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Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (FIM)

Postado em: 08-08-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

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ARACRUZ

LEILA BRITO

VI

Pela manhã, constatando quietude no entorno, Ela segue a trilha que leva à casa e, ao descer o barranco que dá no quintal, surpreende-se, pois o que vê é um terreno descuidado e ressecado pelo calor causticante do Flegetonte que, pouco mais adiante, irrompe em seu leito insano:  Moveu-se logo à esquerda diligente; / Deixando o muro, ao centro caminhava / Por senda, que descia ao vale horrente, / Que hediondos vapores exalava. A casa parece abandonada. Busca por Ele com um olhar aflito, e mais surpreendida fica, quando o vê agachado no quintal olhando atentamente dentro de um fosso de diâmetro estreito: Curvei-me para ver no fosso hiante, / Mas alcançar não pude o fundo escuro. Ele parece estar bem, pensa enquanto corre em direção à parede lateral da casa para esconder-se, pois teme assustá-lo com sua presença e, desastrosamente, chamar a atenção do Mal.

Tensa e cautelosa, põe-se a observá-lo à distância. Ele continua com a cabeça pendente sobre o fosso quando, de repente, senta no chão e, enfiando as pernas na circular abertura, deixa-se escorregar para dentro, desaparecendo rapidamente da superfície: Lá no centro do plaino inficionado / Se escancara grão poço, amplo e profundo, / Direi a compustura em tempo asado. Tomada de perplexidade e desespero, Ela sai correndo em busca de ajuda e, ao entrar na primeira porta que encontra, vê-se dentro da cozinha, onde está uma velha que imagina ser sua mãe. Aflita, avisa-a que Ele caiu no fosso e precisa de socorro imediato. A mulher, dando de ombros e mostrando desinteresse, olha-a com desdém e diz: “Deixa Ele sair de lá sozinho, que é pra ele aprender”. Horrorizada com sua insensibilidade, Ela insiste, angustiada, para que busque ajuda. Em vão. Indiferente, a senhora retoma sua tarefa doméstica.

Consciente da inutilidade do esforço, Ela volta ao quintal disposta a socorrê-lo quando, então, vê o Mal achegando-se ao fosso. Apavorada, estanca a marcha e joga-se atrás da parede lateral da casa. Sacudida por denso tremor, sente o coração pulsar na garganta, mas em poucos segundos, combatendo o pavor que ameaça imobilizá-la, põe a cabeça pra fora e fica intrigada com a cena que vê: debruçando-se sobre o fosso, o Mal põe-se a espiar detidamente seu interior. Ela se condói ao confirmar que Ele ainda se encontra prisioneiro no inferno, e ao aventar a possibilidade de, num gesto tresloucado, ter-se jogado no fosso para fugir da opressão e tortura. Um suspense agonioso prende-a à próxima ação do Mal. Irá salvá-lo? Poder para isso tem, refletiu, para em seguida apavorar-se ao concluir que, igualmente, tem poder para matá-lo. Ele está indefeso em suas mãos. Sua tensão explode quando, perplexa, vê o Mal se enfiar dentro do fosso, mas de cabeça para baixo e, da mesma forma que Ele, desaparecer velozmente da superfície: E tanto pelo abismo a cava estende, / Que só divisa quando está no fundo / Quem lá do cimo, prescrutando, atende.

Estarrecida, solta um grito de horror que ecoa pelos arredores. Imagina a cabeça do Mal atingindo violentamente a cabeça do amado, e Ele se esvaindo em sangue e tentando desesperadamente sustentar-se no ar com as mãos presas nas paredes deslizantes do fosso escuro e profundo. Seu corpo, impactado pelo horror, freme um violento espasmo nervoso e, por alguns instantes, Ela se entrega ao desespero. Pela posição de ponta do Mal no buraco, suspeita que Ele foi empurrado do sétimo para o oitavo círculo do inferno e, agora, se encontra num dos fossos do Vale do Malebolge, onde o Mal intensifica a violência da tortura: Que Malebolge inclina-se notamos / À boca enorme do profundo poço; / As encostas são tais, ─ expr’imentamos ─ / Que uma é baixa, / Outra exelsa em cada fosso. / Vimos enfim do topo à roca extrema, / Dessa ruína ao último destroço. Possivelmente, Ele se encontra no terceiro fosso, onde os torturados são enterrados de cabeça para baixo e suas pernas são assadas por velas. Vários condenados ocupam o mesmo buraco onde são empilhados, ficando apenas o mais recente com as pernas de fora. Ela o imagina nessa posição de tortura: De cada orifício eu sair via / Dos pés até das pernas a grossura, / De um pecador, o resto se sumia. / Stavam ardendo as plantas na tortura, / E tanto as juntas rijo se entorciam, /  Que romperiam a prisão mais dura./ Do calcanhar aos dedos percorriam / As chamas como a superfície inteira. / Em corpo de óleo ungido morderiam.

Sente uma pontada aguda no peito e receia não sobreviver à dor. Procurando acalmar-se, retoma o raciocínio. Será que depois de saciar sua maldade, o Mal o libertará? Ou sua intenção é empurrá-lo para círculos mais profundos do Malebolge? Quem sabe, para o quarto círculo onde, junto com outros sensitivos, Ele terá a cabeça torcida, voltada para as costas, para não conseguir mais olhar para frente, ficando preso ao passado? Ao próprio Mal?: Mirei mais baixo e cada desditosa / Notei que fora o mento retorcido / Do colo a começar: cousa espantosa! / Para o dorso era o rosto seu volvido: / Só recuando caminhar podia; / Que em frente olhar estava-lhe tolhido. Apavora-se com tal premonição. Sempre soube que o Mal tem o propósito de ceifar sua vida.

Imobilizada por inevitável fatalismo, Ela se entrega a desesperado pranto. Tenta entender o porquê de sua ação suicida. Teria Ele escolhido a forma equivocada de fugir do inferno?: Do rochedo, eu a um ângulo chorava / Com tanta dor, que o mestre de repente / “─ Insensato és também”? ─ me interrogava. / Aqui piedade é morte em toda mente: / Quando Deus condenou, quem mais malvado do que esse / que ternura por maus sente? É em dilacerado torpor, que vê um cachorro saindo do buraco. O fato é de tal forma estapafúrdio que, momentaneamente, a deixa em estado confusional. Estaria delirando? Não. Lá está o cão circundando aflito a boca do fosso… cada vez mais e mais e mais rápido… espiralando junto suas ideias cada vez mais e mais e mais rápido… até elas soltarem no ar a explicação: foi por fidelidade!… É isso! Ele se jogara lá para salvar os filhos aprisionados pelo Mal na profundez do Malebolge. Mas como sair com a besta empurrando-o cada vez mais para baixo com determinação doentia? É então que a repreensão de sua mãe ressoa em resposta: “Deixa Ele sair de lá sozinho, que é pra ele aprender”: ─ “Se ao fundo eu te levar, por teu desejo, / Por declive, que jaz mais inclinado, / De ouvir-lhe o nome e os crimes dou-te ensejo”. ─ “Aceito o que te praz, muito a meu grado, / Senhor do meu querer, es quem conhece / Quanto hei mister e a mente há reservado”.

