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	<title>Chá.com Letras</title>
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	<description>Literatura – Filosofia – Música</description>
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		<title>Vídeo da Semana</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Aug 2010 01:16:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[ Hannah Arendt (1906 &#8211; 1975)
Hannah Arendt, ou Johannah na certidão de nascimento, nasce no dia 14 de outubro de 1906 em casa, na cidade de Linden (Hanover), Alemanha. Desde pequena demostra ter uma capacidade intelectual extraordinária. Martha Arendt, sua mãe, deixa registrado no diário Nosso Bebê a evolução do seu desenvolvimento, e nele descreve [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1278" title="Hannaharendt_1" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/08/Hannaharendt_1-300x209.jpg" alt="Hannaharendt_1" width="300" height="209" /> <strong>Hannah Arendt (1906 &#8211; 1975)</strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>Hannah Arendt</strong>, ou Johannah na certidão de nascimento, nasce no dia 14 de outubro de 1906 em casa, na cidade de Linden (Hanover), Alemanha. Desde pequena demostra ter uma capacidade intelectual extraordinária. Martha Arendt, sua mãe, deixa registrado no diário <em>Nosso Bebê</em> a evolução do seu desenvolvimento, e nele descreve Hannah como uma criança precoce em tudo. Aos dois anos já fala, e quando entra para a escola já sabe ler e escrever. Martha trabalha num jardim de infância onde novas teses sobre Educação são postas em prática, após ter estudado três anos na França onde aprendeu línguas e música.</p>
<p style="text-align: left;">Max Arendt, avô de Hannah, é o responsável por apresentar a religião judaica à neta, mas não de forma tradicional, no sentido frequentar a Sinagoga, e sim, de integrar seu modo de vida. Uma relação que dura até o ano de 1913, pois tanto ele como Paul, pai de Hannah, morrem nessa época. Em ambos falecimentos, ela passa a questionar muito mais o sentido da morte do que propriamente a manifestar a dor da perda dos entes queridos, demonstrando para sua mãe que é forte. Martha se preocupa, pois com tal comportamento, Hannah parece não sofrer com a morte do pai. A partir de então, a filha tenta tomar conta da mãe ao mesmo tempo em lhe faz as perguntas que, mais tarde, a levariam para a Filosofia.</p>
<p style="text-align: left;">A relação de Hannah com sua mãe é tão forte que, mesmo aos quarenta anos, ela ainda busca seu conforto e auxílio nos momentos de dúvida. Entre 1913 e 1916, as idas e vindas entre as cidades de Könisberg e Berlin são frequentes em razão da guerra. Martha frequenta o círculo de seguidores de <strong>Rosa Luxemburgo</strong>, mulher que terá o apreço de Hannah, tanto por seus ideais como pela sua vida e pelo que busca alcançar (em <strong><em>Homens em Tempos Sombrios</em></strong>, Arendt se entrega a reflexões sobre a força revolucionária de Rosa Luxembrugo). Desta forma, Martha leva Hannah para o círculo dos revolucionários, transformando seu próprio apartamento em local de encontro, e a filha leva para sua vida as questões discutidas nessas reuniões. É um tempo em que palavras como revolução, reforma, democracia, socialismo ganham força na esfera política. Em 1919, após o assassinato de <strong>Rosa Luxemburgo</strong>, a situação muda, tanto no panorama político quanto na vida de Hannah.</p>
<p>Assim, em se tratando da vida de <strong>Hannah Arendt</strong>, há que se chamar a atenção para os aspectos relevantes herdados da família como a influência judaica do avô e a natureza política e, até certo ponto, revolucionária de sua mãe. E do pai, a motivação para a leitura, permitindo que ela lesse os clássicos de sua biblioteca. Hannah dirá na entrevista a Günter Gaus que, por toda sua vida, terá essa dívida com o pai (QUEVEDO, 2009).</p>
<p>Formada pelas universidades de Koniberg, Malburg, Freiburg e Heidelberg, <strong>Hannah Arendt </strong>é influenciada por Husserl, Heidegger e Yaspers. Em consequência das perseguições nazis, em 1941, parte para os Estados Unidos da América, onde leciona nas principais universidades do país (Columbia, Califórnia, Cornell, Princeton e Wesleyan) e escreve grande parte de sua obra.</p>
<p>Pautando sua filosofia numa crítica à sociedade de massas e à sua tendência para atomizar os indivíduos, a filósofa preconiza o regresso a uma concepção política separada da esfera econômica, tendo como modelo de inspiração a pólis grega. Assim, em sua densa e profunda obra filosófica, <strong>Hannah Arendt</strong> questiona o sentido da política, buscando responder às perguntas:</p>
<p style="text-align: left;"><strong><em>Após Dachau, Auschwitz, os Gulags siberianos, em síntese, depois das experiências totalitárias nazista e stalinista, qual o significado da política? Partindo de uma constatação arendtiana de que ação política é sinônimo de liberdade, será que podemos admitir como “política” programas de desumanização, de eugenia, isto é, de objetivação do homem? Será que a “política totalitária” (ARENDT, 1990, p.514), responsável pela transformação da própria natureza humana, por tornar possível o mal radical, absoluto e imperdoável, não ocultaria, em realidade, ações não-políticas, até mesmo antipolíticas? Não há contradição no próprio termo “política totalitária”? Por outro lado, será que a “politização” plena realizada por tais regimes totalitários e a concomitante e paradoxal extinção do espaço de liberdade necessariamente nos conduz a dar razão aos liberais, a entender como incompatíveis liberdade e política, só surgindo a primeira quando a última cessa de existir? Em outros termos, será que a política se restringe ao estatal e a liberdade possui somente uma dimensão negativa, uma liberdade a-política de “ter”, de “crer”, enfim, uma “liberdade da política” (ARENDT, 2001, p.195)? Tais indagações nos levam, com Arendt, a formular a seguinte questão: “Tem a Política ainda algum sentido?” (ARENDT, 2006, p.38). O que de fato é a política? </em></strong>(TORRES, 2007, p. 235-236).</p>
<p style="text-align: left;">Antecipando um ensaio focado em <strong>Hannah Arendt</strong>, e objetivando propiciar aos leitores do <strong>Chá.com Letras</strong> o acesso a uma das mais importantes personalidades da Filosofia Política contemporânea, disponibilizo o vídeo da Parte I da entrevista concedida pela filósofa, em 1964, ao jornalista alemão Günter Gaus. Na sequência, serão postadas as partes II e III.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, 19 AGO 2010.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Ilustração:</strong><br />
Hannah Arendt num café em Paris, em 1935 &#8211; foto de autor desconhecido desta escritora.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Referências:</strong><br />
TORRES, Ana Paula Repolês. O sentido da política em Hannah Arendt. <em>Trans/Form/Ação</em>, São Paulo, n. 30, v. 2, p. 235-246, 2007.<br />
QUEVEDO, Cristian Abreu de. Obras de Hannah Arendt.<em> Compreender Hannah Arendt</em>, 18 dez. 2009. Disponível em: &lt;http://compreender-arendt.blogspot.com/2009_12_01_archive.html&gt;. Acesso em: 19 ago. 2010.</p>
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		<title>Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (FIM)</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Aug 2010 12:15:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[
ARACRUZ
LEILA BRITO
VI
Pela manhã, constatando quietude no entorno, Ela segue a trilha que leva à casa e, ao descer o barranco que dá no quintal, surpreende-se, pois o que vê é um terreno descuidado e ressecado pelo calor causticante do Flegetonte que, pouco mais adiante, irrompe em seu leito insano:  Moveu-se logo à esquerda diligente; / [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1250" title="Inferno_de_Dante-6" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/08/Inferno_de_Dante-6-276x300.jpg" alt="Inferno_de_Dante-6" width="276" height="300" /><strong><br />
ARACRUZ</strong></p>
<p><strong>LEILA BRITO</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>VI</strong></p>
<p>Pela manhã, constatando quietude no entorno, Ela segue a trilha que leva à casa e, ao descer o barranco que dá no quintal, surpreende-se, pois o que vê é um terreno descuidado e ressecado pelo calor causticante do Flegetonte que, pouco mais adiante, irrompe em seu leito insano:  <strong><em>Moveu-se logo à esquerda diligente; / Deixando o muro, ao centro caminhava / Por senda, que descia ao vale horrente, / Que hediondos vapores exalava. </em></strong>A casa parece abandonada. Busca por Ele com um olhar aflito, e mais surpreendida fica, quando o vê agachado no quintal olhando atentamente dentro de um fosso de diâmetro estreito: <strong><em>Curvei-me para ver no fosso hiante, / Mas alcançar não pude o fundo escuro.</em></strong> Ele parece estar bem, pensa enquanto corre em direção à parede lateral da casa para esconder-se, pois teme assustá-lo com sua presença e, desastrosamente, chamar a atenção do Mal.</p>
<p>Tensa e cautelosa, põe-se a observá-lo à distância. Ele continua com a cabeça pendente sobre o fosso quando, de repente, senta no chão e, enfiando as pernas na circular abertura, deixa-se escorregar para dentro, desaparecendo rapidamente da superfície: <strong><em>Lá no centro do plaino inficionado / Se escancara grão poço, amplo e profundo, / Direi a compustura em tempo asado</em></strong><em>.</em> Tomada de perplexidade e desespero, Ela sai correndo em busca de ajuda e, ao entrar na primeira porta que encontra, vê-se dentro da cozinha, onde está uma velha que imagina ser sua mãe. Aflita, avisa-a que Ele caiu no fosso e precisa de socorro imediato. A mulher, dando de ombros e mostrando desinteresse, olha-a com desdém e diz: “Deixa Ele sair de lá sozinho, que é pra ele aprender”. Horrorizada com sua insensibilidade, Ela insiste, angustiada, para que busque ajuda. Em vão. Indiferente, a senhora retoma sua tarefa doméstica.</p>
