Chá.com Letras Rss

Vídeo da Semana

Postado em: 27-12-2009 | Por: Leila Brito | Categorias: Música, Vídeos

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PlanetaTerra2
Pesquisando uma canção para a despedida do Chá.com Letras de 2009 e as boas vindas a 2010, Stand by me, do compositor americano Ben E. King, se destacou tanto pelo apelo solidário de sua letra como pela criatividade desta belíssima interpretação plurinacional apresentada no documentário Playing For Change: Peace Through Music, retratando a Humanidade através da Música – a arte que transcende todas as diferenças raciais, étnicas e culturais (espaço de vídeo, barra fixa à direita).

Com vocês, Stand by me interpretada pelos dezesseis músicos e cantores de rua de dez países: Roger Ridley, Grandpa Elliott, Washboard Chaz, Twin Eagle Drum Group e Roberto Luti dos EUA; Vusi Mahlasela, grupo Sinamuva e Pokel Klaas da África do Sul; Junior Kissangwa Mbouta do Congo; Dimitri Dolganov da Rússia; François Viguié da França; Clarence Bekker da Holanda; Django Degen da Espanha; Stefano Tomaselli da Itália; Geraldo e Dionisio da Venezuela; e César Pope, do nosso Brasil.

Sensivelmente grata pela calorosa acolhida e entusiasmada participação em 2009, parafraseando a canção, suplico aos meus amados leitores: em 2010, please, stand by me!

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 27 DEZ 2009.

Ilustração:
Autor desconhecido desta escritora.

Pausa para um poema

Postado em: 20-12-2009 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

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Eros-e-psique
e porque os sonhos sempre são
o fim de um desejo imaginado
e as luas que vagam seu clarão
pelo céu das esperas nunca são
o princípio de um querer realizado
e mais que tudo é o que se dispõe
em tapetes persas sobre a grama
verde de espera esperançosa ou
sobre o granito frio do desencanto
em desesperado desencontro e
o brilho da virtualidade se derrama em
vôo itinerante pela órbita dos sentidos
eu já posso suspeitar o frio do vento
açoitando o ar em assobios de
canção triste devaneio em si menor
entrecortando emoção e agonia
de se perder na louca fantasia
doida de assanhar cabelos e
arrepiar pele em suspense do
medo da espera de ver e tocar
com os olhos e as mãos e a boca
e o desejo em poças de marfim
líquido escorrer da ânsia de amar
até o explodir dos enlouquecidos
rubros espasmos de prazer e dor
se diluindo em ritual sagrado
porque os sonhos sempre são
o fim de um desejo imaginado.

LEILA BRITO
OUT 2001

Ilustração:
O rapto de Psique.
William – Adolphe Bourguereal (1895)

Referência:
BRITO, Leila. E porque os sonhos. Launim. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010, p. 27. No prelo.

Vídeo da Semana

Postado em: 15-12-2009 | Por: Leila Brito | Categorias: Sem categoria

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Maquiavel-CalumnyBotticelli

Maquiavel e o Território da Política

Ilustrando meu artigo O polêmico e injustiçado Machiavelli, neste vídeo postado no Youtube pelo meu amigo Tato de Macedo, que tem como pano de fundo o contexto histórico-político no qual Maquiavel cresceu e desenvolveu suas reflexões, o Professor Doutor Newton Bignotto (UFMG-FAFICH) e o Professor Doutor Oswaldo Giacóia Júnior (UNICAMP) expõem os fundamentos de sua obra filosófica.

Importante ressaltar que há uma discordância entre os estudiosos de Maquiavel sobre a importância predominante do De Principatibus no contexto de sua obra, já que alguns especialistas, como o Professor Doutor Helton Adverse (UFMG-FAFICH), apontam o Discorsi como sendo a fonte de sua teoria. Nela, Maquiavel elabora um comentário crítico sobre a obra do historiador romano Tito Livio. Propositadamente, Maquiavel adultera Tito Livio, construindo o Discorsi sobre fragmentos de sua obra, porém, se posicionando como um filósofo político. Com a ajuda de Tito Livio extrai da história aquilo que interessa: os modi e ordini que os antigos transmitiram, acrescentando-lhes novos modos e novas ordens, a partir de sua peculiar visão da política.