Desolada, Ela caminha até o jardim onde se põe a admirar a casa extasiada com sua beleza tantas vezes descrita por Ele em conversas deliciosamente íntimas regadas a delírios orgíacos. Sentada sob o caramanchão olha a varanda, onde o imagina debruçado na murada soltando prazerosas baforadas coreográficas enquanto sonha com Ela deitada sobre a mesa, as pernas abertas num convite indecente… As lágrimas deslizam em cascata pelo rosto sulcado no sofrimento do longo tempo de espera e na frustração da conquista da liberdade sonhada por Ele para trocar com Ela a felicidade do amor verdadeiro.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 30 JUN/ JUL/ 7 AGO 2010.

Etimologia:
ARA
– vocábulo tupi-guarani que significa “altar de sacrifício”. Assim, ARACRUZ, em interpretação livre desta escritora, significa “o sofrimento no altar de sacrifício”.

Ilustração:
Foto de Sandro Sobral – Quinta da Regaleira: Sintra-Portugal (MAR 2007).
Disponível em: <http://obloguedatchurma.wordpress.com/2007/03/21/quinta-da-regaleira/>.

Vídeo Ilustrativo:
O vídeo ao lado, de autoria de Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia, mostra várias imagens dos Nove Círculos do Inferno descritos no poema épico-teológico Divina Comédia, do escritor e poeta florentino Dante Alighieri, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.

Referência:
BRITO, Leila. Aracruz. In: Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.

Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. V)

Postado em: 04-08-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

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ARACRUZ

LEILA BRITO

V

No dia D, lá está Ele na linha de frente em posição de combate, decidido a vencer o Mal com um golpe mortal. Guerreiro, é Lancelot empunhando sua arma com mesma audácia de outra guerra. Ao som de “atacar”, divisa o Mal  galopando veloz em sua direção e se prepara para o confronto. Mas o Mal o surpreende com um contra ataque manipulativo letal, pois impeditivo de sua retirada da casa à força. A arma que empunha questiona a decisão de Têmis. “O desfecho foi imprevisível, lamentável, preso em firulas jurídicas”, comunica Ele à amada em mensagem secreta enviada dias depois. Triunfante, o Mal se regojiza da vitória mantendo o inferno na casa. Todo poderoso, redobra a guarda sobre o prisioneiro, passando a torturá-lo com renovado prazer no sangue fervente do Flegetonte: Aos mil em volta ao rio sanguinoso / as almas seteavam que excediam / Mais do que é dado o líquido horroroso. Enquanto isso, nos subterrâneos da maldade, Ela se angustia com a própria impotência.

Revoltado com a intensificação da tortura, Ele retorna ao palácio de Têmis que, indignada com a prepotência do Mal em questionar um poder ao qual o próprio Zeus se submete, coloca em suas mãos uma arma ainda mais poderosa, pois capaz de exorcizá-lo e os seus demônios em dois tempos, expulsando-os definitivamente da casa. Mas cercando-se de cuidados para evitar que o Mal o surpreenda com nova armadilha impeditiva de sua mudança, Ele estabelece uma sábia estratégia: em lugar de usar a força para impor a nova ordem de Têmis, justificadora de uma posterior vingança do inimigo, sua intenção é agir capciosamente, retirando-se da casa de imediato, numa imprevisível rasteira que lhe garantirá  e à amada, para todo o sempre, a libertação do sofrimento no Vale do Flegetonte: A cabeça vi de outros, que subira / Do rio à superfície e o inteiro busto / Suas feições no mundo eu distinguira: ia baixando o sangue até que a custo / Os pés cobria a quem passar quisesse.

Confiante na vitória qualquer que seja o golpe pretendido pelo Mal, Ele acompanha passo a passo seus preparativos para deixar a casa na oitava tentativa de mudança, enquanto vence o prazo concedido por Têmis. Tomado pela ansiosa expectativa que precede o final de um jogo, procura manter o equilíbrio e a serenidade, dissimulando tranquilidade e despreocupação. Antecipando o fim do pesadelo, comunica à amada: “O mar começa a ficar calmo, vai serenar hoje à noite sem problemas; amanhã dou notícias que espero alvissareiras”. Ela desconfia da tranquilidade relatada e pressente o revés, mas tentando dar chance à sorte, agarra-se no tom confiante das palavras que sugerem a partida definitiva do Mal. Porém seu arroubo otimista esbarra na desconfortável dúvida: teria Ele coragem de afrontar o Mal abandonando o inferno e frustando seu sádico jogo de dominação? “Eis a fera, que a horrenda cauda enresta, / Que arneses, montes, muros atravessa / E com seu bafo impuro o mundo empesta!”.

Confrontada em seu intuitivo negativismo avalizado pelo realismo da predominância da força do poder maligno sobre o bem, Ela se rende ao tom incisivo d’Ele: “Estamos vivendo o último ato, o fim da peça”. Uma rendição relutante que a transporta para a fronteira do sonho com a realidade, impingindo ao sofrimento agoniosa expectativa: De almas nuas eu via infindo bando, / Por modos diferentes torturadas [...] Maior a turba destas se mostrava, / Menor a que, prostrada no tormento. / Maior dor nos lamentos denotava. Decifrando a agonia como um alerta de sua infalível intuição, opta pelo negativismo e se põe em guarda. Distante do palco da tortura imposta ao amado, numa tentativa de se antecipar e anular o pressentido golpe maligno, Ela ativa seu Ajña e antevê a cena derradeira: o Mal descansando em seu leito, em descarada simulação de enfermidade, e Ele debruçado sobre seu corpo em delicados cuidados, irremediavelmente dominado.

O desespero provocado pela visão vem acompanhado de fortes calafrios que arrepiam seu corpo e comprimem sua nuca, impulsionando sua cabeça para baixo. Submetendo-se à impactante reação telepática, pouco a pouco Ela recobra o controle mental e mobiliza as ideias em busca de uma ação inibidora desse golpe fatal que, estrategicamente, antecipará o ápice do processo de dominação que culminará com a morte dos dois amantes: Ao vaticínio vosso, reunido / A outro, há de explicar-me sábia dama / Quando à sua presença houver subido. / E como a consciência não me clama, / Sabei que, quando a sorte avessa esteja, / a todo mal sou prestes, que ela trama. A convicção gerada pelo pressentimento é de tal forma convincente que, guiada por natural reação de defesa da vida, Ela decide fugir da solitária do Flegetonte para salvar seu grande amor.

