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Uma crônica com jeito de conto

Postado em: 31-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

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AS PRIMEIRAS AZALÉIAS

Na tarde cinza de maio, acontecem cenas por trás do vidro fechado da janela.

Sentado à escrivaninha, de frente para a janela, estou vendo uma cena. Dia cinza. Atrás do vidro da janela, estou vendo uma cena. Há um casal parado na calçada em frente. São muito jovens. Ele deve ter no máximo 25 anos, ela pouco menos. Estão bem vestidos, devem pertencer a alguma boa família dos Jardins. Não espio nada. Estou apenas sentado aqui, onde costumo sentar para escrever. A cena acontece no meu campo de visão, só poderia evitá-la saindo daqui. Mas quero ver.

Sobem devagar a ladeira. De repente param na frente da lojinha de surf. Ele encosta no muro. Usa óculos, tem as mãos nos bolsos. Ela fica andando pela calçada em frente à casinha azul, sob o letreiro “Waimea”, com arabescos que tanto podem lembrar ondas quanto gaivotas. Começo a prestar atenção no momento em que percebo: a garota está chorando. Ela chora e fala e gesticula muito enquanto chora.

São três e meia da tarde de domingo. Há uma garota chorando na calçada em frente ao meu apartamento. Faz frio. Um grupo de senhoras muito elegantes em suas peles e lãs sai do edifício ao lado. Mas não olham para o casal. Não sei se por essa educação paulistana, meio londrina, onde a aparente frieza disfarça cumplicidade e respeito — ou mera indiferença, pode ser. Afinal que importância tem uma garota chorando e um rapaz de óculos às três e quarenta e cinco da tarde de um domingo?

O rapaz agora caminha até um carro estacionado no meio-fio. Está de costas para mim. Tira as mãos do bolso. A garota tira o casaco — um casaco de jeans, forrado de pêlo de carneiro. Chega mais perto dele. Às vezes, ele ergue o rosto para o céu cinza. Há muita dor no rosto que ela ergue para o céu cinza. Ela tem o cabelo liso, comprido, castanho-claro, uma mecha mais loura do lado esquerdo. Ele tem o cabelo preto, bem curto. Ela chega mais perto dele. Ele tira os óculos, começa a limpar as lentes na barra do suéter.

Às vezes ficam parados. Quando ficam parados assim enquadrados pela moldura da minha janela, parecem uma fotografia. À esquerda esse edifício construído de perfil, com a pequena alameda que leva do portão de ferro até a portaria, muitas árvores e uma meia dúzia de azaléias bordô (das primeiras desta temporada). À esquerda, a lojinha de surf, toda azul, com um grafite ao lado da porta: o rosto que Alex Vallauri tinha. No centro, o carro onde está encostado o rapaz vestido em tons de cinza e a garota vestida em tons de azul. Quase quatro da tarde, só há cor nas azaléias e na fachada da lojinha de artigos de surf.

Ela ronda em volta dele, falando sem parar, chegando cada vez mais perto. Eu acendo um cigarro. Ela o abraça. Ele não se move, nem descruza os braços. Ele não se move enquanto ela o abraça cada vez mais forte. Ela começa a beijá-lo. Ele não recusa, apenas vira delicadamente o rosto para o lado onde a rua desce. Assim, ela só consegue beijá-lo no pescoço e na face. Na boca, não. Ela só pára de beijá-lo para afastar os cabelos do rosto e, de vez em quando, olhar o céu cinza.

Agora, ela afasta o rosto e fica abraçada nele. Da minha janela posso ver os braços dela cruzados às costas dele. Ele voltou a colocar as mãos nos bolsos. De repente, ela o toma pelo braço e começa a puxá-lo para cima, para onde a ladeira sobe. Ele caminha olhando para o chão. Ela joga o casaco nas costas, afasta os cabelos, levanta o rosto. Parece decidida. Eles começam a subir a ladeira. Até sumirem do quadrado da janela. Certamente, da minha vida também.

São quatro horas e cinco minutos. Não acontece mais cena alguma do lado de fora da minha janela. Talvez tome mais um café, fume outro cigarro, qualquer coisa assim. Foi exatamente há um ano, na lua cheia de maio. Depois, nunca mais. Por onde você tem andado, baby?