Com vocês, a competente aula dos citados professores (no espaço de vídeo, barra fixa à direita)

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 15 DEZ 2009.

Ilustração:
A Calúnia de Apeles
de Sandro Botticelli, 1494-5.
Image from Web Gallery of Art
©
Web Gallery of Art, created by Emil Kren and Daniel Marx.

O polêmico e injustiçado Machiavelli

Postado em: 13-12-2009 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Política

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Machiavelli
[...] Há uma maneira de desqualificar Maquiavel que é maquiavélica, e consiste no ardil piedoso daqueles que dirigem seus olhos e os nossos para o céu dos princípios para desviá-los daquilo que fazem. E há uma maneira de louvar Maquiavel que é todo o contrário do maquiavelismo, pois honra na sua obra uma contribuição à clareza política (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 307).

Até Maquiavel, a Filosofia concebe o “político” como exercício do poder. Assim, com as obras De Principatibus e Discorsi, Maquiavel inaugura um novo modo de pensar o “político”, efetivando uma ruptura no pensamento que prevalece, ao estabelecer: a política não é um sistema filosófico, e sim, um sistema conceitual. Tal ruptura ocorre, porque Maquiavel busca oferecer respostas novas a uma situação histórica nova (ou seja, ao factual de sua época) que seus contemporâneos tentavam compreender lendo os autores antigos. Tais respostas surgem da sua negativa dos quatro pontos que resumem a tradição política:

(1) Maquiavel não admite um fundamento anterior e exterior à política (Deus, Natureza ou razão); (2) Maquiavel não aceita a idéia da boa comunidade política constituída para o bem comum e a justiça; (3) Maquiavel recusa a figura do bom governo encarnada no príncipe virtuoso, portador das virtudes cristãs, das virtudes morais e das virtudes principescas; (4) Maquiavel não aceita a divisão clássica dos três regimes políticos (monarquia, aristocracia, democracia) e suas formas corruptas ou ilegítimas (tirania, oligarquia, demagogia/anarquia), como não aceita que o regime legítimo seja o hereditário, e o ilegítimo,  o usurpado por conquista. Qualquer regime político – tenha a forma que tiver e tenha a origem que tiver – poderá ser legítimo ou ilegítimo. O critério de avaliação, ou o valor que mede a legitimidade e a ilegitimidade é a liberdade (CHAUÍ, 2000, p. 201 e 203).

Em Maquiavel, ocorre, portanto, a conceitualização da política. Em De Principatibus tem-se um conceito empírico; em Discorsi, um conceito ideológico. O texto de Maquiavel é, pois, uma filosofia política, com base no contraponto entre virtù (virtude) e fortuna (sorte ou inesperado). No seu entendimento, se a cidade consegue combater a degradação, ela o faz pela virtù. Portanto, não importa a fortuna, e sim, a virtù, porque a fortuna está sempre presente, ao contrário da virtù, que, por ser essencial, não pode faltar. Neste sentido, Maquiavel neutraliza a fortuna como fator de mudança. Assim, tudo vai depender da virtù. O que se vê em Maquiavel é a afirmação da virtù.

Há um enaltecimento da política em sua obra, pois o filósofo reconhece uma dignidade na política. O tema recorrente em Discorsi é a glória, quando a virtù é reconhecida no espaço público. Assim, Maquiavel defende o princípio da virtù como fator imprescindível na política. Mas a despeito do valor à virtù, Maquiavel reconhece na astúcia a principal virtude política, pois fundamental à conquista, como expõe em De Principatibus.

Maquiavel é favorável a uma república democrática – ele é o primeiro a defender uma república popular, onde o número de cidadãos a ascender ao poder deve ser o maior possível. Como na sua época o que está em pauta é como se exerce o poder, não existe uma filosofia do direito em sua obra. Assim, ele faz uma proposta republicana popular inédita e bastante peculiar, sendo ferrenhamente combatido.  Maquiavel reconhece a importância do povo, porque a ele cabe o papel de guardião da liberdade da república. Mas enfatiza que não se pode privilegiar o povo, inviabilizando a participação dos grandes, porque, sendo fortes, eles podem se voltar contra o governo. Maquiavel é exigente nesta questão: é preciso contemplar o desejo dos grandes.