Aproveitando-se de breve ausência do demônio carcereiro, que se movimenta em ronda pelos subterrâneos do rio, Ela consegue escalar a parede de pedras irregulares da minúscula cela e, apoiando-se num degrau perto do teto, alcançar o fosso por onde Ele descera. Sua escalada seria um obstáculo intransponível não fosse a sorte d’Ele ter deixado lá a corda que usara quando invadira a solitária. Tomada de comovida alegria, Ela se agarra à corda e sobe lentamente em direção à tortuosa escada que vai dar no primeiro círculo do Vale do Flegetonte. Do lado de fora, ouve os gemidos dos torturados no sangue fervente: Já partimos na fida companhia, / As ondas costeando rubras, quentes, / Donde agudo estridor ao ar subia. Cautelosamente, embrenha-se na mata circundante. Só então, percebe que já é noite. Temerosa de uma recaptura, depois de longo tempo imóvel observando a casa à distância, Ela adormece sob a luz das estrelas.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, JUN/JUL/AGO 2010

Etimologia:
ARA
– vocábulo tupi-guarani que significa “altar de sacrifício”. Assim, ARACRUZ, em interpretação livre desta escritora, significa “o sofrimento no altar de sacrifício”.

Ilustração:
Foto de Luis Silveira – Gruta do Natal, Tubo de Lava – Ilha Terceira – Açores – Portugal (JUL 2007).

Vídeo Ilustrativo:
O vídeo ao lado, de autoria de Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia, mostra várias imagens dos Nove Círculos do Inferno descritos no poema épico-teológico Divina Comédia, do escritor e poeta florentino Dante Alighieri, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.

Referência:
BRITO, Leila. Aracruz. In: Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.

Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. IV)

Postado em: 01-08-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

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ARACRUZ

LEILA BRITO

IV

Enfim, sua passividade atinge o limite da tolerância, e Ele reage corajosamente enfrentando o Mal com uma ousada iniciativa sugerida pela imparcial amiga Têmis, a quem recorre para colocá-lo porta afora. Comunica sua decisão à amada: “Tenho direito à vida”. Esperançosa, Ela se põe em confiante expectativa de iminente libertação. Forçado pela lei, o Mal retorna à casa para realizar a então sexta mudança acompanhado de outro demônio que vem com a missão de manter o famoso prisioneiro sob controle. Burlando a vigilância, em nova mensagem a Ela, Ele comemora: “Aqui a tensão mudou de lado. Não está mais comigo. Tudo dentro do planejado. A meu juízo até melhor”. Guiada pela sabedoria, Ela responde: Caminha: que eu te irei no seguimento. / Depois hei de juntar-me à companhia / Dos que pranteiam no eternal tormento.

O limite do curto prazo exigido por Têmis é desrespeitado pelo Mal que, usando da costumeira manipulação chantagiosa, permanece na casa por muito mais tempo até que, dizendo-se comprometido com um trabalho humanitário(?) no Vale do Malebolge, resolve partir, mas levando apenas o resto de sua parafernália. Estrategicamente, o mobiliário é deixado para trás como garantia da manutenção do Vale do Flegetonte na casa, pois forçoso é manter os dois amantes aprisionados para impedir que se reencontrem. Após a partida do Mal para bem longe, Ele retoma o contato com a amada, propondo-lhe um novo plano de fuga. Tudo acertado quando, no dia combinado, com uma justificativa falsa para manter a salvo sua reputação masculina, Ele retrocede da ação por medo do Mal. É então que Ela constata que o domínio daquela mulher sobre Ele beira o absolutismo, e sofre o pressentimento da desilusão. Em doloroso desamparo, envia-lhe um sensível alerta: Verdade, que pareça fingimento, / Evita proferir homem discreto: / Sofre desar, de culpa estando isento.

Guiado pelo sentimento de culpa, depois de dias afastado da amada, Ele faz novo contato, tentando recuperar sua confiança: “Minha querida, essa mulher está longe em todos os sentidos”.  E para provar que diz a verdade, propõe um novo plano de fuga, desta feita com base em estratégico ardil que, certamente, enganará tanto o demônio carcereiro quanto o próprio Mal, sem comprometer a etapa final do processo de sua mudança definitiva. Para combater os efeitos do fatalismo que pouco a pouco vai se impondo, Ela se deixa envolver por comedido entusiasmo e sonha com a felicidade amorosa. Mas logo o sonho vira pesadelo com a mensagem d’Ele cancelando o plano de fuga: “Procure não ficar mal, pelo menos encerra um problema, o que resta de um problema”. Ela se socorre nos versos de Dante: Quanta cautela deve haver e jeito, / Tratando-se com quem não vê somente / Os atos, mas também o que há no peito.

O tempo passa até que, dias após a data prevista, Ele vê o Mal retornar ao Vale do Flegetonte para realizar a definitiva sétima mudança. Preocupado, recebe a notícia de sua desistência do trabalho enobrecedor no Vale do Malebolge. Nada a espantar, pois quando já se viu Mal fazer bem? E ainda no oitavo círculo do inferno? Só podia ser uma brincadeira de mau gosto. Ante tão desalentadora atitude, a previsão d’Ele é inspirada na lógica: o Mal decidiu dedicar-se com exclusividade à causa-mor: mantê-lo aprisionado ad infinitum, impedindo-o de trocar felicidade com a mulher amada. Na solitária, Ela se dá conta da manobra golpista e se desespera: Ó ira louca, ó ambição que impele, /na curta vida nossa, ao inferno arrasta / e para sempre nos submerge nele.

Constatando que o Mal manipula o tempo sem definir o dia da mudança, agora apelando para a histeria chantagiosa, Ele decide pressioná-lo a partir, revalidando sua garantia de liberdade, pois novamente Têmis o ampara. “Agora sim. Acabou”, escreve à amada, antecipando o fim do sofrimento. Fala da obrigação que ora pesa sobre o Mal de mudar-se de imediato, levando para bem longe o Vale do Flegetonte com seu rio de fogo que corta a floresta e o deserto, e a sua cachoeira de sangue com suas margens de pedra onde brota o rio, que abriga no fundo do seu leito a solitária onde se encontra Ela, cunhada numa gruta de pedra localizada na passagem para o oitavo círculo: Assim do val, no fundo começada, / Cada cava uma rocha atravessava, / Em arco, para o poço concentrada.