CAIO FERNANDO ABREU
São Paulo, 15 MAI 1987

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
ABREU, Caio Fernando. Pequenas Epifanias (1986/1995). Porto Alegre: Sulina, 1996.

O “poder” segundo Foucault

Postado em: 24-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Política

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submissão

LEILA BRITO

Como se pode constatar numa observação atenta da obra de Michel Foucault, segundo Fontana e Bertani (1999), a despeito de ter criado uma teoria do poder, o filósofo jamais dedicou um livro específico ao tema. Ao contrário, tal teoria foi sendo consolidada nas suas inúmeras análises históricas sobre os hospícios, a loucura, a medicina, as prisões, a sexualidade, o policiamento, por meio das quais explicou o funcionamento, a ação e os efeitos do poder,  esboçando  seus delineamentos essenciais, explicando-se incansavelmente, ou seja, expondo de forma clara e convincente o que ele é e como funciona. Assim, o que se tem é que, em Foucault, “a questão do poder se espraia, pois ao longo de todas essas análises, [o filósofo] forma um só todo com elas”, sendo-lhes, pois, imanente e, por isso mesmo, indissociável (FONTANA e BERTANI, 1999, p. 331).

Em sua aula de 14 de janeiro de 1976, no curso do Collège de France, Foucault (1976, p. 179) explica que o que tentou investigar, a partir de 1970, foi a forma como o poder é exercido, ou seja, o como do poder. Com o objetivo de direcionar este artigo para um foco específico, será destacado entre os vários planos analisados pelo filósofo, o seu entendimento de que o indivíduo é um dos primeiros efeitos do poder, e não, o outro do poder. Em síntese: “o indivíduo é o efeito do poder e, simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão. O poder passa através do indivíduo que ele constituiu” (FOUCAULT, 1989, p. 183-184).

Assim, segundo Foucault, é fundamental “não tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de uma classe sobre as outras, mas ter bem presente que o poder – desde que não seja considerado de muito longe – não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos. O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui e ali, nunca está em mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas, os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder, e de sofrer sua ação; nunca são alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles” (FOUCAULT, 1989, p. 183).

Para formular suas análises, o filósofo extrai, histórica e empiricamente, das relações de poder os operadores de dominação, partindo da própria relação de dominação no que ela tem de factual, de efetivo, para demonstrar: (a) que são as relações de sujeição efetivas que fabricam sujeitos;  (b) como os diferentes operadores de dominação se apóiam uns nos outros, remetem uns aos outros; (c) como, em certo número de casos, se fortalecem e convergem;  e (d) também como, noutros casos, se negam ou tendem a se anular (FOUCAULT, 2000).

Para Foucault, são essas correlações de força, em sua desigualdade, que, continuamente, induzem estados de poder sempre localizados e instáveis. A onipotência do poder se impõe, “porque se produz a cada instante, em todos os pontos, ou melhor, em toda relação entre um ponto e outro”. Assim, “o poder está em toda parte; não porque englobe tudo, e sim, porque provém de todos os lugares”. O poder não é, pois, uma instituição nem uma estrutura e, também, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados, mas “o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada” (FOUCAULT, 1988, p. 103).

E com base nessa linha de raciocínio, introduz as proposições:  “[...] que o poder não é algo que se adquire, arrebate ou compartilhe, algo que se guarde ou deixe escapar; o poder se exerce a partir de inúmeros pontos e em meio a relações desiguais e móveis; que as relações de poder não se encontram em posição de exterioridade com respeito a outros tipos de relações [...] mas lhe são imanentes [...]; que o poder vem de baixo; isto é, não há, no princípio das relações de poder, e como matriz geral, uma oposição binária e global entre os dominadores e os dominados, dualidade que repercute de alto a baixo e sobre grupos cada vez mais restritos até as profundezas do corpo social [...]; que as relações de poder são, ao mesmo tempo, intencionais e não subjetivas. Se, de fato, são intelegíveis, não é porque sejam efeito, em termos de causalidade, mas porque atravessadas de fora a fora por um cálculo: não há poder que se exerça sem uma série de miras e objetivos. Mas isso não quer dizer que resulte da escolha ou da decisão de um sujeito, individualmente [...]; que lá onde há poder há resistência e, no entanto (ou melhor, por isso mesmo) esta nunca se encontra em posição de exterioridade em relação ao poder” (FOUCAULT, 1988, p. 104-105).

