Chá.com Letras Rss

Vídeo da Semana

Postado em: 24-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Música, Vídeos

2

RenatoRusso-10_mvg_bruce1
Fazendo um link com o poema-homenagem a mim ofertado pelo poeta Moacir Oliveira, disponibilizo, no espaço de vídeo (à direita) deste blog, uma das mais interessantes canções do Renato Russo – o rock-balada Leila, tema de abertura do meu show Leila – do Rock ao Samba, realizado em 1998, no Teatro da Praça, em Belo Horizonte-MG.

O mais incrível dessa canção é que a personagem criada (ou retratada) pelo grande compositor, coincidentemente, tem tudo a ver comigo (tirando o “unzinho”…rsrs) na época. Muito interessante essa identidade descritiva da Leila do Renato Russo com a minha pessoa. Por isso a escolhi como tema deste meu inesquecível show, quando subi ao palco acompanhada do meu pai  Higesipo Brito (então com 81 anos – saudade de você, pai!) – músico-saxofonista, maestro e compositor; do meu filho – músico-baterista – Arthur Rezende (então com 17 anos); do meu irmão Eugênio Britto – músico-violonista, compositor e cantor; e do meu sobrinho Kadu Vianna (então com 18 anos) – cantor, compositor e músico-violonista/guitarrista/pianista.

E estendendo a homenagem do Moacir a esta poeta, reverencio o saudoso cantor e compositor que, com sua Legião Urbana, revolucionou a juventude brasileira dos Anos 1990 (né mesmo Gustavo Brito?) com seus conceitos político-sociais cantados em versos e prosas poéticas.

Acessem:  http://www.youtube.com/watch?v=sh2FilqUVnI&feature=related , e  ouçam Leila na voz do seu autor.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 24 FEV 2010.

Ilustração:
Renato Russo
Foto de autoria desconhecida desta escritora.

Poema para Leila

Postado em: 24-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

5

Leila-4
Hoje a vi cosendo versos alinhavando palavras
Hoje a surpreendi vasculhando dicionários
inventando frases filtrando rimas
Hoje a encontrei de bem com canetas e papéis
desenhando estrofes
Hoje ela estava demais exalando essências
Hoje a vi toda prosa juntando mel e rosa
cheia de vida rezando cores na escrivaninha
Hoje o quarto de livros está menos pálido menos mofo
Hoje acho que o dia vai custar a partir
vai vagarando tarde afora
Hoje é daqueles dias grávidos de poesia

MOACIR OLIVEIRA
www.moampb.blogspot.com


Ilustração:

Leila Brito clicada por  Nino Andrés
Show Leila – do Rock ao Samba
Teatro da Praça – Belo Horizonte-MG – 14 MAI 1998.

Referência:
OLIVEIRA, Moacir. Poema para Leila. São Paulo, 19 DEZ 2009.

Um conto de Kafka

Postado em: 04-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Política

6

franz_kafka-09mnk

DIANTE DA LEI
Franz Kafka

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde.

— É possível – diz o guarda. — Mas não agora!

O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz:

— Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim.

O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar. O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo, mas diz sempre:

— Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste.

Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei.

Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das
peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão,
um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima. Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo.

— Que queres tu saber ainda?, pergunta o guarda. — És insaciável.

Se todos aspiram a Lei, disse o homem. — Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar.

O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte.

— Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a.


Ilustração:

Autor desconhecido desta escritora.

Referência:
KAFKA, Franz. Contos. Disponível em: <http://www.e-text.org/text/Kafka,%20Franz%20-%20contos.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2010.

Vídeo da Semana

Postado em: 04-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Vídeos

1

kafka

Meu escritor preferido em língua estrangeira, Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 – Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um dos maiores literatos de ficção da língua alemã do século XX. A escrita de Kafka é marcada pelo seu tom despegado, imparcial, atenciosa ao menor detalhe, abrangendo os temas da alienação e perseguição, o que pode ser visto nas pequenas histórias A Metamorfose, Um artista da fome, nos romances O Processo, América e O Castelo. Destaque, também, para os contos Muralha da China e Blumfeld, um solteirão de meia-idade.