Ela silencia ante o ingênuo otimismo que salta de suas palavras, evitando impactá-lo com mau agouro, entristecendo seu amado. Prefere, ao contrário, endossar sua confiança para energizar a ansiada vitória. Mas por segurança, opta por prescrutar a situação com a cautela de sua sensitiva visão a pressentir o fracasso. Há muito captou o imbatível poder de dominação do Mal, e chora ao antever a submissão d’Ele às manobras chantagiosas por vir na luta contra sua onipotência prepotente: Os crimes seus no inferno se agravaram;/ Já disse-lhe as blasfêmias, os furores, / Digno prêmio em seu peito lhe deparam. Ela sabe dos riscos; sabe que o Mal se coloca acima de tudo e todos, até mesmo de Têmis.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010

Etimologia:
ARA
– vocábulo tupi-guarani que significa “altar de sacrifício”. Assim, ARACRUZ, em interpretação livre desta escritora, significa “o sofrimento no altar de sacrifício”.

Ilustração:
Dante e Virgílio no Inferno – pintura de William-Adolphe Bouguereau (1850).

Vídeo Ilustrativo:
O vídeo ao lado, de autoria de Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia, mostra várias imagens dos Nove Círculos do Inferno descritos no poema épico-teológico Divina Comédia, do escritor e poeta florentino Dante Alighieri, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.

Referência:
BRITO, Leila. Aracruz. In: Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.

Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. III)

Postado em: 31-07-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

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InfernodeDante-Lancelot e Guinevere

 

ARACRUZ

LEILA BRITO

III

Mais um atormentado tempo de prisão, e Ele comunica a Ela que conseguiu subtrair do Mal a poderosa arma e, assim, encontra-se livre para viver o acalentado sonho de amor, pois tal arma o torna imune a maquinações chantagiosas. Agora, basta sair da casa pela porta da frente e caminhar sem olhar para trás, evitando ser transformado numa estátua de sal, como acontecido à mulher de Ló quando o casal deixava Sodoma. O mês de março leva consigo o verão e o sol abrasador que iria aquecer o sonhado encontro. Mas nem mesmo o vento outonal prenunciador do decrépito desfolhar das árvores que circundam a casa esmorece seu desejo de viver em plenitude o seu amor por Ela. Decidido a ludibriar o Mal, planeja e tenta colocar em prática vários planos de fuga do inferno, que incluem uma antecipada invasão da solitária para libertar Ela. Seu objetivo é sairem juntos da casa, fazendo valer seu direito à liberdade, usando a poderosa imunidade que acredita possuir. Porém, sorrateiramente, o Mal vai frustrando suas tentativas, colocando demônios para monitorá-lo no entorno e intimidá-lo com ameaças: E logo atrás de nós eu vi correndo / Negro demônio sobre aquela penha. / Ah! Que aspecto feroz! Ah! Quanto horrendo / Nos meneios parece e temeroso / Veloz nos pés, e as asas estendendo.

Ele se contorce de dor no humilhante aprisionamento, quando propõe a quarta mudança capciosamente engendrada na assinatura de um acordo que, finalmente, assegura-lhe a liberdade. Porém, antes que a mudança seja proposta, o Mal intercepta uma mensagem em código morse d’Ele para a amada e confirma seu romance com Ela. Enfurecido, vai à solitária do Vale do Flegetonte para interrogá-la, mas se frustra na tentativa de intimidá-la, pois Ela o desafia corajosamente, demonstrando não temê-lo. Inteligente e arguta, deixa claro que Ele é um homem livre, portanto… Desmoralizado com a derrota para Ela, mesmo sabendo que aquele amor ainda não fora consumado, o Mal obriga Ele a fazer uma confissão pública de adultério para denegrir sua imagem, sob ameaça de torturar sua mãe. Temeroso das consequências de um brutal assédio moral a uma pessoa idosa e enferma, Ele cede à vil chantagem, mas tomado de explosiva revolta contra tamanha torpeza, sai de imediato do inferno e, finalmente, se vê em liberdade na casa da energia pura do amor filial.

Liberdade doída e efêmera, pois após simulada mudança definitiva para bem longe, levando consigo o inferno e a sua prisioneira mais odiada, deixando a casa livre para Ele, o Mal retorna em poucos dias para buscar sua parafernália maligna e, dissimuladamente, reinstala o inferno na casa, permanecendo ao seu lado sob nova ameaça de escândalo. Submetido à  torturante presença, Ele tenta, em vão, colocar em prática vários planos para libertar Ela, até que, num descuido do demônio carcereiro, consegue escapar correndo pela área externa da casa onde, por sorte do acaso, se depara com uma íngreme passagem secreta que vai dar na solitária do Vale do Flegetonte. Descendo velozmente a tortuosa escada de pedra, finalmente encontra um fosso que pressente findar na cela de sua amada.

Sentada numa escura pedra que lhe serve de cama, Ela está entregue à leitura de Lancelot, le chevalier de la charrette, quando o vê caindo de pé dentro da cela. Transtornada pela inesperada presença do amado, ergue-se num salto enquanto é enlaçada pela cintura e beijada apaixonadamente. Arrebatados pela emoção, os dois adentram a lenda arturiana, e Ele é Lancelot resgatando Guinevere das garras de Melagant em pleno Inferno de Dante: Estávamos um dia por lazer /  de Lancelote a bela história lendo, / sós e tranquilos, nada por temer. / Às vezes um para o outro o olhar erguendo, / nossa vista tremia, perturbada; / e a um ponto fomos, que nos foi vencendo. / Ao ler que, perto, a boca desejada / sorria, e foi beijada pelo amante, / este, de quem não fui mais apartada, / Os lábios me beijou, trêmulo, arfante.

Ao êxtase amoroso, regado a juras de amor eterno, segue-se o enlevo do inusitado delírio d’Ele: “Algum dia vou criar uma fonte com a estátua de uma deusa e darei a ela a sua forma e o seu nome, minha amada, para todos os homens despejarem nas suas águas o seu sêmen e, nesse ato, serem abençoados com a sabedoria”. E enquanto lá fora a luz do dia se esvai no anoitecer, a luz do amor que ilumina a minúscula cela escura e úmida cresce em intensidade a cada orgasmo fremido e sentido no comungado ardor que explode o desejo contido no longo tempo de uma espera agoniante agora estilhaçada por seus corpos se sobrepondo em incontido impacto, carne na carne, pulsando um prazer alagado por densa amorosidade plena. Lá fora, a noite adentra a madrugada, quando a cela é invadida por demônios que, novamente, o acorrentam no tronco sujo do constragimento: Eis os demônios todos investiram: / Roto o concerto, pois, cria ansioso.