Partindo da análise dos antagonismos, das oposições, Foucault (1999, p. 234) argumenta que: “para compreender o que são relações de poder talvez devêssemos investigar as formas de resistência e as tentativas de dissociar essas relações”. Ou seja, o poder é uma relação de forças que se encontra presente, e em constante movimento, em todos os espaços sociais, sejam eles públicos ou privados, gerando tensões que se expressam em toda relação. A resistência comparece, então, como parte constitutiva dessa relação, pois ela está sempre presente, e se configura como o grito do descontentamento anunciando o exercício da liberdade.

Podemos dizer, pois, que assim é feita a história de um sujeito, de um povo, de uma nação; ou seja, no bojo de uma constante relação de incitação entre poder e resistência. Como infere Foucault: “para descobrir o que significa, na nossa sociedade, a sanidade, talvez devêssemos investigar o que ocorre no campo da insanidade. Em decorrência, “talvez, o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos deste ‘duplo constrangimento’ político, que é a simultânea individualização e totalização própria às estruturas do poder moderno” (FOUCAULT, 1995, p. 239).

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 23 MAR 2010

Referências:
FONTANI, Alessandro; BERTANi, Mauro. Situação do curso. In: FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975/1976). Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Coleção Tópicos
FOUCAULT, M. História da Sexualidade: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. 8ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989, pp. 179/191.
FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H.; RABINOW, P. Michel Foucault –  uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. p. 231-249.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975/1976). Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Ilustração:
Autor desconhecido desta escritora.

Vídeo da Semana

Postado em: 24-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Política, Vídeos

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Michel-foucault

Michel Foucault é o filósofo que mais profundamente renovou a figura do pensamento: “pensar é sempre experimentar, não interpretar, mas experimentar, e a experimentação é sempre o atual, o nascente, o novo, o que está em vias de se fazer” (DELEUZE, 1998, p. 132). Assim, “a Filosofia é trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo” (FOUCAULT apud CHAVES, 1988, p. 14).

Para Foucault, o objetivo principal do pensamento crítico deveria ser o de “imaginar e construir o que poderíamos ser”, para nos libertarmos da “individualização e totalização simultâneas das estruturas do poder moderno”. Desta forma, “temos de promover novas formas de subjetividade ao recusar o tipo de individualidade que nos foi imposta durante vários séculos” (FOUCAULT, 1982 apud CALVET, 1997, p. 55).

A partir de Foucault, a Filosofia pode ser considerada a política imanente à história e a história indispensável à política. Na opinião de Deleuze e Parnet (1977), trata-se de um filósofo que consegue com a história uma relação completamente diferente dos historiadores. A história, tal como Foucault a pensa, escreve Deleuze, “nos cerca e nos delimita; não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em vias de diferir”, ou seja, a história “não estabelece nossa identidade, mas a dissipa em proveito do outro que somos”. Em Foucault a história “é o que nos separa de nós mesmos, e o que devemos transpor e atravessar para nos pensarmos a nós mesmos” (Deleuze 1988, p. 119, apud CALVET, 1997, p. 30).

Anunciando o artigo intitulado O “poder” segundo Foucault, desta escritora, o Chá.com Letras disponibiliza, no espaço de vídeo (barra fixa à direita) a primeira parte – 1/3 – da entrevista de Foucault sobre Filosofía y Psicología, com legenda em espanhol. As outras duas partes são encontradas nos endereços do Youtube: 2/3 – http://www.youtube.com/watch?v=nz0AYpwK8Ds&feature=related ; e 3/3 – http://www.youtube.com/watch?v=wC_4B3uWl8Y&feature=related .

Senhoras e Senhores, com vocês… o filósofo Michel Foucault!

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 24 MAR 2010

Referências:
CALVET, Teresa. A filosofia como discurso da modernidade. Ética e Filosofia Política, v. 2, n. 1, p. 26-64, 1997.
CHAVES, E. Foucault e a psicanálise. Rio de Janeiro: Forense, 1988.
DELEUZE, G.; PARNET, C. Dialogues. Paris: Flammarion, 1977.
DELEUZE, G. Conversações 1972-1990. Tradução de Peter Päl Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
DELEUZE, G. Michel Foucault. Magazine Littéraire, n. 257, set 1988. Entrevista concedida a Raymond Bellour e François Ewald.

