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Frida e as hostes do sonho

Postado em: 28-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

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Angustiantemente - frida_kahlo_without_hope

“O mistério coabita os pesadelos; a perícia é dos sonhos”.
CARLOS NEJAR

Porque a ânsia disritma o compasso de qualquer tempo e o distanciamento explode a imobilidade de qualquer espera, interstícios abissais se abrem na soleira dos sentidos suicidando, momentaneamente, o desejo. Inerte, ela vê, no vácuo do assombro, o presente capturado pelo desmaio da certeza, o passado em rédeas soltas pelo desafio da dúvida, os pés tateando o breu do futuro e o instante engasgado num soluço impotente.

O abalo do  inesperado trepida o chão, e o céu de Frida, sucumbindo sob escombros, apaga as estrelas esquecidas de dormir na madrugada insone do ansiado encontro. Resta socorrer-se em palavras ditadas pela aflição aguda do desencanto que apunhala o desnorteamento dos sentidos no vão do susto. Tenta neutralizar a dor com emplasto de uma sabedoria tão desiludida, que mais faz doer que aplacar o sofrimento.

Se tem algo que Frida conhece bem, é o verso e o reverso do medo da perda. Por isso, sabe que independente do lado para o qual se incline, o perigo oculto na dor é o mesmo: se para o lado da dúvida, fica refém da esperança; se para o lado da certeza, fica refém da ilusão. O que lhe resta senão dar crédito à ilusão, mesmo sabendo do risco de um suicídio definitivo do desejo?

É quando a ânsia dá lugar ao medo e seu coração palpita o descompasso de um desalento tão desesperador que  a ilusão é tragada pelo incômodo silêncio da voz dele no seu ouvido, desligada abruptamente da vital energia amorosa. E então, Frida sente o calor do sonho sendo congelado pelo frio de uma agoniada espera surda, muda, cega e paralítica.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 27 JAN 2010.

Ilustração:
Frida Kahlo -  Sin esperanza – 1945
Colleción Museo Dollores Olmedo Patiño – Ciudad del Mexico

Referência:
BRITO, Leila. Frida e as hostes do sonho. Chá.com Letras. Belo Horizonte, 27 jan. 2010. Disponível em: <www.chacomletras.com.br>. Acesso em: dia, mês, ano (ex. 28 jan. 2010).

Vídeo da Semana

Postado em: 16-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Vídeos

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harold

HAROLD AND MAUDE

Desta feita, o espaço de vídeo do Chá.com Letras estreia no cinema, com o trailer do apaixonante filme Harold and Maude (Ensina-me a Viver), que retrata o relacionamento amoroso entre Harold – um jovem de 20 anos com obsessão pela morte (ele passa a maior parte de seu tempo indo a funerais e simulando suicídios) e uma senhora de 79 anos encantada com a vida.

A razão da indicação é a inteligente e sensível abordagem do contraponto: o culto da morte por um velho jovem e o culto da vida por uma jovem velha que, num relacionamento regado a deliciosas e inusitadas loucuras, são flechados por Eros. Essa paixão entre gerações tão antagônicas em vivência existencial é um dos amores mais lindos de que tenho notícia, superando, a meu ver, a paixão de Romeu e Julieta. É simplesmente maravilhoso!

Direção: Hal Ashby
Roteiro: Collin Higgins
Elenco: Ruth Gordon (Maude) e Bud Cort (Harold Chasen)

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 16 jan. 2009.

Sinfonia em dor maior

Postado em: 16-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

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Mulhernaspedras
e tudo o que era
na espera doce de se fazer em flor
deixou de ser
no desencontro de se querer o amor
no corte frio da navalha em fio
cortando fundo a cicatriz em dor
expondo a carne à solidão sofrida
de se perder no seio da ferida
aberta ao sofrimento em cor
de sangue rubro escorrendo tinto
nos veios da pele em pálido fulgor
de brilho opaco bêbado de luz
se resvalando pelos vãos do corpo nu
de braços se abrindo em cruz
na entrega cálida do prazer a sós
porque nós dois de nós nos perdemos
juntos no separado espaço da loucura insana
de esquecer o amor em nós se contorcendo
em espasmos lúbricos de vil coreografia
sórdida no seu bailar sozinha
a dança errante do prazer em agonia
perpetuando a solidão a sós de nós
dois nos separando em dois amores
que antes de ser dividido em dor
foi um inteiro feliz de um só desejo
se reunindo num espiralar de pétalas
à espera doce de se abrir em flor.