O retorno ao primeiro vale do sétimo círculo faz crescer sua revolta, gerando uma batalha que Ele enfrenta com furor, vencendo aparentemente o Mal que, numa ousada manipulação, mostra-se repentinamente receptivo à quinta proposta de mudança. Comunicando-lhe que vai dedicar-se a um trabalho enobrecedor, o Mal parte, mas deixando para trás o Vale do Flegetonte onde mantém aprisionadas suas duas preciosas vítimas. Sem suspeitar do repentino arroubo humanitário, Ele se deixa seduzir por mais esta maquinação até constatar que o inferno permanece na casa, quando, poucos dias depois, o Mal comunica-lhe que está enviando dois demônios à casa para tirar-lhe mais dinheiro: Se a maldade agravar rancor insano, /  Eles no encalço nos virão ferozes, / Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano. / Aguardando os horrifícios algozes, / Arrepiam-se as carnes e o cabelo. Ele então se dá conta da sua estratégia golpista, e conclui que para vencê-lo tem de ser ousado e decisivo, armando-lhe uma cilada mortal. Caso contrário, poderoso e dominador, o Mal o manterá e à sua amada indelevelmente aprisionados no fogo do inferno.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010

Etimologia:
ARA
– vocábulo tupi-guarani que significa “altar de sacrifício”. Assim, ARACRUZ, em interpretação livre desta escritora, significa “o sofrimento no altar de sacrifício”.

Ilustração:
A despedida de Lancelot e Guinevere (Julia Cameron in The parting of Sir Lancelot and Queen Guinevere, 1874).

Vídeo Ilustrativo:
O vídeo ao lado, de autoria de Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia, mostra várias imagens dos Nove Círculos do Inferno descritos no poema épico-teológico Divina Comédia, do escritor e poeta florentino Dante Alighieri, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.

Referência:
BRITO, Leila. Aracruz. In: Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.

Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. II)

Postado em: 28-07-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

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ARACRUZ

LEILA BRITO

II

O Mal aprisiona Ele no Vale do Flegetonte, banhado pelo rio de fogo que É não distante / De sangue onde verás fervendo aquele / Que a violência exerceu no semelhante. É onde os condenados são castigados com uma incandecente chuva de chamas enquanto andam ininterruptamente sem sair do lugar – assim será a sua caminhada dali em diante. Mais dolorosa que a tortura do fogo queimando seu corpo extenuado por passos estrangulados é o constrangimento dessa realidade agoniante que passa a viver: A dor, que brota em lágrimas, sentindo, / Socorre-se das mãos a aflita gente / Contra o solo e o vapor, que está caindo. Numa incoerência própria da malignidade, que castiga quando merece ser castigada, o Mal se vinga de sua rejeição definitiva.

Ele se vê, então, subjugado pela impotência de afrontá-lo em sua sanha diabólica de transformar a conquista da sua liberdade numa luta sem tréguas a exigir ações estratégicas, sendo a primeira o bloqueio rigoroso de contato com a amada que, vivendo a expectativa do primeiro encontro, inesperadamente, é confinada na solitária do sétimo círculo de Dante: “Se dessa parte o borbulhão parece / Do rio escassear, eu te asseguro” /‒ disse Nessio ‒ “que mais engrossa e desce / Na parte oposta até juntar-se ao escuro / Pego em que, como hás visto a tirania / As penas dá no seu tormento duro”.

Em pungente agonia, lá está Ela, Dulcinea romântica e sonhadora, que debruçada na janela de uma tarde de um novembro que se esvaía no seu tempo de vida, viu-se quichotescamente assediada por um cavaleiro garboso e valente, e se deixou envolver pelo lindo sonho de amor que aquele Don Quijote com ares de Don Juan acenou-lhe de cima do seu Rocinante: “Olhe moça, eu corro atrás de sonhos, como corro”. Capturada pelo fascínio de uma paixão fulminante, ela o seguiu com um olhar extasiado, enquanto Ele, embriagado de amor, deixou-se levar distraidamente pelo trote cadenciado do Rocinante, perdendo-se na curva fechada do caminho que o distanciava do êxtase amoroso.

A lembrança do sorriso dela acenando-lhe a promessa de um amor verdadeiro, o traz de volta à realidade. Numa tentativa de inibir a histeria manipulativa do Mal, Ele procura se adaptar à prisão e ao terrorismo que o imobiliza numa estratégica impotência, respondendo positivamente tanto à explícita exigência de fidelidade sexual como à implícita exigência de compensação pela sua liberdade, impostas por intimidação chantagiosa. Depois de se sujeitar humildemente ao mando do Mal, compensando-o da forma desejada, Ele se arrisca a propor-lhe uma segunda mudança para antes da folia de Momo. Manipulando-o com uma falsa aquiescência, o Mal solicita permissão para ficar somente mais um fim de semana na casa, no que é prontamente atendido. Não ousa contrariá-lo, pois isso significaria estimular sua ira e por a perder o trato acertado.

Em poucos dias, porém, Ele é surpreendido pelo Mal, que permanece na casa após o vencimento do prazo, impedindo sua libertação, desta feita, com duros golpes de uma passionalidade histérica, sob a estapafúrdia acusação de traição amorosa. Afinal, a união foi rompida há mais de três meses… Mas o que ocorre, na verdade, é que tal acusação faz parte de um jogo do Mal para manipular o motivo real do rompimento, transferindo-a para Ele, livrando-se, assim, da responsabilidade das consequências do danoso conflito familiar que o ocasionou. Seu objetivo é passar de algoz a vítima, ficando com mais moral para chantageá-lo e obter ganhos materiais. Pondo em prática seu plano de acusá-lo de ter uma amante, assumindo um comportamento ciumento, o Mal passa a demonstrar suspeição de todas as mensagens recebidas por Ele, até que, num determinado momento, intercepta uma mensagem em código morse enviada por Ela da solitária do Vale do Flegetonte, onde fora aprisionada: Por toda cava, aos lados e no fundo / Furos na pedra lívida se abriam, / De igual largura a cada qual rotundo. Percebendo o jogo do inimigo, Ela frustra seu objetivo, mas a despeito disso, o Mal aproveita-se do fato para desarticular a iminente libertação d’Ele.

Reagindo ao jogo sujo do Mal, Ele perde a paciência e decide deixar casa para viver a plenitude do amor sonhado, fazendo da terceira proposta de mudança uma inversão que o obrigaria a levar o inferno para bem longe. Emocionada, sua amada acompanha, passo a passo, a narrativa da mudança para outra casa onde reina a energia positiva do amor filial, e se entrega a uma expectativa feliz. Porém, seu otimismo é açoitado por um frio e repentino distanciamento do amado que, inesperadamente, comunica-lhe sua permanência no sétimo círculo do inferno: “Em cada fogo” [...]  “um condenado”, / como em hábito envolto, arde e padece”.