<p>Consciente da inutilidade do esforço, Ela volta ao quintal disposta a socorrê-lo quando, então, vê o Mal achegando-se ao fosso. Apavorada, estanca a marcha e joga-se atrás da parede lateral da casa. Sacudida por denso tremor, sente o coração pulsar na garganta, mas em poucos segundos, combatendo o pavor que ameaça imobilizá-la, põe a cabeça pra fora e fica intrigada com a cena que vê: debruçando-se sobre o fosso, o Mal põe-se a espiar detidamente seu interior. Ela se condói ao confirmar que Ele ainda se encontra prisioneiro no inferno, e ao aventar a possibilidade de, num gesto tresloucado, ter-se jogado no fosso para fugir da opressão e tortura. Um suspense agonioso prende-a à próxima ação do Mal. Irá salvá-lo? Poder para isso tem, refletiu, para em seguida apavorar-se ao concluir que, igualmente, tem poder para matá-lo. Ele está indefeso em suas mãos. Sua tensão explode quando, perplexa, vê o Mal se enfiar dentro do fosso, mas de cabeça para baixo e, da mesma forma que Ele, desaparecer velozmente da superfície: <strong><em>E tanto pelo abismo a cava estende, / Que só divisa quando está no fundo / Quem lá do cimo, prescrutando, atende.</em></strong></p>
<p>Estarrecida, solta um grito de horror que ecoa pelos arredores. Imagina a cabeça do Mal atingindo violentamente a cabeça do amado, e Ele se esvaindo em sangue e tentando desesperadamente sustentar-se no ar com as mãos presas nas paredes deslizantes do fosso escuro e profundo. Seu corpo, impactado pelo horror, freme um violento espasmo nervoso e, por alguns instantes, Ela se entrega ao desespero. Pela posição de ponta do Mal no buraco, suspeita que Ele foi empurrado do sétimo para o oitavo círculo do inferno e, agora, se encontra num dos fossos do Vale do Malebolge, onde o Mal intensifica a violência da tortura: <strong><em>Que Malebolge inclina-se notamos / À boca enorme do profundo poço; / As encostas são tais, </em></strong><strong><em>─ expr’imentamos </em></strong><strong><em>─ / Que uma é baixa, / Outra exelsa em cada fosso. / Vimos enfim do topo à roca extrema, / Dessa ruína ao último destroço. </em></strong>Possivelmente, Ele se encontra no terceiro fosso, onde os torturados são enterrados de cabeça para baixo e suas pernas são assadas por velas. Vários condenados ocupam o mesmo buraco onde são empilhados, ficando apenas o mais recente com as pernas de fora. Ela o imagina nessa posição de tortura: <strong><em>De cada orifício eu sair via / Dos pés até das pernas a grossura, / De um pecador, o resto se sumia. / Stavam ardendo as plantas na tortura, / E tanto as juntas rijo se entorciam, /  Que romperiam a prisão mais dura./ Do calcanhar aos dedos percorriam / As chamas como a superfície inteira. / Em corpo de óleo ungido morderiam.</em></strong></p>
<p>Sente uma pontada aguda no peito e receia não sobreviver à dor. Procurando acalmar-se, retoma o raciocínio. Será que depois de saciar sua maldade, o Mal o libertará? Ou sua intenção é empurrá-lo para círculos mais profundos do Malebolge? Quem sabe, para o quarto círculo onde, junto com outros sensitivos, Ele terá a cabeça torcida, voltada para as costas, para não conseguir mais olhar para frente, ficando preso ao passado? Ao próprio Mal?: <strong><em>Mirei mais baixo e cada desditosa / Notei que fora o mento retorcido / Do colo a começar: cousa espantosa! / Para o dorso era o rosto seu volvido: / Só recuando caminhar podia; / Que em frente olhar estava-lhe tolhido</em></strong>. Apavora-se com tal premonição. Sempre soube que o Mal tem o propósito de ceifar sua vida.</p>
<p>Imobilizada por inevitável fatalismo, Ela se entrega a desesperado pranto. Tenta entender o porquê de sua ação suicida. Teria Ele escolhido a forma equivocada de fugir do inferno?: <strong><em>Do rochedo, eu a um ângulo chorava / Com tanta dor, que o mestre de repente / “</em></strong><strong><em>─ Insensato és também”? </em></strong><strong><em>─ me interrogava. / Aqui piedade</em></strong><strong><em> é morte em toda mente: / Quando Deus condenou, quem mais malvado do que esse / que ternura por maus sente?</em></strong> É em dilacerado torpor, que vê um cachorro saindo do buraco. O fato é de tal forma estapafúrdio que, momentaneamente, a deixa em estado confusional. Estaria delirando? Não. Lá está o cão circundando aflito a boca do fosso&#8230; cada vez mais e mais e mais rápido&#8230; espiralando junto suas ideias cada vez mais e mais e mais rápido&#8230; até elas soltarem no ar a explicação: foi por fidelidade!&#8230; É isso! Ele se jogara lá para salvar os filhos aprisionados pelo Mal na profundez do Malebolge. Mas como sair com a besta empurrando-o cada vez mais para baixo com determinação doentia? É então que a repreensão de sua mãe ressoa em resposta:<strong><em> </em></strong>“Deixa Ele sair de lá sozinho, que é pra ele aprender”:<strong><em> </em></strong><strong><em>─ “Se ao fundo eu te levar, por teu desejo, / Por declive, que jaz mais inclinado, / De ouvir-lhe o nome e os crimes dou-te ensejo”. </em></strong><strong><em>─ “Aceito o que te praz, muito a meu grado, / Senhor do meu querer, es quem conhece / Quanto hei mister e a mente há reservado”.</em></strong></p>
<p>Desolada, Ela caminha até o jardim onde se põe a admirar a casa extasiada com sua beleza tantas vezes descrita por Ele em conversas deliciosamente íntimas regadas a delírios orgíacos. Sentada sob o caramanchão olha a varanda, onde o imagina debruçado na murada soltando prazerosas baforadas coreográficas enquanto sonha com Ela deitada sobre a mesa, as pernas abertas num convite indecente&#8230; As lágrimas deslizam em cascata pelo rosto sulcado no sofrimento do longo tempo de espera e na frustração da conquista da liberdade sonhada por Ele para trocar com Ela a felicidade do amor verdadeiro.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO<br />
</strong>Belo Horizonte, 30 JUN/ JUL/ 7 AGO 2010.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Etimologia:<br />
<em>ARA</em></strong> &#8211; vocábulo tupi-guarani que significa &#8220;altar de sacrifício&#8221;. Assim,<em><strong> ARACRUZ</strong></em>, em interpretação livre desta escritora, significa &#8220;o sofrimento no altar de sacrifício&#8221;.</p>
<p><strong>Ilustração:<br />
</strong>Foto de Sandro Sobral – Quinta da Regaleira: Sintra-Portugal (MAR 2007).<br />
Disponível em: &lt;<a href="http://obloguedatchurma.wordpress.com/2007/03/21/quinta-da-regaleira/"><span style="COLOR: windowtext; TEXT-DECORATION: none; text-underline: none">http://obloguedatchurma.wordpress.com/2007/03/21/quinta-da-regaleira/</span></a>&gt;.</p>
<p><strong>Vídeo Ilustrativo:</strong><br />
O vídeo ao lado, de autoria de <strong>Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia,</strong> mostra várias imagens dos <strong>Nove Círculos do Inferno</strong> descritos no poema épico-teológico <em><strong>Divina Comédia</strong></em>, do escritor e poeta florentino<strong> Dante Alighieri</strong>, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.</p>
<p><strong>Referência: </strong><br />
BRITO, Leila. Aracruz. In:<em> Ara.</em> Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.</p>
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		<title>Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. V)</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 11:57:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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ARACRUZ
LEILA BRITO
V
No dia D, lá está Ele na linha de frente em posição de combate, decidido a vencer o Mal com um golpe mortal. Guerreiro, é Lancelot empunhando sua arma com mesma audácia de outra guerra. Ao som de “atacar”, divisa o Mal  galopando veloz em sua direção e se prepara para o confronto. Mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1219" title="InfernodeDante-10-Gruta_do_Natal,_ilha_Terceira,_Açores,_Portugal" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/08/InfernodeDante-10-Gruta_do_Natal_ilha_Terceira_Açores_Portugal-300x225.jpg" alt="InfernodeDante-10-Gruta_do_Natal,_ilha_Terceira,_Açores,_Portugal" width="300" height="225" /></p>
<p align="center"><strong>ARACRUZ</strong></p>
<p><strong>LEILA BRITO</strong></p>
<p align="center"><strong>V</strong></p>
<p>No dia D, lá está Ele na linha de frente em posição de combate, decidido a vencer o Mal com um golpe mortal. Guerreiro, é Lancelot empunhando sua arma com mesma audácia de outra guerra. Ao som de “atacar”, divisa o Mal  galopando veloz em sua direção e se prepara para o confronto. Mas o Mal o surpreende com um contra ataque manipulativo letal, pois impeditivo de sua retirada da casa à força. A arma que empunha questiona a decisão de Têmis. “O desfecho foi imprevisível, lamentável, preso em firulas jurídicas”, comunica Ele à amada em mensagem secreta enviada dias depois. Triunfante, o Mal se regojiza da vitória mantendo o inferno na casa. Todo poderoso, redobra a guarda sobre o prisioneiro, passando a torturá-lo com renovado prazer no sangue fervente do Flegetonte: <strong><em>Aos mil em volta ao rio sanguinoso / as almas seteavam que excediam / Mais do que é dado o líquido horroroso.</em> </strong>Enquanto isso, nos subterrâneos da maldade, Ela se angustia com a própria impotência.</p>
<p>Revoltado com a intensificação da tortura, Ele retorna ao palácio de Têmis que, indignada com a prepotência do Mal em questionar um poder ao qual o próprio Zeus se submete, coloca em suas mãos uma arma ainda mais poderosa, pois capaz de exorcizá-lo e os seus demônios em dois tempos, expulsando-os definitivamente da casa. Mas cercando-se de cuidados para evitar que o Mal o surpreenda com nova armadilha impeditiva de sua mudança, Ele estabelece uma sábia estratégia: em lugar de usar a força para impor a nova ordem de Têmis, justificadora de uma posterior vingança do inimigo, sua intenção é agir capciosamente, retirando-se da casa de imediato, numa imprevisível rasteira que lhe garantirá  e à amada, para todo o sempre, a libertação do sofrimento no Vale do Flegetonte: <strong><em>A cabeça vi de outros, que subira / Do rio à superfície e o inteiro busto / Suas feições no mundo eu distinguira: ia baixando o sangue até que a custo / Os pés cobria a quem passar quisesse.</em></strong></p>