LEILA BRITO

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta poeta.

Referência:
BRITO, Leila. E tudo o que era. Launim. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.

Pensando o feminino

Postado em: 10-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Política

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monalisa

Gerada no primórdio do tempo, a ideologia do patriarcalismo, que delegou ao homem o comando do mundo estereotipando a masculinidade como sinônimo de poder,  transformou a Mulher  em figura secundária no processo de formação e desenvolvimento da Humanidade. E isto, enfatize-se, em âmbito mundial, o que gerou a negação da participação ativa da Mulher no processo da evolução humana, dificultando seu pleno desenvolvimento humano e social.

Esta é uma verdade irrefutável retratada na obra que Rose Marie Muraro cognominou “A Bíblia da Mulher Moderna”, intitulada Eunucos pelo Reino de Deus (Editora Record – selo Rosa dos Tempos, 1996) da teóloga alemã Uta Hanke~Heinemann. Trata-se  de uma tese (com base em pesquisa documental) defendida pela autora em seu pós-doutorado, e que lhe custou a perda de sua cátedra numa das universidades católicas da Alemanha, por ordem do Papa João Paulo II que, simplesmente, como convém ao autoritarismo histórico da Igreja Católica Apostólica Romana, usou de sua autoridade político-religiosa máxima para punir sua autora  por desobediência religiosa ao publicar tal obra, que ele condenou, por ser reveladora das atrocidades que vêm sendo cometidas, no decorrer do tempo (da história da Humanidade), pela Santa Madre Igreja contra as Mulheres (ao persegui-las em todos os sentidos) e, por extensão, contra os homens, ao ditar uma moral sexual que coibe e proibe (por repressão terrorista) o prazer do corpo; ao condenar a prática sexual como um meio natural de prazer físico e emocional. Nesta grande obra (espetacular!), certamente, encontram-se muito bem definidas as bases históricas do patriarcalismo, e isto, porque ele nasceu com os preceitos preconceituosos que sustentam os dogmas religiosos, em especial, os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana. Esta leitura é obrigatória em se tratando de conteúdo informativo de caráter incontestável em termos de veracidade. Imperdível a sua leitura pelas mulheres inteligentes, como tão bem propõe Rose Marie Muraro.

Esta e outras leituras de obras importantes sobre o tema confirmam que é preciso ter um conhecimento consistente para focar a questão do feminino, empreendida por muitos autores de forma indevida, por simplificarem sua complexidade com abordagens superficiais e, muitas vezes, incoerentes e distorcidas, que só contribuem para avalizar uma intencional desvalorização sócio-cultural de sua imagem. Esta é a intenção da mídia capitalista: divulgar um estereótipo de mulher que esteja totalmente em discordância com a evolução de suas conquistas como cidadã (alcançadas pelos movimentos feministas [discurso intelectual, filosófico e político que tem como meta os direitos iguais e a proteção legal às Mulheres], em especial, o ocorrido nas décadas de 1960-1970), exatamente, para preservar o estereótipo gerado pelo patriarcalismo – a masculinidade como poder supremo, que precisa, por razões óbvias (a desvalorização da força de trabalho feminina), ser mantido a qualquer custo. Portanto, interessa ao capitalismo manter a relação de poder entre os sexos, estimular o machismo.

Sobre esta questão, Elisabeth Badinter esclarece, em sua obra Sobre a Identidade Masculina, editada no Brasil em 1993, que não é a mulher que é machista, nem mesmo o homem, e sim a Humanidade, por não saber lidar com a diferença entre o homem e a mulher sem desvinculá-la da idéia de poder instituída pelas religiões através do mito de deus, naturalmente, favorecendo o masculino. Esta seria, na opinião da autora, a raiz do problema e, ao mesmo tempo, a chave do conflito entre os sexos, que ultrapassa a esfera do relacionamento a dois para o âmbito das relações sociais e de trabalho.