Mais uma vez, Ele é derrotado pelo Mal que, percebendo que ia perder seu valioso objeto de chantagem, usa de dissimulação para mantê-lo prisioneiro, mostrando-se disposto a vender-lhe uma poderosa arma que, no futuro, poderá ser usada contra a sua família. Consciente de sua atitude suicida, Ele explica à amada que esse aparente retrocesso é, na verdade, um avanço estratégico que lhe permitirá  aproveitar-se da proximidade do Mal para tirar-lhe a perigosa arma, e que depois de realizar essa façanha, aí sim, estará em condições de se libertar do inferno. Sem alternativa, Ela se recolhe à impotência que a mantém prisioneira na solitária do Vale do Flegetonte: Descendo ao mais profundo vai comigo, / que morto sou, dos círculos temido: / tão certo é como falo ora contigo.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010

Etimologia:
ARA
– vocábulo tupi-guarani que significa “altar de sacrifício”. Assim, ARACRUZ, em interpretação livre desta escritora, significa “o sofrimento no altar de sacrifício”.

Ilustração:
Eugène Delacroix – Dante e Virgílio no Inferno (1822).

Vídeo Ilustrativo:
O vídeo ao lado, de autoria de Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia, mostra várias imagens dos Nove Círculos do Inferno descritos no poema épico-teológico Divina Comédia, do escritor e poeta florentino Dante Alighieri, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.

Referência:
BRITO, Leila. Aracruz. In: Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.

Triângulo Amoroso no Inferno de Dante (Cap. I)

Postado em: 24-07-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Fotos, Literatura

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ARACRUZ

LEILA BRITO

I

É uma casa nada engraçada, pois tem teto e tudo o mais dentro dela, incluindo belos  e confortáveis banheiros, quartos amplos com janelas para o norte, sul e leste, e salas estilosas e arejadas. Localizada num condomínio de luxo, com piscinas e play ground, abriga um lindo jardim onde competem em beleza um tímido pé de maracujá, que milagrosamente se salvara da queda de um coqueiro derrubado pelo vento de dezembro, e um vaidoso caramanchão com uma grande mesa e bancos de madeira silenciados pelos muitos causos escutados em conversas prazerosas regadas a vinho e wisk. Cercada de árvores por todos os lados, situa-se num ponto privilegiado do terreno impiedosamente assolado pelas chuvas de verão que derrubaram parte do muro lateral ainda por ser reerguido. Uma bela casa!

Da varanda, Ele olha a mesa do caramanchão, onde sonha fazer amor com a mulher amada, ardentemente desejada, e a quem já fizera a louca proposta, em meio a outras tantas fantasias que envolvem quartos, banheiros, biblioteca e cozinha. Impossível deitá-la sobre a mesa da cozinha. Tem o tampo de vidro. Daí que a mesa do caramanchão sugere tanto mais segurança como maior emoção ao ato, pois amar ao ar livre é comungar com a natureza, poeta mentalmente enquanto fuma o cigarro depois de arrancar-lhe desdenhosamente o filtro. Hábito adquirido pelo puro prazer de sentir o forte gosto do fumo em sua boca carnuda imperceptivelmente amarelada pelo vício.

Cada vez que pensa n’Ela, tenta agarrar o sonho com as mãos como a querer aprisioná-lo pelos dedos, impedindo que se dilua no ar puro que o cigarro polui com suas coreográficas baforadas. Imagina-a deitada na mesa do caramanchão, as pernas abertas num convite indecente, e sente a tesão retesando-lhe o sexo. Quando Ela virá? E a resposta se retrai timidamente esgueirando-se pelos vãos da dúvida e se escondendo atrás da certeza.

Ela virá, mas somente quando se concretizar a nona e definitiva mudança do Mal, que instalou o inferno na bela casa, assombrando a energia da vida. Transvestido numa horrenda mulher de cérebro atrofiado por um infantilismo pirracento manifestado em devastadoras cenas de uma violenta histeria manipulativa à base de gritos e agressão física… Uma mulher fria e calculista, de voz esganiçada, sorriso medonho e olhar tresloucado, insensível e desnaturada, falsa e vulgar, interesseira e golpista, manipuladora e ardilosa, dominadora e inescrupulosa, mau caráter e insana, mas sendo muito mais criminosa que louca, pois usando de chantagem e terrorismo para intimidar, imobilizar e dominar sua presa, o Mal se apossou criminosamente da sua liberdade.

Vaga seu pensamento pelo tempo daqueles oito meses de encurralamento do desejo de viver o sonho oito vezes frustrado pelo adiamento da libertadora mudança. A primeira, pensada no dezembro que se seguiu à explosão do conflito familiar provocado pelo Mal e causador da ruptura radical da união, é marcada para o janeiro que explodiria o verão com o fogo da nova paixão represada no seu corpo carente de prazer amoroso, e é certa como a certeza do seu desejo de liberdade. Tudo acertado com a amada que se entrega ao devaneio do sonhado encontro.

Mas o Mal, dando início a um imprevisível, longo e doloroso processo terrorista chantagioso onde vale os golpes mais baixos para manter a coabitação, empatando o desenlace natural da união, manipula o combinado fingindo partir em definivo, mas voltando para a casa inesperadamente, quatro dias depois, acompanhado de um domônio que o sequestra, acorrentando-o ao seu desejo sórdido de se apossar de sua vida. A intenção subjacente é torturá-lo até obter dinheiro alto pela sua liberdade. É então que, repentinamente, Ele se vê prisioneiro no inferno: É o lugar mais fundo e denegrido, / mais remoto do céu que os orbes gira.  

LEILA BRITO
Belo Horizonte, JUN/JUL 2010

Etimologia:
ARA
– vocábulo tupi-guarani que significa “altar de sacrifício”. Assim, ARACRUZ, na interpretação livre desta escritora, significa “o sofrimento no altar de sacrifício”.

Ilustração:
Anselm Feuerbach – Paolo e Francesca (1864) – Schack-Galerie, Mônaco.

Vídeo Ilustrativo:
O vídeo ao lado, de autoria de Ezequiel Rubattino Santiago Minaglia, mostra várias imagens dos Nove Círculos do Inferno descritos no poema épico-teológico Divina Comédia, do escritor e poeta florentino Dante Alighieri, segundo visão de grandes pintores renascentistas. Vale a pena assisti-lo ao som do Requiem de Mozart.

Referência:
BRITO, Leila. Aracruz. In: Ara. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.