<p>Confiante na vitória qualquer que seja o golpe pretendido pelo Mal, Ele acompanha passo a passo seus preparativos para deixar a casa na oitava tentativa de mudança, enquanto vence o prazo concedido por Têmis. Tomado pela ansiosa expectativa que precede o final de um jogo, procura manter o equilíbrio e a serenidade, dissimulando tranquilidade e despreocupação. Antecipando o fim do pesadelo, comunica à amada: “O mar começa a ficar calmo, vai serenar hoje à noite sem problemas; amanhã dou notícias que espero alvissareiras”. Ela desconfia da tranquilidade relatada e pressente o revés, mas tentando dar chance à sorte, agarra-se no tom confiante das palavras que sugerem a partida definitiva do Mal. Porém seu arroubo otimista esbarra na desconfortável dúvida: teria Ele coragem de afrontar o Mal abandonando o inferno e frustando seu sádico jogo de dominação? <strong><em>“Eis a fera, que a horrenda cauda enresta, / Que arneses, montes, muros atravessa / E com seu bafo impuro o mundo empesta!”.</em></strong></p>
<p>Confrontada em seu intuitivo negativismo avalizado pelo realismo da predominância da força do poder maligno sobre o bem, Ela se rende ao tom incisivo d’Ele: “Estamos vivendo o último ato, o fim da peça”. Uma rendição relutante que a transporta para a fronteira do sonho com a realidade, impingindo ao sofrimento agoniosa expectativa: <strong><em>De almas nuas eu via infindo bando, / Por modos diferentes torturadas [...] Maior a turba destas se mostrava, / Menor a que, prostrada no tormento. / Maior dor nos lamentos denotava.</em></strong> Decifrando a agonia como um alerta de sua infalível intuição, opta pelo negativismo e se põe em guarda. Distante do palco da tortura imposta ao amado, numa tentativa de se antecipar e anular o pressentido golpe maligno, Ela ativa seu Ajña e antevê a cena derradeira: o Mal descansando em seu leito, em descarada simulação de enfermidade, e Ele debruçado sobre seu corpo em delicados cuidados, irremediavelmente dominado.</p>
<p>O desespero provocado pela visão vem acompanhado de fortes calafrios que arrepiam seu corpo e comprimem sua nuca, impulsionando sua cabeça para baixo. Submetendo-se à impactante reação telepática, pouco a pouco Ela recobra o controle mental e mobiliza as ideias em busca de uma ação inibidora desse golpe fatal que, estrategicamente, antecipará o ápice do processo de dominação que culminará com a morte dos dois amantes: <strong>Ao vaticínio vosso, reunido / A outro, há de explicar-me sábia dama / Quando à sua presença houver subido. / E como a consciência não me clama, / Sabei que, quando a sorte avessa esteja, / a todo mal sou prestes, que ela trama.</strong> A convicção gerada pelo pressentimento é de tal forma convincente que, guiada por natural reação de defesa da vida, Ela decide fugir da solitária do Flegetonte para salvar seu grande amor.</p>
<p>Aproveitando-se de breve ausência do demônio carcereiro, que se movimenta em ronda pelos subterrâneos do rio, Ela consegue escalar a parede de pedras irregulares da minúscula cela e, apoiando-se num degrau perto do teto, alcançar o fosso por onde Ele descera. Sua escalada seria um obstáculo intransponível não fosse a sorte d’Ele ter deixado lá a corda que usara quando invadira a solitária. Tomada de comovida alegria, Ela se agarra à corda e sobe lentamente em direção à tortuosa escada que vai dar no primeiro círculo do Vale do Flegetonte. Do lado de fora, ouve os gemidos dos torturados no sangue fervente: <strong><em>Já partimos na fida companhia, / As ondas costeando rubras, quentes, / Donde agudo estridor ao ar subia</em></strong>. Cautelosamente, embrenha-se na mata circundante. Só então, percebe que já é noite. Temerosa de uma recaptura, depois de longo tempo imóvel observando a casa à distância, Ela adormece sob a luz das estrelas.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, JUN/JUL/AGO 2010</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Etimologia:<br />
<em>ARA</em></strong> &#8211; vocábulo tupi-guarani que significa &#8220;altar de sacrifício&#8221;. Assim,<em><strong> ARACRUZ</strong></em>, em interpretação livre desta escritora, significa &#8220;o sofrimento no altar de sacrifício&#8221;.</p>
<p><strong>Ilustração:</strong><br />
Foto de Luis Silveira &#8211; Gruta do Natal, Tubo de Lava &#8211; Ilha Terceira &#8211; Açores &#8211; Portugal (JUL 2007).</p>
<p><strong>Vídeo Ilustrativo:</strong><br />
O vídeo ao lado, de autoria de <strong>Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia,</strong> mostra várias imagens dos <strong>Nove Círculos do Inferno</strong> descritos no poema épico-teológico <em><strong>Divina Comédia</strong></em>, do escritor e poeta florentino<strong> Dante Alighieri</strong>, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.</p>
<p><strong>Referência: </strong><br />
BRITO, Leila. Aracruz. In:<em> Ara.</em> Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.</p>
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		<title>Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. IV)</title>
		<link>http://letraporletra.com.br/wordpress/?p=1193</link>
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		<pubDate>Mon, 02 Aug 2010 01:34:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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ARACRUZ
LEILA BRITO
IV
Enfim, sua passividade atinge o limite da tolerância, e Ele reage corajosamente enfrentando o Mal com uma ousada iniciativa sugerida pela imparcial amiga Têmis, a quem recorre para colocá-lo porta afora. Comunica sua decisão à amada: “Tenho direito à vida”. Esperançosa, Ela se põe em confiante expectativa de iminente libertação. Forçado pela lei, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1192" title="Inferno_de_Dante-2" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/08/Inferno_de_Dante-2-241x300.jpg" alt="Inferno_de_Dante-2" width="241" height="300" /></p>
<p align="center"><strong>ARACRUZ</strong></p>
<p><strong>LEILA BRITO</strong></p>
<p align="center"><strong>IV</strong></p>
<p>Enfim, sua passividade atinge o limite da tolerância, e Ele reage corajosamente enfrentando o Mal com uma ousada iniciativa sugerida pela imparcial amiga Têmis, a quem recorre para colocá-lo porta afora. Comunica sua decisão à amada: “Tenho direito à vida”. Esperançosa, Ela se põe em confiante expectativa de iminente libertação. Forçado pela lei, o Mal retorna à casa para realizar a então sexta mudança acompanhado de outro demônio que vem com a missão de manter o famoso prisioneiro sob controle. Burlando a vigilância, em nova mensagem a Ela, Ele comemora: “Aqui a tensão mudou de lado. Não está mais comigo. Tudo dentro do planejado. A meu juízo até melhor”. Guiada pela sabedoria, Ela responde: <strong><em>Caminha: que eu te irei no seguimento. / Depois hei de juntar-me à companhia / Dos que pranteiam no eternal tormento.</em></strong></p>
<p>O limite do curto prazo exigido por Têmis é desrespeitado pelo Mal que, usando da costumeira manipulação chantagiosa, permanece na casa por muito mais tempo até que, dizendo-se comprometido com um trabalho humanitário(?) no Vale do Malebolge, resolve partir, mas levando apenas o resto de sua parafernália. Estrategicamente, o mobiliário é deixado para trás como garantia da manutenção do Vale do Flegetonte na casa, pois forçoso é manter os dois amantes aprisionados para impedir que se reencontrem. Após a partida do Mal para bem longe, Ele retoma o contato com a amada, propondo-lhe um novo plano de fuga. Tudo acertado quando, no dia combinado, com uma justificativa falsa para manter a salvo sua reputação masculina, Ele retrocede da ação por medo do Mal. É então que Ela constata que o domínio daquela mulher sobre Ele beira o absolutismo, e sofre o pressentimento da desilusão. Em doloroso desamparo, envia-lhe um sensível alerta: <strong><em>Verdade, que pareça fingimento, / Evita proferir homem discreto: / Sofre desar, de culpa estando isento.</em></strong></p>
<p>Guiado pelo sentimento de culpa, depois de dias afastado da amada, Ele faz novo contato, tentando recuperar sua confiança: “Minha querida, essa mulher está longe em todos os sentidos”.  E para provar que diz a verdade, propõe um novo plano de fuga, desta feita com base em estratégico ardil que, certamente, enganará tanto o demônio carcereiro quanto o próprio Mal, sem comprometer a etapa final do processo de sua mudança definitiva. Para combater os efeitos do fatalismo que pouco a pouco vai se impondo, Ela se deixa envolver por comedido entusiasmo e sonha com a felicidade amorosa. Mas logo o sonho vira pesadelo com a mensagem d’Ele cancelando o plano de fuga: “Procure não ficar mal, pelo menos encerra um problema, o que resta de um problema”. Ela se socorre nos versos de Dante: <strong><em>Quanta cautela deve haver e jeito, / Tratando-se com quem não vê somente / Os atos, mas também o que há no peito.</em></strong></p>
<p>O tempo passa até que, dias após a data prevista, Ele vê o Mal retornar ao Vale do Flegetonte para realizar a definitiva sétima mudança. Preocupado, recebe a notícia de sua desistência do trabalho enobrecedor no Vale do Malebolge. Nada a espantar, pois quando já se viu Mal fazer bem? E ainda no oitavo círculo do inferno? Só podia ser uma brincadeira de mau gosto. Ante tão desalentadora atitude, a previsão d’Ele é inspirada na lógica: o Mal decidiu dedicar-se com exclusividade à causa-mor: mantê-lo aprisionado ad infinitum, impedindo-o de trocar felicidade com a mulher amada. Na solitária, Ela se dá conta da manobra golpista e se desespera: <strong><em>Ó ira louca, ó ambição que impele, /na curta vida nossa, ao inferno arrasta / e para sempre nos submerge nele.</em></strong></p>
<p>Constatando que o Mal manipula o tempo sem definir o dia da mudança, agora apelando para a histeria chantagiosa, Ele decide pressioná-lo a partir, revalidando sua garantia de liberdade, pois novamente Têmis o ampara. “Agora sim. Acabou”, escreve à amada, antecipando o fim do sofrimento. Fala da obrigação que ora pesa sobre o Mal de mudar-se de imediato, levando para bem longe o Vale do Flegetonte com seu rio de fogo que corta a floresta e o deserto, e a sua cachoeira de sangue com suas margens de pedra onde brota o rio, que abriga no fundo do seu leito a solitária onde se encontra Ela, cunhada numa gruta de pedra localizada na passagem para o oitavo círculo: <strong><em>Assim do val, no fundo começada, / Cada cava uma rocha atravessava, / Em arco, para o poço concentrada.</em></strong></p>