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Arapuê

Postado em: 14-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

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Diante do espelho, seu corpo nu revelava as nuanças do desejo reprimido nas entranhas. As curvas dos ombros pendiam sem alinhamento. Os seios também. Ligeiramente, eles se soltaram um pouco desencontrados. Ainda eram bonitos e convidativos. O ventre, assim contraído, lembrava as bailarinas do oriente. Os cabelos, caindo sobre o colo e as costas, falavam de sua eterna juventude. O rosto refletia a imobilidade da cena.

Ela observava o corpo nu. A princípio, vazia de sentimentos, friamente, como quem olha um objeto estático. Aos poucos, porém, a cena ganha movimentos inesperados. São as mãos dele que ela vê, passeando aflitas pelos cabelos, pescoço, ombros, apertando os seios, afagando-os daquele jeito atrevido e gostoso. As mãos dele, esculpidas com precisão artística num desenho de formas alongadas e elegantes, quentes de desejo, deslizando pelo ventre e encontrando o encontro de suas pernas.

Sentiu o corpo dele colado ao seu, o sexo tenso resvalando de dentro da roupa. O movimento sincrônico dos corpos ganhando expressão, e o desejo crescendo… crescendo… Aquela vontade louca de senti-lo dentro dela, inteiro, sem medidas, loucamente, naquele vai-e-vem alucinado transcendendo o êxtase. Já não havia mais como impedir a cena; ela interferiu na sua expectativa, saindo do espelho para a cama. E ele estava ali, sobre ela, dentro dela, quente e úmido, fazendo-a gritar de prazer.

Seu corpo estremeceu ligeiramente. Abriu os olhos, e o que viu foi o teto branco do quarto caindo sobre ela. Novamente, fora tomada pelo desvario da paixão. Fechou os olhos, tentando retomar a presença dele ao seu lado, para agora, depois do amor, aconchegá-la nos braços num abraço afetivo e acolhedor. Quem sabe, ela ainda conseguiria sentir seu beijo carinhoso no rosto afogueado de prazer? Que bom seria olhar o rosto dele, agora descontraído e iluminado pela paz!

As lágrimas deslizaram sem aviso e o tremor do corpo trepidou a cama. De novo, a imobilidade impunha seus traços à cena. Porém, em seu pensamento, as lembranças traziam os movimentos daquela história de amor. Uma trama louca que a envolvera num enredo de dúvidas e incertezas quanto aos sentimentos dele.

A recordação do último encontro sobreveio sem aviso. Ele se emocionara, e ela não conseguira esconder seu incontrolável sentimento de amor, que doía reprimir. Depois do abraço contido dele e de sua saída precipitada, o vazio do absurdo invadindo o momento. Aquela sensação de desamparo acompanhando-a na retirada solitária. O nó na garganta comprimindo suas ilusões, e a palavra adeus sendo dita para si mesma, sem se anunciar, de forma tão inesperada quanto assustadora. Por que dissera adeus? Não… Não era para ele que dizia adeus, e sim, para o sofrimento da incerteza de ser amada. Ele tinha o dom de falar de amor com os olhos e de negar o amor com os gestos.

Sentiu frio. O calor do prazer se evaporara do corpo imóvel na viagem do pensamento. As lágrimas voltaram a escorrer lateralmente dos olhos até os cabelos dispersos no travesseiro. Doía muito lembrar sua covardia em assumir o sentimento que transbordava dos olhos, e encontrava seu coração aflito pela verdade. Até quando suportaria lutar contra o seu medo de amá-la?

E as perguntas se precipitaram solitárias nas respostas: será ele um homem insensível? Ou ele se sente um homem acuado? Ou ele é mesmo um homem covarde? Quem é ele afinal? Um mago ou um papa? O mago capaz de fazer a magia de um amor indestrutível, resistente à distância e à saudade e, até mesmo, à indiferença? Ou seria ele o papa, capaz de desvendar o mistério dessa magia e libertá-la do sofrimento?

Seu corpo foi tomado por fortes calafrios. Precisava dormir, mas sabia que não conseguiria. Olhou o relógio. Eram três horas e quatorze minutos da madrugada. Imaginou-o entregue ao sono tranquilo de sua vida feliz ao lado de outra mulher. Um pranto convulsivo sacudiu seu corpo nu e frio. A emoção sobreveio forte e incontrolável. Chorou tanto, que o pranto se perdeu do rumo da madrugada e foi dar na travessia do novo dia que despontava.