Vídeo da Semana

Postado em: 19-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Vídeos

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O escritor português José Saramago dispensa apresentação da mesma forma que dispensa elogios a sua valiosa obra que reúne o que de mais rico e singular existe na expressão literária da Língua Portuguesa.

A morte de  Saramago, ocorrida nesta data, desperta nos amantes da Literatura um sentimento de profunda tristeza manifestada na mais justa admiração e no mais profundo respeito, tanto por sua refinada inteligência criativa como por sua aguda lucidez e seu imbatível senso crítico, que o conduziu à produção de uma obra literária acima de tudo denunciadora da podridão vigente entre os homens na forma de poderes destrutivos da lucidez humana, objetivando a alienação do homem e sua consequente dominação.

Sua aguçada visão crítica e sua personalidade desafiadora provocou diversas polêmicas. Assim, suas opiniões sobre religião e sobre a luta internacional contra o terrorismo resultaram em acusações de diversos quadrantes. Crítico feroz da Igreja Católica Apostólica Romana, classificou a Bíblia como um manual de maus costumes, provocando reações de protestos do Vaticano.

A propósito, citando Laerte Braga em sua crônica “O bloco do pau de arara e do choque elétrico”: Perguntaram a José Saramago por qual motivo continuava sendo comunista diante dos “crimes” de Stalin. Saramago respondeu de forma simples: “Por convicção ou alguém deixa de ser católico por conta dos crimes da Inquisição?”.

Quanto à posição de Israel no conflito contra os palestinos, caracterizado pela crueldade de um lento genocídio, numa visita a São Paulo, a 13 de outubro de 2003, em entrevista ao jornal O Globo, Saramago afirmou que os judeus  não merecem a simpatia pelo sofrimento por que passaram durante o Holocausto… Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós. A Anti-Defamation League (Liga Anti-Difamação – ADL), um grupo judaico de defesa dos direitos civis, caracterizou estes comentários como sendo anti-semitas.

Em defesa de Saramago, diversos autores afirmam que ele não se insurgiu contra os judeus, mas contra a política de Israel, como, por exemplo, num artigo publicado a 3 de Maio de 2002 no jornal Público, onde, comparando o atual conflito com a cena bíblica de David e Golias, o escritor diz que David, representando Israel, se tornou num novo Golias“, e que aquele “lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinianos para depois negociar com o que deles restar“.

Lendo este discurso apaixonado em defesa dos mais fracos, o que podemos concluir, neste momento em que Saramago deixa este mundo-cão, é que  a Humanidade perde hoje um de seus mais dignos e corajosos defensores.

No vídeo ao lado, apresentamos a reportagem de uma TV portuguesa sobre a morte do escritor, com flashs de uma entrevista concedida ao programa Última Hora, onde ele relata momentos importantes de sua vida e fala sobre sua obra.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 18 jun 2010

Ilustração:
Saramago clicado por fotógrafo desconhecido desta escritora.

Referência:
WIKIPÉDIA. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago>. Acesso em: 18 jun. 2010.

Um conto de Saramago

Postado em: 18-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

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Embargo
EMBARGO

Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com um lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro d seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a idéia do casulo morno q era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos aquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro.

Disse à mulher que não se levantasse, que aproveitasse um pouco mais da manhã, e escorregou para o ar frio, para a humidade indefinível das paredes, dos puxadores das portas, das toalhas da casa de banho. Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera. Tossiu como todas as manhãs. Depois vestiu-se às apalpadelas, sem acender a luz do quarto. Na queria acordar a mulher. Um cheiro fresco de água-de-colônia avivou a penumbra, e isso fez que a mulher suspirasse de prazer quando o marido debruçou-se na cama para lhe beijar os olhos fechados. E ele sussurrou que não viria almoçar a casa.

Fechou a porta e desceu rapidamente a escada. O prédio parecia mais silencioso que de costume. Talvez do nevoeiro, pensou. Reparara que o nevoeiro era assim como uma campânula que abafava os sons e os transformava, dissolvendo-os, fazendo deles o que fazia com as imagens. Estaria nevoeiro. No último lanço da escada já poderia ver a rua e saber se acertara. Afinal havia uma luz ainda cinzenta, mas dura e rebrilhante, de quartzo. Na berma do passeio, um grande rato morto. E enquanto, parado à porta, acendia o terceiro cigarro, passou um garoto embaçado, de gordo, que cuspiu em cima do animal, como lhe tinham ensinado e sempre via fazer.

O automóvel estava cinco prédios abaixo. Grande sorte ter podido arrumá-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança. O automóvel apareceu-lhe coberto de gotículas, os vidros tapados de humidade. Se não fosse o frio tanto, poderia dizer-se que transpirava como um corpo vivo. Olhou os pneus segundo o deu hábito, verificou de passagem que a antena não fora partida e abriu a porta. O interior do carro estava gelado. Com os vidros embaciados, era uma caverna translúcida afundada sob um dilúvio de água. Pensou que teria sido melhor deixar o carro em sítio onde pudesse faze-lo descair para pegar mais facilmente. Ligou a ignição, e no mesmo instante o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente. Sorriu, satisfeito da surpresa. O dia começava bem.

Rua acima, o automóvel arrancou, raspando o asfalto como um animal de cascos, triturando o lixo espalhado. O conta-quilómetros deu um salto repentino para 90, velocidade de suicídio na rua estreita e ladeada de carros parados. Que seria isto? Retirou o pé de acelerador, inquieto. Por pouco diria que lhe teriam trocado o motor por outro muito mais potente. Pisou à cautela o acelerador dominou o carro. Nada de importância. Às vezes não se controla bem o balanço do pé. Basta que o tacão do sapato não assente no lugar habitual para que se altere o movimento e a pressão. É simples.

Distraído com o incidente, ainda não olhara o marcador da gasolina. Ter-lhe-iam roubado durante a noite, como já não era a primeira vez? Não. O ponteiro indicava precisamente meio depósito. Parou num sinal vermelho, sentindo o carro vibrante e tenso nas suas mãos. Curioso. Nunca dera por essa espécie de frémito animal que percorria em ondas a chapas da carroçaria e lhe fazia estremecer o ventre. Ao sinal verde, o automóvel pareceu serpentear, alongar-se como um fluido , para ultrapassar os que lhe estavam à frente. Curioso. Mas, na verdade, sempre se considerara muito melhor condutor do que o comum. Questão de boa disposição, esta agilidade dos reflexos hoje, talvez excepcional. Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha que dar antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, filas de dezenas e dezenas de carros. Meio depósito. Outros andam a essa hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento,  lançou-se numa subida íngreme sem esforço. Ali perto havia uma bomba pouco  conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e ocupar espaço na fila que esperava. Boa lembrança.