<p style="text-align: left;">Ela silencia ante o ingênuo otimismo que salta de suas palavras, evitando impactá-lo com mau agouro, entristecendo seu amado. Prefere, ao contrário, endossar sua confiança para energizar a ansiada vitória. Mas por segurança, opta por prescrutar a situação com a cautela de sua sensitiva visão a pressentir o fracasso. Há muito captou o imbatível poder de dominação do Mal, e chora ao antever a submissão d’Ele às manobras chantagiosas por vir na luta contra sua onipotência prepotente: <strong><em>Os crimes seus no inferno se agravaram;/ Já disse-lhe as blasfêmias, os furores, / Digno prêmio em seu peito lhe deparam.</em> </strong>Ela sabe dos riscos; sabe que o Mal se coloca acima de tudo e todos, até mesmo de Têmis.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Etimologia:<br />
<em>ARA</em></strong> &#8211; vocábulo tupi-guarani que significa &#8220;altar de sacrifício&#8221;. Assim,<em><strong> ARACRUZ</strong></em>, em interpretação livre desta escritora, significa &#8220;o sofrimento no altar de sacrifício&#8221;.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Ilustração:<br />
</strong>Dante e Virgílio no Inferno &#8211; pintura de William-Adolphe Bouguereau (1850).</p>
<p><strong>Vídeo Ilustrativo:</strong><br />
O vídeo ao lado, de autoria de <strong>Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia,</strong> mostra várias imagens dos <strong>Nove Círculos do Inferno</strong> descritos no poema épico-teológico <em><strong>Divina Comédia</strong></em>, do escritor e poeta florentino<strong> Dante Alighieri</strong>, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.</p>
<p><strong>Referência: </strong><br />
BRITO, Leila. Aracruz. In:<em> Ara.</em> Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.</p>
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		<title>Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. III)</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 06:41:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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ARACRUZ
LEILA BRITO
III
Mais um atormentado tempo de prisão, e Ele comunica a Ela que conseguiu subtrair do Mal a poderosa arma e, assim, encontra-se livre para viver o acalentado sonho de amor, pois tal arma o torna imune a maquinações chantagiosas. Agora, basta sair da casa pela porta da frente e caminhar sem olhar para trás, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1174" title="InfernodeDante-Lancelot e Guinevere" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/07/InfernodeDante-Lancelot-e-Guinevere-237x300.jpg" alt="InfernodeDante-Lancelot e Guinevere" width="237" height="300" /></p>
<p align="center"><strong> </strong></p>
<p align="center"><strong>ARACRUZ</strong></p>
<p><strong>LEILA BRITO</strong></p>
<p align="center"><strong>III</strong></p>
<p>Mais um atormentado tempo de prisão, e Ele comunica a Ela que conseguiu subtrair do Mal a poderosa arma e, assim, encontra-se livre para viver o acalentado sonho de amor, pois tal arma o torna imune a maquinações chantagiosas. Agora, basta sair da casa pela porta da frente e caminhar sem olhar para trás, evitando ser transformado numa estátua de sal, como acontecido à mulher de Ló quando o casal deixava Sodoma. O mês de março leva consigo o verão e o sol abrasador que iria aquecer o sonhado encontro. Mas nem mesmo o vento outonal prenunciador do decrépito desfolhar das árvores que circundam a casa esmorece seu desejo de viver em plenitude o seu amor por Ela. Decidido a ludibriar o Mal, planeja e tenta colocar em prática vários planos de fuga do inferno, que incluem uma antecipada invasão da solitária para libertar Ela. Seu objetivo é sairem juntos da casa, fazendo valer seu direito à liberdade, usando a poderosa imunidade que acredita possuir. Porém, sorrateiramente, o Mal vai frustrando suas tentativas, colocando demônios para monitorá-lo no entorno e intimidá-lo com ameaças: <strong><em>E logo atrás de nós eu vi correndo / Negro demônio sobre aquela penha. / Ah! Que aspecto feroz! Ah! Quanto horrendo / Nos meneios parece e temeroso / Veloz nos pés, e as asas estendendo.</em></strong></p>
<p>Ele se contorce de dor no humilhante aprisionamento, quando propõe a quarta mudança capciosamente engendrada na assinatura de um acordo que, finalmente, assegura-lhe a liberdade. Porém, antes que a mudança seja proposta, o Mal intercepta uma mensagem em código morse d’Ele para a amada e confirma seu romance com Ela. Enfurecido, vai à solitária do Vale do Flegetonte para interrogá-la, mas se frustra na tentativa de intimidá-la, pois Ela o desafia corajosamente, demonstrando não temê-lo. Inteligente e arguta, deixa claro que Ele é um homem livre, portanto&#8230; Desmoralizado com a derrota para Ela, mesmo sabendo que aquele amor ainda não fora consumado, o Mal obriga Ele a fazer uma confissão pública de adultério para denegrir sua imagem, sob ameaça de torturar sua mãe. Temeroso das consequências de um brutal assédio moral a uma pessoa idosa e enferma, Ele cede à vil chantagem, mas tomado de explosiva revolta contra tamanha torpeza, sai de imediato do inferno e, finalmente, se vê em liberdade na casa da energia pura do amor filial.</p>
<p>Liberdade doída e efêmera, pois após simulada mudança definitiva para bem longe, levando consigo o inferno e a sua prisioneira mais odiada, deixando a casa livre para Ele, o Mal retorna em poucos dias para buscar sua parafernália maligna e, dissimuladamente, reinstala o inferno na casa, permanecendo ao seu lado sob nova ameaça de escândalo.<strong><em> </em></strong>Submetido à  torturante presença, Ele tenta, em vão, colocar em prática vários planos para libertar Ela, até que, num descuido do demônio carcereiro, consegue escapar correndo pela área externa da casa onde, por sorte do acaso, se depara com uma íngreme passagem secreta que vai dar na solitária do Vale do Flegetonte. Descendo velozmente a tortuosa escada de pedra, finalmente encontra um fosso que pressente findar na cela de sua amada.</p>
<p>Sentada numa escura pedra que lhe serve de cama, Ela está entregue à leitura de <em>Lancelot, le chevalier de la charrette</em>, quando o vê caindo de pé dentro da cela. Transtornada pela inesperada presença do amado, ergue-se num salto enquanto é enlaçada pela cintura e beijada apaixonadamente. Arrebatados pela emoção, os dois adentram a lenda arturiana, e Ele é Lancelot resgatando Guinevere das garras de Melagant em pleno Inferno de Dante: <em><strong>Estávamos um dia por lazer /  de Lancelote a bela história lendo, / sós e tranquilos, nada por temer. / Às vezes um para o outro o olhar erguendo, / nossa vista tremia, perturbada; / e a um ponto fomos, que nos foi vencendo. / Ao ler que, perto, a boca desejada / sorria, e foi beijada pelo amante, / este, de quem não fui mais apartada, / Os lábios me beijou, trêmulo, arfante.</strong></em></p>
<p>Ao êxtase amoroso, regado a juras de amor eterno, segue-se o enlevo do inusitado delírio d’Ele: <strong>&#8220;Algum dia vou criar uma fonte com a estátua de uma deusa e darei a ela a sua forma e o seu nome, minha amada, para todos os homens despejarem nas suas águas o seu sêmen e, nesse ato, serem abençoados com a sabedoria&#8221;<em>.</em> </strong>E enquanto lá fora a luz do dia se esvai no anoitecer, a luz do amor que ilumina a minúscula cela escura e úmida cresce em intensidade a cada orgasmo fremido e sentido no comungado ardor que explode o desejo contido no longo tempo de uma espera agoniante agora estilhaçada por seus corpos se sobrepondo em incontido impacto, carne na carne, pulsando um prazer alagado por densa amorosidade plena. Lá fora, a noite adentra a madrugada, quando a cela é invadida por demônios que, novamente, o acorrentam no tronco sujo do constragimento: <strong><em>Eis os demônios todos investiram: / Roto o concerto, pois, cria ansioso.</em></strong></p>
<p>O retorno ao primeiro vale do sétimo círculo faz crescer sua revolta, gerando uma batalha que Ele enfrenta com furor, vencendo aparentemente o Mal que, numa ousada manipulação, mostra-se repentinamente receptivo à quinta proposta de mudança. Comunicando-lhe que vai dedicar-se a um trabalho enobrecedor, o Mal parte, mas deixando para trás o Vale do Flegetonte onde mantém aprisionadas suas duas preciosas vítimas. Sem suspeitar do repentino arroubo humanitário, Ele se deixa seduzir por mais esta maquinação até constatar que o inferno permanece na casa, quando, poucos dias depois, o Mal comunica-lhe que está enviando dois demônios à casa para tirar-lhe mais dinheiro: <strong><em>Se a maldade agravar rancor insano, /  Eles no encalço nos virão ferozes, / Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano</em></strong>. <strong><em>/ Aguardando os horrifícios algozes, / Arrepiam-se as carnes e o cabelo. </em></strong>Ele então se dá conta da sua estratégia golpista, e conclui que para vencê-lo tem de ser ousado e decisivo, armando-lhe uma cilada mortal. Caso contrário, poderoso e dominador, o Mal o manterá e à sua amada indelevelmente aprisionados no fogo do inferno.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010</p>
<p style="text-align: right;">
<p style="text-align: left;"><strong>Etimologia:<br />
<em>ARA</em></strong> &#8211; vocábulo tupi-guarani que significa &#8220;altar de sacrifício&#8221;. Assim, <em><strong>ARACRUZ</strong></em>, em interpretação livre desta escritora, significa &#8220;o sofrimento no altar de sacrifício&#8221;.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Ilustração: </strong><br />
A despedida de Lancelot e Guinevere (Julia Cameron in <em>The parting of Sir Lancelot and Queen Guinevere</em>, 1874).</p>
<p><strong>Vídeo Ilustrativo:</strong><br />
