor com os olhos e de negar o amor com os gestos.
Sentiu frio. O calor do prazer se evaporara do corpo imóvel na viagem do pensamento. As lágrimas voltaram a escorrer lateralmente dos olhos até os cabelos dispersos no travesseiro. Doía muito lembrar sua covardia em assumir o sentimento que transbordava dos olhos, e encontrava seu coração aflito pela verdade. Até quando suportaria lutar contra o seu medo de amá-la?
E as perguntas se precipitaram solitárias nas respostas: será ele um homem insensível? Ou ele se sente um homem acuado? Ou ele é mesmo um homem covarde? Quem é ele afinal? Um mago ou um papa? O mago capaz de fazer a magia de um amor indestrutível, resistente à distância e à saudade e, até mesmo, à indiferença? Ou seria ele o papa, capaz de desvendar o mistério dessa magia e libertá-la do sofrimento?
Seu corpo foi tomado por fortes calafrios. Precisava dormir, mas sabia que não conseguiria. Olhou o relógio. Eram três horas e quatorze minutos da madrugada. Imaginou-o entregue ao sono tranquilo de sua vida feliz ao lado de outra mulher. Um pranto convulsivo sacudiu seu corpo nu e frio. A emoção sobreveio forte e incontrolável. Chorou tanto, que o pranto se perdeu do rumo da madrugada e foi dar na travessia do novo dia que despontava.
De pé diante do espelho, os olhos inchados e tristes refletiam a imagem do desalento. O corpo nu já não se mostrava bonito e sensual; era apenas o espectro de uma mulher desiludida - uma visão desconcertante. Num último gesto de amor daquela noite insone, seus braços vazios abraçaram a si mesma e ela se embalou num afago triste e solitário. A visão do corpo nu e desamparado não deixava lembrar, nem de longe, a estrela que fora um dia, resplandecente de luz. A incerteza de poder rever seu brilho se confirmava no quadro que o espelho refletia. Pensou nele. O que sentiria se a visse assim? E a lembrança de seu olhar emocionado, olhando-a nos olhos, trouxe a certeza clara e transparente de que faltava o gesto mais difícil: a coragem de dizer-lhe ADEUS.
LEILA BRITO
Escrito em 1992
Nota da Autora:
Arapuê em tupi-guarani ou Agoniada em português.
Ilustração:
Autoria – José de Almeida & Maria Flores
Fotógrafo – José de Almeida
Modelo e assistente – Maria Flores
FourHandsPhoto
1º Prêmio P/B na 11ª edição do Concurso de Fotografia de Corroios – 2008.
Disponível no blog: Olhares Fotografia Online / Galeria Pública Nus
Referência:
BRITO, Leila. Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010, p. 23.







parabéns Leila, linda! linda! essa “agonia” .
Vivo muitas vezes assim, arapuê. E o espelho é o senhor do tempo do meu corpo, porem não consegue ser o senhor do tempo de minha alma, e assim vivo nessa agonia.
Leila, estou motivada a conhecer Ara, como faço? qual a editora?
um grd abraço.
Cara Letícia,
“Ara” está no prelo, há bastante tempo (20 anos), aguardando recursos financeiros para ser editado. A editora sou eu e a minha LetraporLetra, empresa individual. Recentemente, em 2007, editei “Mulher Sereia” com recursos próprios, e ainda não me ressarci desse gasto. Estou a formar caixa para o “Ara”, com projeto aprovado pelo MINC (Lei Federal), no artigo 18 (devolução total dos recursos investidos), mas ainda, apesar do intenso trabalho de captação, sem ter conquistado um patrocinador. Ou seja, vivendo a “agonia” dos escritores e poetas desamparados nesse mercado editorial que privilegia o imprestável, educacionalmente falando.
É um grande prazer e uma alegria confortadora ter o apoio de leitores sensíveis e inteligentes como você.
Grata pelo carinho,
Leila
Oi Leila!
A paixão e o desvario ou o desvario da paixão… E o caminho de volta : lágrimas, imobilismo, desilusão.
A Realidade a se impor, tirando o brilho – a frustração diante do espelho.
Seu conto percorre o caminho dos desencontros e nos deixa a dúvida: morrer de amor ou morrer sem nunca ter tido a oportunidade de “sair do espelho para a cama e da cama para o espelho”, de vivenciar “essa dor que desatina sem doer”?
Talvez o melhor seja “viver de amor”, mas é tão difícil…
Parabéns!
Um abraço!
É difícil definir qual a mais genial: a contista ou a poeta?
Um abraço
Marco Antonio
Leila, eu acho um absurdo esse sistema editorial. É uma pena sermos privados das poesias, romances e contos de tantos autores talentosos, que igualmente a você precisam de um espaço no setor editorial para publicarem suas obras. Espero que você consiga, fico aguardando.
um grande abraço.
Olá!
Antes de mais nada, e como mandam as boas regras, uma boa tarde emiga.
Já nem lembras de mim, mas como vês guardei o teu site nos meus favoritos e visito-o imensas vezes podes crer.
Acho lindo a forma como te posicionas perante a realidade, imensas vezes, escondida. É uma pena que as pessoas não assumam, ou não tenha, a tua capacidade para expressar sem medos o que lhe vai na alma. É uma pena, porque assim acabamos por viver num mundo do faz de conta, em que a verdade, a realidade está amordaçada dentro de nós próprios, sem coragem de a deixar ver a luz do dia.
O tempo passa tão depressa e é uma pena que não saibamos tirar o devido proveito do tempo que Deus nos dá.
Foi um prazer estar aqui um pouquinho contigo.
Desejo-te tudo de bom, ou seja o que entenderes melhor para ti e para os teus.
Beijinhos
Carlos
Carlos,
gostaria muito que você me recordasse onde nos conhecemos. Realmente, seu nome não me estranho, mas são tantas as pessoas com quem tenho contato, que, muitas vezes, suas identidades se perdem no que há de mais falho em mim: a memória. Verdade! Ela é o ponto menos potente do meu cérebro.
Grata pelo carinho da participação.
Abraço,
Leila
Muito bom!!!
bjus