Em Maquiavel, segundo Merleau-Ponty (2002, p. 303), o poder dito legítimo é aquele que consegue evitar o desprezo e o ódio (P, XVI). “Nem puro fato, nem direito absoluto, o poder não constrange nem persuade: ele manobra – e manobra-se melhor recorrendo à liberdade do que aterrorizando”. É como se o poder incidisse de maneira indireta, uma vez que “o melhor apoio ao poder nem mesmo resulta da ação do príncipe, e sim, daqueles que crêem ter direitos sobre ele ou pelo menos se sentem em segurança”.

Maquiavel não concebe a conquista do poder como algo estável, perene. Ele reconhece, no caso da república, que não há como essa conquista ser perene (raras exceções), exatamente, por causa da interferência constante do conflito inerente à luta pelo poder. E é nesta instabilidade, que se mostra nos momentos extremos da luta pelo poder, que se encontra o conhecimento do objeto “política”. Assim, a possibilidade da permanência no poder não dá condições de se conhecer a natureza da política. Maquiavel concebe a política como um embate, um conflito.

Os grandes têm desejo de dominar, o que vai contra o desejo do povo de não ser dominado; de não sofrer a opressão – este é o conflito estruturante de toda e qualquer “cidade”. Quem exerce o poder, tem de lidar com o conflito de querer dominar. Mas isto não quer dizer que a política seja dominação, embora, por outro lado, só se possa assegurar o domínio através do medo. O medo é uma paixão com a qual é preciso saber lidar no âmbito do poder. Sendo assim, nenhum homem público pode negligenciar as paixões, se quer ganhar a glória e consolidar um Estado.

Assim, a política em Maquiavel é mais que um mal necessário, embora não se possa separar a política do mal, no sentido da escolha (sempre para o mal menor). Exercer o poder implica, de algum modo, em fazer o mal. O mal é inevitável no exercício da política. Mas o espaço político é onde devemos buscar o menor mal, pois não há como buscar o bem.

Sim. O mal a ser feito tem de se pautar no sentido pleno da palavra maldade. Para Maquiavel, algo detestável nos homens é, exatamente, a sua impossibilidade de fazer o mal em seu sentido pleno e, pela mesma forma, de fazer plenamente o bem. Ele elogia os romanos, que ao conquistar o inimigo adotava um dos dois extremos: ou o massacrava ou o perdoava, concedendo-lhe todos os benefícios.

Sobre a questão moral, Maquiavel a relaciona à liberdade de escolha ou livre-arbítrio. Ele entende que, se os homens têm liberdade de escolha, podem, ao exercê-la, ampliar as possibilidades de sua natureza. Segundo Grazia (1993, p. 85), “visto que Niccolò admite a escolha e o livre arbítrio, e utiliza as palavras bem e mal, os atos designados por esses termos são, pelo menos em parte, humanamente desejados e sujeitos ao juízo moral”.

Porém, como o exercício do poder requer disposição para fazer o mal, a relação dos valores morais no espaço público é impossível, o que contraria os princípios do cristianismo, para o qual, segundo Arendt:

[...] a política deve ser organizada de tal modo que o homem e sua alma possam estar certos da salvação eterna. Este é o critério último. Platão e Aristóteles pensavam que a política devesse ser organizada de tal modo que a filosofia – o cuidado com as coisas eternas – fosse possível. [...] Maquiavel menciona numa ocasião a necessidade dos homens de se defenderem e que esse é provavelmente o primeiro motivo para os homens juntarem-se em corpos políticos. Mas isso não lhe interessa. A política não tem fim em si mesma, ela não é um meio. Mas tudo na política regula-se por esta máxima: o fim justifica os meios (ARENDT, 2002, p. 320).