De pé diante do espelho, os olhos inchados e tristes refletiam a imagem do desalento. O corpo nu já não se mostrava bonito e sensual; era apenas o espectro de uma mulher desiludida - uma visão desconcertante. Num último gesto de amor daquela noite insone, seus braços vazios abraçaram a si mesma e ela se embalou num afago triste e solitário. A visão do corpo nu e desamparado não deixava lembrar, nem de longe, a estrela que fora um dia, resplandecente de luz. A incerteza de poder rever seu brilho se confirmava no quadro que o espelho refletia. Pensou nele. O que sentiria se a visse assim? E a lembrança de seu olhar emocionado, olhando-a nos olhos, trouxe a certeza clara e transparente de que faltava o gesto mais difícil: a coragem de dizer-lhe ADEUS.

LEILA BRITO
Escrito em 1992

Nota da Autora:
Arapuê em tupi-guarani ou Agoniada em português.

Ilustração:
Autoria – José de Almeida & Maria Flores
Fotógrafo – José de Almeida
Modelo e assistente – Maria Flores
FourHandsPhoto
1º Prêmio P/B na 11ª edição do Concurso de Fotografia de Corroios – 2008.
Disponível no blog: Olhares Fotografia Online / Galeria Pública Nus

Referência:
BRITO, Leila. Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010, p. 23.

Mulher, mujer, femme, donna, woman, frau, γοργόνα…

Postado em: 05-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

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Afrodite
mulher  vrouw  إمرأة [مرميد]
mujer  女性の  sereia
femme 妇女 mermaid
woman  женщина 美人鱼
frau  婦女  γοργόνα sirena
γυναίκα fraunixe  美人魚
donna  여자 인어  sirène
na água mesma do mar
atlântico índico pacífico
negro vermelho morto
báltico mediterrâneo
libertas quæ sera tamen.

LEILA BRITO

Ilustração:
Afrodite
Pintura de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
BRITO, Leila. Mulher Sereia. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2007.

Vídeo da Semana

Postado em: 05-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Música, Vídeos

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O Chá.com Letras, rendendo uma homenagem especial à MULHER, pelo  seu dia, disponibiliza, no seu espaço de vídeo  (barra fixa à direita), a bela canção WOMAN, do incomparável John Lennon:

http://www.youtube.com/watch?v=PnayXShG73w

WOMAN
MULHER
John Lennon

Mulher, eu quase não consigo expressar
Minhas emoções confusas na minha negligência.
Afinal de contas, estou eternamente em dívida com você.
E, mulher, eu tentarei expressar
Meus sentimentos interiores e gratidão
Por me mostrar o significado do sucesso.

Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo.
Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo.

Mulher, eu sei que você compreende
A criancinha dentro do homem.
Por favor, lembre-se: minha vida está em suas mãos.
E, mulher, mantenha-me próximo do seu coração
Por mais que [estejamos] distantes,
não nos mantenha separados.
Afinal de contas, está escrito nas estrelas…

Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo.
Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo,
Bem…

Mulher, por favor deixe-me explicar:
Eu nunca tive intenção de te causar tristeza ou dor.
Então, deixe-me te dizer de novo e de novo e de novo:

Eu te amo, sim, sim,
Agora e eternamente.
Eu te amo, sim, sim,
Agora e eternamente.
Eu te amo, sim, sim,
Agora e eternamente.
Eu te amo, sim, sim…

Salve 8 de Março de 2010!

Ilustração:
John Lennon e Yoko Ono – Amsterdam Hilton (1969)
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Prisioneiros

Postado em: 02-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Literatura

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Liberdade

A liberdade se perdeu
dos sentimentos
transviou-se.

Busca-se, em vão,
libertá-la do emaranhado de teias
onde se prendeu.

A liberdade se perdeu.
Agarrou-se às amarras do dever,
sujeitou-se às imposições do poder.

Prendeu-se
na busca incauta do bom senso,
não se divisa mais o seu calor intenso.

Desprendeu-se
no abismo da mentira movediça
cúmplice da traição à própria verdade.

Procura-se a liberdade.

LEILA BRITO

Ilustração:
Liberdade

Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
BRITO, Leila. Prisioneiros. In: BRITO, Ângela et. al. O princípio é o verso. Belo Horizonte: O Lutador, 1989. p. 25.