O vídeo ao lado, de autoria de <strong>Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia,</strong> mostra várias imagens dos <strong>Nove Círculos do Inferno</strong> descritos no poema épico-teológico <em><strong>Divina Comédia</strong></em>, do escritor e poeta florentino<strong> Dante Alighieri</strong>, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.</p>
<p><strong>Referência: </strong><br />
BRITO, Leila. Aracruz. In:<em> Ara.</em> Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.</p>
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		<title>Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. II)</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Jul 2010 20:26:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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ARACRUZ
LEILA BRITO
II
O Mal aprisiona Ele no Vale do Flegetonte, banhado pelo rio de fogo que É não distante / De sangue onde verás fervendo aquele / Que a violência exerceu no semelhante. É onde os condenados são castigados com uma incandecente chuva de chamas enquanto andam ininterruptamente sem sair do lugar – assim será a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><strong><img class="aligncenter size-medium wp-image-1145" title="Inferno_de_Dante-1" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/07/Inferno_de_Dante-1-300x224.jpg" alt="Inferno_de_Dante-1" width="300" height="224" /><br />
ARACRUZ</strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>LEILA BRITO</strong></p>
<p align="center"><strong>II</strong></p>
<p>O Mal aprisiona Ele no Vale do Flegetonte, banhado pelo rio de fogo que <strong><em>É não distante / De sangue onde verás fervendo aquele / Que a violência exerceu no semelhante</em></strong>. É onde os condenados são castigados com uma incandecente chuva de chamas enquanto andam ininterruptamente sem sair do lugar – assim será a sua caminhada dali em diante. Mais dolorosa que a tortura do fogo queimando seu corpo extenuado por passos estrangulados é o constrangimento dessa realidade agoniante que passa a viver:<strong><em> A dor, que brota em lágrimas, sentindo, / Socorre-se das mãos a aflita gente / Contra o solo e o vapor, que está caindo</em></strong>. Numa incoerência própria da malignidade, que castiga quando merece ser castigada, o Mal se vinga de sua rejeição definitiva.</p>
<p>Ele se vê, então, subjugado pela impotência de afrontá-lo em sua sanha diabólica de transformar a conquista da sua liberdade numa luta sem tréguas a exigir ações estratégicas, sendo a primeira o bloqueio rigoroso de contato com a amada que, vivendo a expectativa do primeiro encontro, inesperadamente, é confinada na solitária do sétimo círculo de Dante: <strong><em>&#8220;Se dessa parte o borbulhão parece / Do rio escassear, eu te asseguro” /‒ disse Nessio ‒ “que mais engrossa e desce / Na parte oposta até juntar-se ao escuro / Pego em que, como hás visto a tirania / As penas dá no seu tormento duro”</em></strong>.</p>
<p>Em pungente agonia, lá está Ela, Dulcinea romântica e sonhadora, que debruçada na janela de uma tarde de um novembro que se esvaía no seu tempo de vida, viu-se quichotescamente assediada por um cavaleiro garboso e valente, e se deixou envolver pelo lindo sonho de amor que aquele Don Quijote com ares de Don Juan acenou-lhe de cima do seu Rocinante: “Olhe moça, eu corro atrás de sonhos, como corro”. Capturada pelo fascínio de uma paixão fulminante, ela o seguiu com um olhar extasiado, enquanto Ele, embriagado de amor, deixou-se levar distraidamente pelo trote cadenciado do Rocinante, perdendo-se na curva fechada do caminho que o distanciava do êxtase amoroso.</p>
<p>A lembrança do sorriso dela acenando-lhe a promessa de um amor verdadeiro, o traz de volta à realidade. Numa tentativa de inibir a histeria manipulativa do Mal, Ele procura se adaptar à prisão e ao terrorismo que o imobiliza numa estratégica impotência, respondendo positivamente tanto à explícita exigência de fidelidade sexual como à implícita exigência de compensação pela sua liberdade, impostas por intimidação chantagiosa. Depois de se sujeitar humildemente ao mando do Mal, compensando-o da forma desejada, Ele se arrisca a propor-lhe uma segunda mudança para antes da folia de Momo. Manipulando-o com uma falsa aquiescência, o Mal solicita permissão para ficar somente mais um fim de semana na casa, no que é prontamente atendido. Não ousa contrariá-lo, pois isso significaria estimular sua ira e por a perder o trato acertado.</p>
<p>Em poucos dias, porém, Ele é surpreendido pelo Mal, que permanece na casa após o vencimento do prazo, impedindo sua libertação, desta feita, com duros golpes de uma passionalidade histérica, sob a estapafúrdia acusação de traição amorosa. Afinal, a união foi rompida há mais de três meses&#8230; Mas o que ocorre, na verdade, é que tal acusação faz parte de um jogo do Mal para manipular o motivo real do rompimento, transferindo-a para Ele, livrando-se, assim, da responsabilidade das consequências do danoso conflito familiar que o ocasionou. Seu objetivo é passar de algoz a vítima, ficando com mais moral para chantageá-lo e obter ganhos materiais. Pondo em prática seu plano de acusá-lo de ter uma amante, assumindo um comportamento ciumento, o Mal passa a demonstrar suspeição de todas as mensagens recebidas por Ele, até que, num determinado momento, intercepta uma mensagem em código morse enviada por Ela da solitária do Vale do Flegetonte, onde fora aprisionada: <strong><em>Por toda cava, aos lados e no fundo / Furos na pedra lívida se abriam, / De igual largura a cada qual rotundo</em></strong>. Percebendo o jogo do inimigo, Ela frustra seu objetivo, mas a despeito disso, o Mal aproveita-se do fato para desarticular a iminente libertação d’Ele.</p>
<p>Reagindo ao jogo sujo do Mal, Ele perde a paciência e decide deixar casa para viver a plenitude do amor sonhado, fazendo da terceira proposta de mudança uma inversão que o obrigaria a levar o inferno para bem longe. Emocionada, sua amada acompanha, passo a passo, a narrativa da mudança para outra casa onde reina a energia positiva do amor filial, e se entrega a uma expectativa feliz. Porém, seu otimismo é açoitado por um frio e repentino distanciamento do amado que, inesperadamente, comunica-lhe sua permanência no sétimo círculo do inferno: <strong><em>“Em cada fogo” </em></strong><strong><em>[...]  “um condenado”, / como em hábito envolto, arde e padece”</em></strong>.</p>
<p>Mais uma vez, Ele é derrotado pelo Mal que, percebendo que ia perder seu valioso objeto de chantagem, usa de dissimulação para mantê-lo prisioneiro, mostrando-se disposto a vender-lhe uma poderosa arma que, no futuro, poderá ser usada contra a sua família. Consciente de sua atitude suicida, Ele explica à amada que esse aparente retrocesso é, na verdade, um avanço estratégico que lhe permitirá  aproveitar-se da proximidade do Mal para tirar-lhe a perigosa arma, e que depois de realizar essa façanha, aí sim, estará em condições de se libertar do inferno. Sem alternativa, Ela se recolhe à impotência que a mantém prisioneira na solitária do Vale do Flegetonte: <strong><em>Descendo ao mais profundo vai comigo, / que morto sou, dos círculos temido: / tão certo é como falo ora contigo. </em></strong></p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010</p>
<p style="text-align: right;">
<p style="text-align: left;"><strong>Etimologia:<br />
<em>ARA</em></strong> &#8211; vocábulo tupi-guarani que significa &#8220;altar de sacrifício&#8221;. Assim, <em><strong>ARACRUZ</strong></em>, em interpretação livre desta escritora, significa &#8220;o sofrimento no altar de sacrifício&#8221;.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Ilustração: </strong><br />
Eugène Delacroix &#8211; Dante e Virgílio no Inferno (1822).</p>
<p><strong>Vídeo Ilustrativo:</strong><br />
O vídeo ao lado, de autoria de <strong>Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia,</strong> mostra várias imagens dos <strong>Nove Círculos do Inferno</strong> descritos no poema épico-teológico <em><strong>Divina Comédia</strong></em>, do escritor e poeta florentino<strong> Dante Alighieri</strong>, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.</p>
<p><strong>Referência: </strong><br />
BRITO, Leila. Aracruz. In:<em> Ara.</em> Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.</p>
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		<title>Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. I)</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 23:53:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[

ARACRUZ
LEILA BRITO
I
É uma casa nada engraçada, pois tem teto e tudo o mais dentro dela, incluindo belos  e confortáveis banheiros, quartos amplos com janelas para o norte, sul e leste, e salas estilosas e arejadas. Localizada num condomínio de luxo, com piscinas e play ground, abriga um lindo jardim onde competem em beleza um tímido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center">
<p style="text-align: center;"><strong><img class="aligncenter size-medium wp-image-1148" title="Inferno_de_Dante-3-ARACRUZ" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/07/Inferno_de_Dante-3-ARACRUZ7-215x300.jpg" alt="Inferno_de_Dante-3-ARACRUZ" width="215" height="300" /><br />
ARACRUZ</strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>LEILA BRITO</strong></p>
<p align="center"><strong>I</strong></p>
<p style="text-align: left;">É uma casa nada engraçada, pois tem teto e tudo o mais dentro dela, incluindo belos  e confortáveis banheiros, quartos amplos com janelas para o norte, sul e leste, e salas estilosas e arejadas. Localizada num condomínio de luxo, com piscinas e play ground, abriga um lindo jardim onde competem em beleza um tímido pé de maracujá, que milagrosamente se salvara da queda de um coqueiro derrubado pelo vento de dezembro, e um vaidoso caramanchão com uma grande mesa e bancos de madeira silenciados pelos muitos causos escutados em conversas prazerosas regadas a vinho e wisk. Cercada de árvores por todos os lados, situa-se num ponto privilegiado do terreno impiedosamente assolado pelas chuvas de verão que derrubaram parte do muro lateral ainda por ser reerguido. Uma bela casa!</p>