É exatamente em vista das duras críticas que Maquiavel faz ao cristianismo e à Igreja Católica e sua sacralização do poder, que ele sofre uma severa retaliação de cunho moral:

Para o Ocidente cristão do século XVI, O Príncipe maquiaveliano, não sendo o bom governo sob Deus e a razão, só poderia ser diabólico. À sacralização do poder, feita pela teologia política, só poderia opor-se a demonização. É essa imagem satânica da política como ação social puramente humana que os termos maquiavélico e maquiavelismo designam (CHAUÍ, 2000, p. 204).

Por ter inaugurado a teoria moderna da lógica do poder como independente da religião, da ética e da ordem natural, Maquiavel só poderia ter sido visto como maquiavélico. Assim, os vocábulos: maquiavélico e maquiavelismo, criados no século XVI, e utilizados até hoje, exprimem o medo absurdo que se tem da política, quando esta é simplesmente “política”, isto é, sem as máscaras da religião, da moral, da razão e da Natureza (CHAUÍ, 2000, p. 204).

LEILA BRITO
Belo Horizonte, NOV 2006.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. Notas sobre a política e o estado em Maquiavel. Lua Nova, n. 55-56, p. 298-302, 2002. Disponível no site: http://www.scielo.br/pdf/ln/n55-56/a15n5556.pdf . Acesso em: 27 nov. 2006.
CHAUÍ, Marilena. Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000.
GRAZIA, Sebastian de. Maquiavel no inferno. Tradução de Denise Bottan. São Paulo: Cia das Letras, 1993.
MACHIAVELLI, Nicolló. O príncipe. São Paulo: Hemus, 1965.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Notas sobre Maquiavel. Lua Nova, n. 55-56, p. 303-307, 2002. Disponível no site: <http://www.scielo.br/pdf/ln/n55-56/a15n5556.pdf>. Acesso em: 27 nov. 2006.

Ilustração:
Niccollò Machiavelli – de William Mortensen
From Monsters & Madonnas, Camera Craft Publishing Co., San Francisco, 1935, and The Model (same publisher, p.155). George Dunham, model.

Referência deste ensaio:
BRITO, Leila. O polêmico e injustiçado Machiavelli. Chá.com Letras, Belo Horizomte, nov. 2006. Disponível em: <www.chacomletras.com.br> . Acesso em: dia, mês, ano. (ex.: 14 dez. 2009)

Confissão

Postado em: 05-12-2009 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Literatura

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Cristal
A dor adormeceu no berço da minha criança
deixei no porão da infância os meus medos
as assombrações já não me assustam
e já são outros os meus segredos.
Meus pecados? Não são mais.
Dissiparam-se com a VERDADE.

Estou de posse do mundo
tão forte este meu desejo
mais que vontade maior
clama dentro do meu peito.

Estou de posse de mim.
Nem reza brava resolve
nem padre santo ou unção.
As assombrações já não me assustam.

Estou de posse da vida
que flui fluindo fluida
se misturando em meu sangue
fundindo-se em meu coração.

Estou de posse da sorte
e por mais que se aproxime a morte
saberei encará-la de frente
pegar suas mãos ossudas
e ir com ela pro norte.

Estou de posse da paz.
Quem sabe me encontrei com deus?

LEILA BRITO

Ilustração:
Autor desconhecido desta poeta.

Referência:
BRITO, Leila. Confissão. Chá.com Letras. Belo Horizonte, 1884. Disponível em: <www.chacomletras.com.br>. Acesso em: dia, mês, ano (ex.: 04 nov. 2009).

Filosofando sobre o direito à morte

Postado em: 01-12-2009 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia

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A_morte_de_s_crates

A gente morre para provar que viveu.
 GUIMARÃES ROSA

… E tudo na Vida se resume na Morte. Nascemos para viver, mas vivemos para morrer. Assim, Vida e Morte conformam o paradoxo existencial de todo ser vivo da natureza.