Sobre as diferenças sexuais, Sylviane Agacinsky, em seu livro Política dos Sexos, editado no Brasil em 1999, ratifica esse ponto de vista, ao explicar que, infelizmente, elas têm sido consideradas num contexto de relação de poder – de ordem política, e não, numa relação de completude – de ordem biológica e filosófica. É muito importante esclarecer que os movimentos feministas nunca reivindicaram uma igualdade dos sexos no plano físico, e sim, no plano político, ou seja, no plano dos direitos. Faz-se muita confusão quanto a isto. O que se quis e se quer é uma igualdade de direitos civis, e não, corporal, muito embora tais direitos devam ser estendidos também ao próprio corpo (o que justificaria o direito da mulher ao aborto). A diferença física entre o homem e a mulher é inegável, mas sem desmerecimento de um ou de outro, uma vez que existe em função da necessidade natural de se somar o Homem e a Mulher para se encontrar o Todo da raça humana.

Importante, também, é atentar para o fato de que esta diferença de ordem biológica não é tão radical assim como se mostra exteriormente. É preciso, antes de tudo, entender que o patriarcalismo anulou a aceitação da existência do feminino no Homem e  do masculino na Mulher, como esclarecem Rose Marie Muraro e Leonardo Boff em Feminino e Masculino: Uma Nova Consciência para o Encontro das Diferenças, editado em 2002. Entendido que o Homem tem em si uma porção feminina, e que a Mulher tem em si uma porção masculina, o que é biologicamente comprovado pela presença dos dois tipos de hormônios em seus corpos, estará entendido que Homem e Mulher, ao mesmo tempo que diferentes entre si, são iguais entre si; que, ao mesmo tempo que incompletos fisicamente (pois exteriormente cada um tem a ausência do outro sexo), são interiormente completos na essência sexual. E sendo assim, nenhum pode ser considerado inferior nem superior ao outro. É neste sentido que se pode defender o conceito de uma igualdade sexual plena entre Homem e Mulher que, em si própria, justifica uma igualdade de direitos.

Fala-se muito sobre as consequências dos movimentos feministas (ocorridos em três ondas, ou seja, em três épocas diferentes) sem se abordar suas causas e as interferências de natureza sócio-cultural que atuaram e atuam sobre eles próprios. Esta é a origem de sua incompreensão pelas próprias Mulheres – seu desconhecimento histórico-científico. Há, pois, que se divulgar mais textos informativos sobre os estereótipos masculino e feminino criados e alimentados pela sociedade patriarcalista (ainda predominante) e textos analítico-críticos fundamentados em informações consistentes, de forma a transmitir um competente conhecimento científico de base que permita à Mulher pós-moderna assimilar o conflito sexual existente dentro do contexto sócio-cultural no qual está inserida, desenvolvendo seu senso crítico, ampliando sua visão, de forma a torná-la capaz de avaliar suas próprias atitudes no âmbito de sua vida afetivo-sexual, familiar, profissional e social, e o mais importante: suas atitudes em relação a si mesma como MULHER-GERATRIZ-CIDADÃ do mundo.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 2003.

Ilustração:
La Gioconda - Leonardo Da Vinci (1503-1506)
Museu do Louvre
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
BRITO, Leila. Pensando o feminino. 2003. Chá.com Letras. Belo Horizonte, 10 jan. 2010. Disponível em: <chacomletras.com.br>. Acesso em: dia, mês, ano. (ex.: 10 jan. 2010)

Sobre o existir (em 2010)

Postado em: 01-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Literatura

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Photos-Barcelona-Tarragona 048
entre o céu e o mar
um inefável espaço
arrebata nosso olhar
num vácuo de luz cristalina
derramando em cascata
transparência singular
que nós podemos tingir
com as cores do arco-íris
ou o clarão do luar.

entre o céu e o mar
uma densa plenitude
faz o coração pulsar
a grandeza do existir
eternizando o pensar
no inexistir do tempo
que nós podemos tocar
com os pés na realidade
ou a alma a vagar.

entre o céu e o mar
um vago encantamento
paira suspenso no ar
em contida revoada
de uma emoção circular
flutuando doces sonhos
que nós podemos tornar
possíveis de ser vividos
ou felizes por sonhar…

LEILA BRITO

Faça de 2010 um ininterrupto revoar de sonhos.

Ilustração:
La mar de Tarragona (Espanha, 2008)
Foto de Leila Brito

Referência:
BRITO, Leila. Sobre o existir. Belo Horizonte, 23 dez. 2003. Chá.com Letras, jan. 2010. Disponível em: <www.chacomletras.com.br>. Acesso em: dia, mês, ano (ex.: 01 jan. 2010)