<p style="text-align: left;">Da varanda, Ele olha a mesa do caramanchão, onde sonha fazer amor com a mulher amada, ardentemente desejada, e a quem já fizera a louca proposta, em meio a outras tantas fantasias que envolvem quartos, banheiros, biblioteca e cozinha. Impossível deitá-la sobre a mesa da cozinha. Tem o tampo de vidro. Daí que a mesa do caramanchão sugere tanto mais segurança como maior emoção ao ato, pois amar ao ar livre é comungar com a natureza, poeta mentalmente enquanto fuma o cigarro depois de arrancar-lhe desdenhosamente o filtro. Hábito adquirido pelo puro prazer de sentir o forte gosto do fumo em sua boca carnuda imperceptivelmente amarelada pelo vício.</p>
<p style="text-align: left;">Cada vez que pensa n’Ela, tenta agarrar o sonho com as mãos como a querer aprisioná-lo pelos dedos, impedindo que se dilua no ar puro que o cigarro polui com suas coreográficas baforadas. Imagina-a deitada na mesa do caramanchão, as pernas abertas num convite indecente, e sente a tesão retesando-lhe o sexo. Quando Ela virá? E a resposta se retrai timidamente esgueirando-se pelos vãos da dúvida e se escondendo atrás da certeza.</p>
<p style="text-align: left;">Ela virá, mas somente quando se concretizar a nona e definitiva mudança do Mal, que instalou o inferno na bela casa, assombrando a energia da vida. Transvestido numa horrenda mulher de cérebro atrofiado por um infantilismo pirracento manifestado em devastadoras cenas de uma violenta histeria manipulativa à base de gritos e agressão física&#8230; Uma mulher fria e calculista, de voz esganiçada, sorriso medonho e olhar tresloucado, insensível e desnaturada, falsa e vulgar, interesseira e golpista, manipuladora e ardilosa, dominadora e inescrupulosa, mau caráter e insana, mas sendo muito mais criminosa que louca, pois usando de chantagem e terrorismo para intimidar, imobilizar e dominar sua presa, o Mal se apossou criminosamente da sua liberdade.</p>
<p style="text-align: left;">Vaga seu pensamento pelo tempo daqueles oito meses de encurralamento do desejo de viver o sonho oito vezes frustrado pelo adiamento da libertadora mudança. A primeira, pensada no dezembro que se seguiu à explosão do conflito familiar provocado pelo Mal e causador da ruptura radical da união, é marcada para o janeiro que explodiria o verão com o fogo da nova paixão represada no seu corpo carente de prazer amoroso, e é certa como a certeza do seu desejo de liberdade. Tudo acertado com a amada que se entrega ao devaneio do sonhado encontro.</p>
<p style="text-align: left;">Mas o Mal, dando início a um imprevisível, longo e doloroso processo terrorista chantagioso onde vale os golpes mais baixos para manter a coabitação, empatando o desenlace natural da união, manipula o combinado fingindo partir em definivo, mas voltando para a casa inesperadamente, quatro dias depois, acompanhado de um domônio que o sequestra, acorrentando-o ao seu desejo sórdido de se apossar de sua vida. A intenção subjacente é torturá-lo até obter dinheiro alto pela sua liberdade. É então que, repentinamente, Ele se vê prisioneiro no inferno: <strong><em>É o lugar mais fundo e denegrido, / mais remoto do céu que os orbes gira. </em></strong> </p>
<p align="center">
<p align="center">
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Etimologia:<br />
<em>ARA</em></strong> &#8211; vocábulo tupi-guarani que significa &#8220;altar de sacrifício&#8221;. Assim,<em> <strong>ARACRUZ</strong></em>, na interpretação livre desta escritora, significa &#8220;o sofrimento no altar de sacrifício&#8221;.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Ilustração:<br />
</strong>Anselm Feuerbach &#8211; Paolo e Francesca (1864) &#8211; Schack-Galerie, Mônaco.<strong> </strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>Vídeo Ilustrativo:</strong><br />
O vídeo ao lado, de autoria de <strong>Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia</strong>, mostra várias imagens dos <strong>Nove Círculos do Inferno</strong> descritos no poema épico-teológico <em><strong>Divina Comédia</strong></em>, do escritor e poeta florentino<strong> Dante Alighieri</strong>, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.<strong> </strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>Referência: </strong><br />
BRITO, Leila. Aracruz. In:<em> Ara.</em> Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.<strong> </strong></p>
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		<title>Vídeo da Semana</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Jul 2010 23:53:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Fotos]]></category>
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		<description><![CDATA[Friederich Wilhelm Nietzsche
Para o Prof. Dr. Oswaldo Giacóia Júnior, é impossível se colocar à altura dos principais temas e questões do nosso tempo sem entender o pensamento de Nietzsche, um dos pensadores mais provocativos da filosofia moderna, porque o impacto da sua filosofia &#8220;advém de sua extraordinária clarividência&#8221;. &#8220;Ele pressentiu, em estado de gestação, as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1089" title="Nietzsche-5" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/07/Nietzsche-5-228x300.jpg" alt="Nietzsche-5" width="228" height="300" /><strong>Friederich Wilhelm</strong> <strong>Nietzsche</strong></p>
<p style="text-align: left;">Para o Prof. Dr. Oswaldo Giacóia Júnior, é impossível se colocar à altura dos principais temas e questões do nosso tempo sem entender o pensamento de Nietzsche, um dos pensadores mais provocativos da filosofia moderna, porque o impacto da sua filosofia <strong>&#8220;advém de sua extraordinária clarividência&#8221;. &#8220;Ele pressentiu, em estado de gestação, as ameaças mais fatais de nosso tempo. Anteviu o panorama sombrio que poderia advir do projeto sociopolítico de uma sociedade de massas. Nietzsche profetizou que a sociedade ocidental caminhava, desde então, para um nivelamento por baixo&#8221;</strong> (GIACÓIA JÚNIOR, 2000).</p>
<p style="text-align: left;">A obra de Nietzsche submete uma crítica impiedosa a todas as esferas da cultura e exige do homem moderno a tomada de consciência das possibilidades do seu saber e agir. Coloca questões que até hoje prosseguem conosco e que se tornam a cada dia cada vez mais necessárias para o resgate da dignidade das relações da vida e com as mais variadas formas de vida do planeta (GIACÓIA JÚNIOR, 2000).</p>
<p style="text-align: left;">No espaço de vídeo ao lado, é disponibilizada a segunda aula do curso <strong><em>Impacto de Nietzche no Século XX. Posicionamento da filosofia de Nietzsche no mundo atual. Crise dos valores</em></strong>, do <strong>Prof. Dr. Oswaldo Giacóia Júnior</strong> (Unicamp), que expõe didaticamente o pensamento de <strong>Nietzsche</strong>. Neste momento do curso, Giacóia comenta as idéias do respeitado filósofo alemão e a sua confrontação com o mundo contemporâneo, falando sobre <strong>a morte de deus &#8211; a morte dos absolutos ou do absoluto em suas várias formas</strong>.</p>
<p style="text-align: left;">Convido-o(a) a assistir ao vídeo (de curta duração), pois, como o anterior, ele acrescenta importante conteúdo aos dois artigos sobre Nietzsche publicados por esta professora e escritora.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, 4 JUL 2010.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Ilustração:</strong><br />
Nietzsche fotografado por Voltaire Schilling.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Referências: </strong><br />
GIACÓIA JÚNIOR, Oswaldo. <em>Nietzsche</em>. São Paulo: Publifolha, 2000. 98 p.</p>
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		<title>Nietzsche e a crítica ao cristianismo e ao socratismo (Ensaio II)</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Jul 2010 23:12:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Fotos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nietzsche e sua mãe Franziska (1826-1897)
LEILA BRITO

Toda a oposição de Nietzsche ao cristianismo e socratismo é para dar combate a idéia de que a vida tem um sentido. Para ele, tanto o racionalismo socrático dialético como a bondade cristã são medicamentos danosos ao homem, pois privilegiam a fraqueza. Nietzsche acredita que dentre as possibilidades infinitas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-1109" title="nietzsch_and_mother" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/07/nietzsch_and_mother.jpg" alt="nietzsch_and_mother" width="258" height="300" /><strong>Nietzsche e sua mãe Franziska (1826-1897)</strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>LEILA BRITO</strong><strong><br />
</strong></p>
<p style="text-align: left;">Toda a oposição de Nietzsche ao cristianismo e socratismo é para dar combate a idéia de que a vida tem um sentido. Para ele, tanto o racionalismo socrático dialético como a bondade cristã são medicamentos danosos ao homem, pois privilegiam a fraqueza. Nietzsche acredita que dentre as possibilidades infinitas de configuração de sentido do mundo (e a do cristianismo e socratismo são vitoriosas), a do monstro do homem bom, a idéia de fazer o homem bom, é uma tarefa de extrema fraqueza, por querer confinar o homem não apenas na bondade, mas, também, na seriedade, no racionalismo. Para ele, não se pode confinar o homem nem na moral nem na lógica.</p>
<p>Neste sentido, no seu entendimento, Sócrates representa um remédio para uma crise na Grécia antiga, que já não podia ser trágica, naquele tempo. Assim, a verdade em Sócrates tem um sentido ético – é a expressão de alma superior que o homem pode atingir. Sócrates representa um momento importante da cultura da consciência que Nietzsche quer destruir<a href="#_ftn1"></a>.</p>
<p>Quanto a Jesus Cristo, para Nietzsche, ele foi um anarquista religioso e sua função foi perturbar a lei, afrontá-la. O crime de Jesus, portanto, foi exatamente se opor à lei; à razão dominante. Assim, seu pecado foi político, e não, religioso. Cristo quis colocar a fé acima da lei; por isso foi morto. Nietzsche radicaliza essa idéia na sua crítica ao cristianismo, e por extensão, à moralidade gregária.</p>