Sobre a questão, reporto-me a um trecho de um famoso ensaio de Jorge Luis Borges – A Imortalidade, onde ele se refere ao Fédon de Platão, um diálogo que conta o que se passou na última tarde vivida por Sócrates, quando seus amigos sabem que chegou o navio de Delos, e que nesse dia Sócrates beberá a cicuta: Em seguida, vem uma súplica admirável – talvez a parte mais admirável do diálogo. Os amigos entram, Sócrates está sentado na cama e já lhe retiram os grilhões. Esfregando os joelhos e saboreando o prazer de não mais estar sofrendo com o peso das correntes, disse: “É extraordinário! As correntes me eram pesadas – era uma forma de dor. Agora sinto alívio porque elas me foram retiradas. O prazer e a dor não se separam, são gêmeos”. Que admirável o fato de que, nesse momento, no último dia de sua vida, Sócrates não diga que está para morrer, mas, sim, que faça reflexões no sentido de que o prazer e a dor são inseparáveis!

E neste ponto do discurso, Borges filosofa sobre a idéia defendida por Sócrates, que, ao encarar corajosamente sua morte iminente, diz aos amigos, que a substância psíquica (a alma) pode viver melhor sem o corpo; que o corpo é um estorvo, lembrando a doutrina, vigente na Antiguidade, de que estamos encarcerados em nosso corpo. E Borges enfatiza a interrelação corpo e alma: Gustav Spiller  em seu admirável tratado de psicologia, diz que se pensamos em outras desventuras sofridas pelo corpo – uma mutilação, um golpe na cabeça – isto não causa nenhum benefício à alma. Não há por que supor que um grave acidente sofrido pelo corpo seja benéfico para a alma.

Considerando a alma no sentido estrito ao pensamento (ideias) e à emoção (sentimentos) que regem a essência do ser humano, e não no sentido metafísico (religioso), há que concordarmos com Spiller e Sócrates, de que, assim como corpo e alma, o prazer e a dor são inseparáveis. E sendo assim, há que defendermos a Eutanásia como um meio de libertação do ser humano de um sofrimento incurável do seu corpo e, consequentemente, de sua alma. Neste âmbito da indivisibilidade do ser, o Suicídio pode ser referenciado como contraponto da Eutanásia, já que ele se dá, exatamente, quando o sofrimento da alma decide pela morte do corpo.

Este é o primeiro ponto a ser considerado, quando se fala da Eutanásia. O segundo aspecto, está relacionado ao livre arbítrio. Também aqui vamos tratar o assunto no sentido dialético, sob a ótica de uma lógica pura e simples, desvinculada de qualquer fundamentação religiosa. Ao defender a teoria da imortalidade física, a astróloga Linda Goodman afirma: A morte física estará sempre disponível, mas é e sempre foi uma questão de escolha pessoal. Ela se refere ao livre arbítrio entre viver e morrer. Este verdadeiro desafio para o ser humano nos remete à questão do Aborto (aqui tratado genericamente e do ponto de vista do feto), quando se discute o direito da mãe de decidir sobre a vida do filho que ela fecundou. E nele me baseio para fazer a defesa do direito à morte. Assim como o embrião do ser humano teria direito à vida, considerando o fato de já existir como ser vivo independente da vontade da mãe que o carrega no ventre (pois uma vez que a Vida em si é onipotente, o Existir em si é soberano), assim também o ser humano teria direito à morte, uma vez que também a Morte é onipotente e soberana em si mesma. Em verdade, Morte e Vida são direitos inalienáveis de todos os seres vivos, indistintamente – constituem a lei magna da natureza.

Em decorrência de tal princípio, todas as situações envolvendo a Eutanásia, o Suicídio e o Aborto são passíveis de uma análise profunda das razões que movem o ser humano para o limiar do confronto entre a Vida e a Morte. Há que sermos condescendentes e jamais julgarmos as razões que conduziram um ou outro ser humano a decidir pela morte, acatando e respeitando sua decisão. Aqui sim, reside a verdadeira grandeza de uma visão evoluída: quando a Vida deixa de ser melhor que a Morte? Posso responder isto por alguém que não seja Eu?

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 2003.

 Ilustração:
A Morte de Sócrates
Jacques-Louis David, 1787.

Referência:
BRITO, Leila. Filosofando sobre o direito à morte. Chá.com Letras. Belo Horizonte, 2003. Disponível em: http://www.chacomletras.com.br. Acesso em: dia, mês, ano. (ex.: 02 dez. 2009)