No mundo kafkiano, os personagens não sabem que rumo podem tomar, não sabem dos objetivos da sua vida, questionam seriamente a existência e acabam sós, diante de uma situação que não planejaram, pois todos os acontecimentos se viraram contra eles, não lhes oferecendo a oportunidade de se aproveitar da situação e, muitas vezes, nem mesmo de sair desta. Por isso, a temática da solidão como fuga, a paranóia e os delírios de influência estão muito ligados à obra kafkiana, sendo comum a existência de personagens secundários que espiam, e conspiram contra o protagonista das histórias de Kafka (geralmente homens, à exceção de alguns contos onde aparecem animais e raros onde a personagem principal é uma mulher). No fundo, estes protagonistas não são mais que projeções do próprio Kafka, onde ele expõe os seus medos, a sua angústia perante o mundo, a sua solidão interior.

Considerada sua obra de maior expressão, O Processo (Der Prozess) conta a história de Josef K, personagem que acorda certa manhã e, sem motivos sabidos, é preso e sujeito a longo e incompreensível processo por um crime que ignora, ou seja,  ele desconhece a acusação.

Segundo Max Brod, amigo pessoal de Kafka, e a quem o escritor entregou, em 1920, todos os seus escritos com a ordem de que os destruisse, o romance permaneceu inacabado. Contrariando o pedido do amigo, após sua morte, Brod editou O Processo por julgá-lo uma obra coerente, publicando-o em 1925.

Em homenagem a Franz Kafka, o Chá.com Letras disponibiliza, no espaço de vídeo, a primeira (1/13) das treze partes de mais uma grandiosa obra do lendário diretor Orson Welles: The Trial (Le Procès),  filmado em 1962 (versionado para o espanhol): http://www.youtube.com/watch?v=CKdXn_wXFqM&feature=player_embedded
As outras podem ser encontradas, em sequência, no Youtube – endereços abaixo:

2/13 – http://www.youtube.com/watch?v=qn3Icnd7oEY&feature=related
3/13 – http://www.youtube.com/watch?v=0GNAEXVKzyE&feature=related
4/13 – http://www.youtube.com/watch?v=0GNAEXVKzyE&feature=related
5/13 – http://www.youtube.com/watch?v=Rkmf6jxVwW4&feature=related
6/13 – http://www.youtube.com/watch?v=ZnwuY8WgC3M&feature=related
7/13 – http://www.youtube.com/watch?v=e47gdjDsNMc&feature=related
8/13- http://www.youtube.com/watch?v=f9q8RHxTN7w&feature=related
9/13- http://www.youtube.com/watch?v=QWREVg7cmOY&feature=related
10/13- http://www.youtube.com/watch?v=agEoUh5jH-A&feature=related
11/14- http://www.youtube.com/watch?v=PSeQ4aX4fxc&feature=related
12/13- http://www.youtube.com/watch?v=HUO-SCg1-xk&feature=related
13/13- http://www.youtube.com/watch?v=JtwzBiXxDbg&feature=related

Entrevistado pela BBC em 1962, Orson Welles afirmou que o período mais feliz de sua vida havia sido durante as filmagens de The Trial (Le Procès). Após cinco anos sem filmar, a produção cara, sem restrições e sem fins lucrativos, foi um presente para ele. O diretor pôde contar com atuações de Anthony Perkins (no papel de Josef K), Jeanne Moreau e Romy Shneider. Apesar de todos os críticos indicarem seu filme Cidadão Kane como obra-prima do cinema, Orson Welles não teve dúvida em apontar The Trial como filme predileto.

A versão de Orson Welles de O Processo procurou ser fiel a Kafka. O argumento é, sem dúvida nenhuma, Kafkiano. Algumas mudanças são fruto da interpretação pessoal do diretor e da adaptação da história de 1914 aos anos sessenta.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 4 FEV 2009.

Ilustração:
Fotografia de Franz Kafka feita em 1917.

Referências:

KAFKA, Franz. O processo. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 280 p.
O Processo (The Trial – Le Procès) 1962. Disponível em: <http://www.processocriminalpslf.com.br/o_processo.htm>. Acesso em: 4 fev. 2010.
WIKIPÉDIA. Franz Kafka. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Kafka>. Acesso em: 4 fev. 2010.