<p>Em sua interpretação da psicologia do cristianismo, estabelece diferenças entre a moral do senhor e a moral do escravo, para mostrar como ocorreu a inversão dos valores aristocráticos, e teve início, na moral, a sublevação dos escravos, que deu origem ao cristianismo, que ele vê não como uma dogmática, uma revelação divina, mas um sistema de valores ancorado no sentimento de vingança:</p>
<p><strong><em>Tudo o que na terra se fez contra os “nobres”, os “poderosos”, os “senhores”, os “governantes”, não se pode comparar com o que fizeram os “judeus”. Os judeus vingaram-se dos seus dominadores por uma radical mudança dos valores morais, isto é, com uma “vingança essencialmente espiritual”. Só um povo de sacerdotes podia obrar assim. Os judeus, com uma lógica formidável, atiraram por terra a aristocrática equação dos valores “bom”, “nobre”, “poderoso”, “formoso”, “feliz”, “amado de Deus”. E, com o escarniçamento do ódio afirmaram: “Só os desgraçados são bons; os pobres, os impotentes, os pequenos, são os bons; os que sofrem, os necessitados, os enfermos, são os piedosos, são os benditos de Deus; só a eles pertencerá a bem-aventurança; pelo contrário, vós, que sois nobres e poderosos, sereis por toda a eternidade os maus, os cruéis, os cobiçosos, os insaciáveis, os ímpios, os réprobos, os malditos, os condenados&#8230;” Todos sabem quem foi que recolheu a herança destas apreciações judaicas&#8230; E recordo aqui o que noutro lugar</em> (<em>Para Além do Bem e do Mal</em>, a fl. 195) <em>disse: Que com os judeus começou a “emancipação dos escravos da moral”, esta emancipação que tem já vinte séculos de história e que já hoje perdemos de vista por ter triunfado completamente</em> (NIETZSCHE, 1985, p. 9).</strong></p>
<p>Nietzsche vê o cristianismo como uma doutrina que propõe que uma força não incida sobre a outra, ou seja, que propõe a vitória da fraqueza; a vitória dos fracos. Assim, os judeus transformaram a força (o senhor) em maldade, e a fraqueza (o escravo) em bondade. O mascaramento da maldade do escravo é flagrante, pois basta olhar o símbolo da cruz, para ver a presença da crueldade na exaltada bondade cristã. A cruz é o símbolo de uma religião que comemora o sacrifício humano pela oferenda aos deuses, mas só que de uma forma mais cruel ainda: Jesus, deus em pessoa, é sacrificado pela salvação de todos os homens. Para Nietzsche, vê-se claramente a crueldade no cristianismo. Presente está, pois, a dissimulação e a distorção da força do escravo:</p>
<p><strong><em>O cristianismo, com sua moral do amor ao próximo, humildade e obediência, significa para Nietzsche, no geral, uma vitória da moral do escravo, com a conseqüência de que naturezas fortes, que continuam existindo, são forçadas a fazer toda a sorte de concessões, dissimulações, distorções e posturas indiretas, para poderem exercer a sua força. O terceiro capítulo, onde se descrevem gênese e corporificações dos ideais estéticos, é um exemplo para o mascaramento da força em um culto religioso da humildade </em>(SAFRANSKI, 2001, p. 277).</strong></p>
<p>Senhor e escravo estaria numa ordem equilibrada? Não, para Nietzsche, que considera que cada um se situa numa perspectiva diferente, pois enquanto o escravo é reativo, o senhor é ativo. O escravo depende do senhor (que é o ato em si), do indivíduo que tem autonomia. Essa dependência não constitui, porém, uma questão dialética, pois não importa que o senhor precise do escravo para exercer a sua força; importa a força dele; importa que seja capaz de exercer o senhorio; importa a sua potência como senhor, que é, por excelência, um criador de valores; importa que ele é forte e sabe usar sua força. Já os homens fracos não dão conta da própria força; ela os sufoca. Daí, que eles têm de viver limitados por sua condição de fracos.</p>
<p>Pautado na tese de que foram os fracos e os necessitados de proteção que chamaram de <em>malvado </em>ao forte que os ameaçava, quando, na verdade, eram eles próprios, da perspectiva do forte, os<em> ruins</em>, no sentido de vulgares e inferiores (SAFRANSKI, 2001, p. 275), Nietzsche reconhece o escravo como aquele que tem de negar o outro para afirmar a oposição: eu sou bom para não ser mau. No seu entendimento, o escravo cria o adversário (o senhor), inventando um lugar para o mal, para ganhar uma dignidade, por ser bom. Portanto, quando o fraco se dirige ao forte, ao ativo, ao criador, ele está propiciando ao forte criar-se como forte, e propiciando a si, criar-se como fraco, caracterizando o que Nietzsche (1985, p. 17) entende como “exigir à fraqueza que se manifeste como força”:</p>
<p><strong><em>Assim como a plebe distingue entre o raio e o seu resplendor como uma ação do sujeito raio, assim a moral plebéia distingue entre a força e os efeitos da força, como se detrás do homem forte houvesse </em><em>substratum neutro que fosse “livre” para manifestar ou não a força. Mas não há tal </em><em>substratum, não há um ser por detrás do ato; o ato é tudo. O que a plebe faz é desdobrar um fenômeno em efeito e em causa </em>(NIETZSCHE, 1985, p. 17).</strong></p>
<p>Colocando-se numa perspectiva reativa, ao invés de dizer sim, o escravo diz não para o outro, porque não tem potência para fluir. Já o senhor tem uma aura que só diz sim:</p>
<p><strong><em>A rebelião dos escravos da moral começou quando o ódio passou a produzir valores, o ódio que tinha de contentar-se com uma vingança imaginária. Enquanto toda a moral aristocrática nasce de uma triunfante afirmação de si mesma, a moral dos escravos opõe um “não” a tudo o que não é seu; este “não” é o seu ato criador. Esta mudança total do ponto de vista é o próprio ódio: a moral dos escravos necessitou sempre de estimulantes externos para entrar em ação; a sua ação é uma reação. O contrário acontece na moral aristocrática: opera e cresce espontaneamente e não procura o seu antípoda senão para se afirmar a si mesma com maior alegria [...] </em>(NIETZSCHE, 1985, p. 11).</strong></p>
<p>A estratégia fundamental de Nietzsche é esta: se avaliarmos os valores cristãos como o <em>amor</em>, por exemplo, veremos que atrás dele está o homem fraco, porque, incoerentemente, se trata de um sentimento que traz em si o ódio, por se originar no sofrimento da revolta do fraco contra o domínio do forte:</p>
<p><strong><em>Sobre o tronco da árvore da vingança e do ódio – e é isto o que se deu – do ódio judaico, do ódio mais profundo e mais sublime que o mundo jamais conhecera, do ódio criador do ideal, do ódio transmutador de valores, do ódio sem semelhante na Terra, do tronco deste ódio saiu uma coisa incomparável, um “amor novo”, a mais profunda e a mais sublime forma de amor. Mas não se creia que o amor se desenvolveu sobre este tronco (único em que podia desenvolver-se) como antítese desta vingança e deste ódio. Ao contrário, o amor saiu deste ódio como uma coroa triunfante, mas que, no novo domínio da pureza, da luz e do sublime, persegue os mesmos fins que o ódio: a vitória, a conquista, a sedução. Este Jesus de Nazaré, este evangelho encarnado de amor, este “Salvador”, que trazia aos pobres, aos enfermos e aos pecadores a bem-aventurança e a vitória, não era ele precisamente a sedução na sua forma mais irresistível, a sedução que, por um rodeio, havia de conduzir os homens a adaptar os valores judaicos? O povo de Israel, ao ferir o Salvador, seu aparente adversário, não feriu o verdadeiro objeto do seu ódio sublime?</em> (NIETZSCHE, 1985, p. 9-10).</strong></p>
<p>Para Nietzsche, essa vingança tem caráter afetivo: o remédio contra o sofrimento é mais sofrimento; é injeção de culpa. Nietzsche sugere que a vingança judaica tem a sutileza de se apresentar estratégica; é a vingança que expõe e prega na cruz o <em>amor</em>:</p>
<p><em><strong>Que coisa mais sedutora do que este símbolo da “santa cruz”, este horrível paradoxo de um “Deus crucificado”, esta crueldade louca de um Deus que se crucifica ele mesmo “pela salvação” da humanidade?&#8230; Ao menos uma coisa é certa: é que, com a sua vingança e transformação de valores, Israel triunfou sub ad signo de todos os ideais mais nobres </strong></em><strong>(NIETZSCHE, 1985, p. 10).</strong></p>
<p>Assim, o sentido do <em>amor cristão</em> é costurado com a morte de Cristo, ou seja, o <em>amor</em> não tem sentido sem a morte de Cristo. O ato de matar Cristo é a vingança dos judeus. Assim, Nietzsche vê vingança no <em>amor</em> dos cristãos. Ou seja, por trás do que a gente mais venera tem sujeira; por trás da pureza, tem dor, tem sangue, tem lamento, tem tristeza, tem mal, tem só coisa negativa, que pode até variar de sentido, mas sempre será negativa, pois sempre ancorada no conceito de <em>bom</em> e de <em>amor</em>. No judaísmo cristão, o <em>amor</em> é a potencialização da vingança:</p>
<p><strong><em>Não foi a oculta magia negra de uma política verdadeiramente grandiosa da vingança previsora, subterrânea, lenta e calculadora, que pôs Israel na cruz à face do mundo, verdadeiro instrumento da sua vingança, como se este instrumento fosse o seu inimigo mortal, a fim de que o mundo todo, isto é, os inimigos de Israel tivessem menos escrúpulos em morder o anzol mais funesto e perigoso?</em> (NIETZSCHE, 1985, p. 10).</strong></p>
<p>No bojo da crítica ao cristianismo, a crítica ao ascetismo vem a ser um dos aspectos mais importantes da obra de Nietzsche. Ao formulá-la, o que lhe interessa é a interpretação da ascese sacerdotal, cuja influência, no seu entendimento, foi fatal para a Filosofia. Para Nietzsche, quando a Filosofia teve início, era tão desinteressada das coisas práticas, que teve apoio na experiência sacerdotal. Assim, a marca do ascetismo na Filosofia é o culto ao ideal absoluto da beleza. Já a marca do ascetismo na religião é a tentativa de uma justificação absoluta do sentido da vida.</p>
<p>Em vista dessas influências filosóficas e religiosas, a cultura ocidental se caracteriza por uma busca do ideal, o que significa uma condenação do real, ou seja, o estranhamento do corpo, do prazer, da vida. Assim, a ação espiritualizadora do sacerdote em disseminar uma cultura do ideal serve para preservar uma vida que degenera, que é fraca, e indicada para homens que precisam de um apoio para viver com a sua natureza fraca, e que, por isso, vão precisar sofrer para alcançar a cura pela salvação da alma. Essa fragilidade não é apenas de corpo. Por isto, Nietzsche considera a igreja um hospício que dá tratamento cruel aos seus doentes – um tratamento onde se injeta dor para tratar a dor; medida terapêutica espiritual que não cura o doente, mas apenas o ajuda a tornar a vida suportável e até interessante:</p>
<p><strong><em>‘O ideal ascético tem a sua origem no instinto profilático de uma vida que degenera’, e que por todos os meios procura a maneira de se conservar; é uma luta pela existência; é o indício de um esgotamento fisiológico parcial, contra o qual se fazem fortes os demais instintos da vida, com artifícios sempre novos. O ideal ascético é um desses artifícios; é, pois, todo o contrário do que os seus adeptos imaginam; nele e por ele, a vida luta contra a morte, a vida conserva a vida </em>(NIETZSCHE, 1985, p. 83).</strong></p>
<p>O que se transforma em dever, em obrigação de cuidar do outro, isto sim, é o que Nietzsche classifica de doentio. E cuidar do outro como algo escravizante é a tarefa do sacerdote. Ao viver em função do outro, do fraco, o sacerdote encarna o desejo do outro. Assim, ele vive e exerce o poder, realizando seu ideal de se ver refletido no outro. Segundo Nietzsche (1985, p. 81): “‘O triunfo está na última agonia’: o ideal ascético combateu sempre debaixo desta bandeira; no símbolo da agonia achou a sua luz mais pura, a sua salvação, a sua vitória definitiva. <em>Crux, nux, lux</em> são para ele uma mesma coisa&#8230;”.</p>
<p>Quanto à condição de força do sacerdote, por um lado, ele pode ser considerado forte, isto porque cria cultura e rege o rebanho, mas, por outro lado, inegavelmente, ele tem de ser considerado um fraco, porque cuida dos fracos. Para Nietzsche, um forte não cuida do fraco. O senhor (o forte) é um sátiro e não tem tempo para cuidar de escravos (os fracos).</p>
<p>Assim, Nietzsche distingue o nobre do sacerdote, por concluir que o sacerdote é impotente em relação à liberdade para o exercício da força da potência, por assumir essa potência relacionando-a ao sentimento de vingança. Tal distinção valorativa é estendida ao plano da vingança, já que para Nietzsche, enquanto a vingança dos nobres e guerreiros (senhores) não é uma vingança emocional, e sim, prática, a vingança sacerdotal é a vingança dos dogmas, ou seja, é uma vingança moral.</p>
<p>Como dito, o sacerdote cristão é um curador que prescreve a cura da alma. Nietzsche censura isto, porque, sendo o “bom” cristão construído sobre o “mal”, a função do sacerdote é justamente criar o mal, apontar o mal e inventar o mal, justamente, para realçar o bom. Assim, pois, o homem bom cultiva a fraqueza e despreza a força, transformando a potência em mal – esta é a estratégia cristã de valoração da fraqueza. E no âmbito desta estratégia, como atesta Safranzki, o cristianismo concedeu três vantagens aos desprivilegiados:</p>
<p><strong><em>Conferiu ao ser humano </em><em>&#8220;um valor absoluto, em contraste com sua pequenez e casualidade na torrente do devir e do passar (12,211)&#8221;; em segundo lugar, o mal e o sofrimento se tornaram suportáveis na medida em que lhes foi atribuído um sentido; e em terceiro, na crença na criação, o mundo foi entendido como algo repassado pelo espírito, portanto, por natureza em desvantagem, </em><em>&#8220;se desprezasse enquanto ser humano e tomasse partido contra a vida (12,211)&#8221;. A interpretação cristã da vida abafou a crueldade da natureza e animou e preservou para a vida pessoas que talvez tivessem desesperado de outro modo. Em suma, ela </em><em>&#8220;protegeu do niilismo os malogrados</em> (12,215)&#8221; (SAFRANZKI, 2001, p. 271).</strong></p>
<p>Segundo Safranzki (2001, p. 271), Nietszche se refere à força criadora de valores do cristianismo com forte admiração, mas não lhe agradece por isso, porque “a consideração com os fracos, a moral da compensação, a seus olhos, impede o desenvolvimento e evolução de uma humanidade superior”, uma vez que a vontade de poder que forma partido moral do lado dos fracos, conduz ao nivelamento e degeneração generalizados.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO<br />
</strong>Belo Horizonte, JUL 2007.<strong> </strong></p>
<p><strong>Referências:</strong><br />
BRITO, Leila. <em>Nietzsche como crítico da cultura</em>: a crítica ao cristianisno e ao socratismo. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 8 f. Mimeografado.<br />
BRITO, Leila. <em>Nietzsche</em>: o mundo como perspectivismo de forças. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 62 f. Notas de aula.<br />
NIETZSCHE, Friederic Wilhelm. <em>A genealogia da moral.</em> Tradução de Joaquim José de Faria. São Paulo: Editora Moraes, 1985.<br />
SAFRANSKI, Rüdiger. <em>Nietzsche:</em> biografia de uma tragédia. Tradução de Lya Luft. São Paulo: Geração Editorial, 2001. 363 p.</p>
<p><strong>Ilustração:</strong><br />
Nietzsche e sua mãe fotografados por Hans Olde, em jul./ago. 189o.</p>
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		<title>Vídeo da Semana</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2010 01:52:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leila Brito</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[NIETZSCHE (1899) 
O importante a ser destacado na biografia de Friederich Wilhelm Nietzsche, é que apesar de ter nascido numa família luterana em 1844, estando, portanto, destinado a ser pastor como seu pai (que morreu jovem em 1899, aos 55 anos, junto com seu avô, também pastor luterano), rejeitou a fé durante sua adolescência, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1104" title="Nietzsche_olde_013" src="http://letraporletra.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2010/06/Nietzsche_olde_0137-300x220.jpg" alt="Nietzsche_olde_013" width="300" height="220" /><strong>NIETZSCHE (1899)</strong><em> </em></p>
<p style="text-align: left;">O importante a ser destacado na biografia de <strong>Friederich Wilhelm</strong> <strong>Nietzsche</strong>, é que apesar de ter nascido numa família luterana em 1844, estando, portanto, destinado a ser pastor como seu pai (que morreu jovem em 1899, aos 55 anos, junto com seu avô, também pastor luterano), rejeitou a fé durante sua adolescência, e se dedicou aos estudos de Filologia. Aluno brilhante, dotado de sólida formação clássica, aos 25 anos (1869) foi nomeado professor de Filologia na universidade de Basileia. Porém, em apenas dez anos (1879), seu debilitado estado de saúde obrigou-o a deixar a carreira de professor. Sua voz, inaudível, afastou os alunos. A partir de então, optou por uma vida errante em busca de um clima favorável tanto para sua saúde como para seu pensamento filosófico: Veneza, Gênova, Turim, Nice, Sils-Maria&#8230; Em suas palavras: <em><strong>&#8220;Não somos como aqueles que chegam a formar pensamentos senão no meio dos livros ‒ o nosso hábito é pensar ao ar livre, andando, saltando, escalando, dançando […]&#8220;</strong></em>.</p>
<p style="text-align: left;">Assim, é nesse incessante e salutar movimento, que <strong>Nietzsche</strong> estabelece uma ruptura no pensamento filosófico (que, no seu entendimento, negligenciou todos os temas humanos que deveriam ter sido tratados), ao satirizar a tradição do idealismo e da metafísica, transferindo a Filosofia para o humano, para o demasiado humano, refletindo sobre os homens tal qual eles são, e reivindicando a restituição de direitos que lhe foram banidos pela moral cristã, pelo idealismo e pela história.</p>
<p>Em sua filosofia, ao buscar a verdade de todas as coisas,<strong> Nietzsche</strong><strong> </strong>esbarra na moral tradicional, e conclui que o problema da moral é, definitivamente, um problema da verdade, da conformidade à vontade de domínio enquanto essência de vida. Assim, <strong>Nietzsche vê na moral a problemática do domínio. Tudo o que se chamou moral, até então, nada mais é que um envenenamento da vida. </strong>E num combate aos valores dominantes, ele cria uma nova filosofia, com novos valores, fazendo da vontade de poder, da morte de deus e do eterno retorno, o esteio de sustentação do seu pensamento.</p>
<p style="text-align: left;">Em janeiro de 1889, quando vivia em Turim, <strong>Nietzsche</strong> sofreu um colapso nervoso. Como causa foi-lhe diagnosticada uma possível sífilis. Este diagnóstico permanece também controverso. Mas certo é que passou os últimos 11 anos da sua vida sob observação psiquiátrica, inicialmente num manicômio em Jena, depois em casa de sua mãe em Naumburg e, e finalmente na casa chamada Villa Silberblick em Weimar, onde, após a morte de sua mãe, foi cuidado por sua irmã até seu falecimento em 1900.</p>
<p style="text-align: left;">No espaço de vídeo ao lado, é disponibilizada a primeira aula do curso <strong><em>Impacto de Nietzche no Século XX. Posicionamento da filosofia de Nietzsche no mundo atual. Crise dos valores</em></strong>, do <strong>Prof. Dr. Oswaldo Giacóia Júnior</strong> (Unicamp), que expõe didaticamente o pensamento de <strong>Nietzsche</strong>. Neste momento do curso, Giacóia comenta as idéias do respeitado filósofo alemão e a sua confrontação com o mundo contemporâneo, expondo as diferenças entre niilismos ativo e passivo, e entre homem superior e além do homem.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>LEILA BRITO</strong><br />
Belo Horizonte, 28 JUN 2010</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Ilustração:</strong><br />
Nietzsche fotografado por Hans Olde, em jun./ago. 1899.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Referências:</strong><br />
BRITO, Leila. <em>Nietzsche como crítico da cultura</em>: a crítica ao cristianisno e ao socratismo. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 8 f. Mimeografado.<br />
BRITO, Leila. <em>Nietzsche</em>: o mundo como perspectivismo de forças. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 62 f. Notas de aula.<br />
WIKIPÉDIA. <em>Friedrich Nietzsche</em>. Disponível em: &lt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche&gt;. Acesso em: 28 jun. 2010.</p>
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