Olho o relógio. Deviam estar à frente uns vinte carros. Nada de exagerado. Mas pensou que seria melhor ir ao escritório e deixar as voltas para a tarde, já cheio o depósito, sem preocupações. Baixou o vidro para chamar um vendedor de jornais que passava. O tempo arrefecera muito. Mas ali, dentro do automóvel, de jornal aberto sobre o volante, fumando enquanto esperava, havia um calor agradável, como o dos lençóis. Fez mover os músculos das costas, com uma torção de gato voluptuoso, ao lembrar-se da mulher ainda enroscada na cama àquela hora, e recostou-se melhor no assento. O jornal não prometia nada de bom. O embargo mantinha-se. Um Natal escuro e frio, dizia um dos títulos. Mas ele ainda dispunha de meio depósito e ao tardaria a té-lo cheio. O automóvel da frente avançou um pouco. Bem.

Hora e meia mais tarde estava a atestar , e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava restrições rigorosas. Enfim, do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou o rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.

De repente, o carro deu uma guinada e descaiu para a rua à direita, até parar numa fila de automóveis mais pequena do que a primeira. O que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas. Que disparate. Agora avaria. O automóvel da frente avançou. Receosamente, a contar com o pior, engatou a primeira. Tudo perfeito. Suspirou de alívio. Mas como estaria a marcha atrás quando tornasse a precisar dela?

Cerca de meia hora depois metia meio litro de gasolina no depósito, sentindo-se ridículo sob o olhar desdenhoso do empregado da bomba. Deu uma gorjeta absurdamente alta e arrancou num grande alarido de pneus e acelerações. Que diabo de ideia. Agora ao cliente, ou será uma manhã perdida. O carro estava melhor do que nunca. Respondia aos seus movimentos como se fosse um prolongamento mecânico do seu próprio corpo. Mas o caso da marcha atrás dava que pensar. E eis que teve que pensar mesmo. Uma grande camioneta avariada tapava todo o leito da rua. Não podia contorná-la, não tivera tempo, estava colado a ela. Outra vez a medo, manejou a alavanca, e a marcha atrás engrenou com um ruído suave de sucção. Não se lembrava de a caixa de velocidades ter reagido dessa maneira antes. Rodou o volante para esquerda, acelerou, e de um só arranco o automóvel subiu o passeio, rente aa camioneta, e saiu do outro lado, solto, com uma agilidade de animal. O diabo do carro tinha sete fôlegos. Talvez que por causa de toda essa confusão do embargo, tudo em pânico, os serviços desorganizados tiveram feito meter nas bombas gasolina de muito maior potência. Teria a sua graça.

Olhou o relógio. Valeria ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou. Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório o e deixar para tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro. Gasolina queimada sem proveito. Enfim, o depósito estava cheio. Num largo ao fundo da rua por onde descia viu outra fila de automóveis, à espera de vez. Sorriu de gozo e acelerou, decidido a passar roncando contra os entanguidos automobilistas que esperavam. Mas o carro, a vinte metros, obliquou para esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que cisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio? Ficou a olhar os diversos mostradores, a apalpar o volante custando-lhe a reconhecer o carro, e nessa sucessão de gestos puxou o retrovisor e olhou-se no espelho. Viu que estava perplexo e considerou que tinha razão. Outra vez pelo retrovisor distinguiu um automóvel que descia a rua, com todo o ar de vir colocar-se na fila. Preocupado com ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de leva-lo à oficina. Uma marcha atrás que funcionava ora sim ora não, é um perigo.

Tinha passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar-se o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atesta-se o depósito. No mesmo instante, fez uma tentativa para fugir à vergonha, meteu uma rápida primeira e arrancou. Em vão. O carro não se mexeu. O homem da bomba olhou desconfiado, abriu o depósito, e, passados poucos segundo, veio pedir o dinheiro de um litro, que guardou resmungando. No instante logo, a primeira entrava  sem qualquer dificuldade e  o carro avançava, elástico, respirando pausadamente. Alguma coisa não estaria bem no automóvel, nas mudanças, no motor, em qualquer sítio, diabo levasse. Ou estaria ele a perder a suas qualidades de condutor? Ou estaria doente? Dormira ainda assim bem, não tinha mais preocupações da vida que em todos os outros dias dela. O melhor seria desistir por agora de cliente, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do caro vibravam rapidamente, não à superfície, mas no interior dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber por quê, deu por que estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse das outras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça. Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente ao escritório. Pôde arrumar o carro suspirou de alívio. Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair.

Julgou que a aba da gabardina se prendera, que a perna ficara entalada na coluna do volante, e fez outro movimento. Ainda procurou o cinto de segurança, a ver se o colocara sem dar por isso. Não. O cinto estava pendurado ao lado, tripa negra e mole. Disparate, pensou. Devo estar doente. Podia mexer livremente os braços e as pernas, flectir ligeiramente o tronco consoante as manobras, olhar para trás, debruçar-se um pouco para a direita, para o cacifo das luvas, mas as costas aderiam ao encosto do banco. Não rigidamente, mas como um membro adere ao corpo. Acendeu um cigarro, e de repente preocupou-se com o que diria ao patrão se assomasse a uma janela e o visse ali sentado, dentro do carro, a fumar, sem nenhuma pressa de sair. Um toque violento de claxon fé-lo fechar a porta, que abrira para a rua. Quando o outro carro passou, deixou descair lentamente a porta outra vez, atirou o cigarro fora e, segurando-se as mãos ambas ao volante, fez um movimento brusco, violento. Inútil. Nem sequer sentiu dores. O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso. Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo retrovisor e olhou-se. Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina.

Voltou a olhar no espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia.Manobrou para desencostar, rapidamente, deixando a mão à porta para fechá-la, e desceu a rua o mais depressa que podia. Tinha um fito, um objectivo muito definido que já o tranqüilizava e tanto que se deixou ir com um sorriso que aos poucos lhe abrandara a aflição.

Só reparou na bomba de gasolina quando lhe ia a passar pela frente. Tinha um letreiro que dizia “esgotado”, e o carro seguiu, sem o mínimo desvio, sem diminuir a velocidade. Não quis pensar no carro. Sorriu mais. Estava a sair da cidade, eram já os subúrbios, estava perto o sito que procurava. Meteu por uma rua em construção, virou à esquerda e à direita, até uma azinhaga deserta, entre valados. Começava a chover quando parou o automóvel.

A sua ideia era simples. Consistia em sair de dentro da gabardina, torcendo os braços e o corpo, deslizando para fora dela, tal como faz a cobra quando abandona a pele. No meio de gente não se atreveria, mas, ali, sozinho, com um deserto em redor, só longe a cidade que se escondia por trás da chuva, nada mais fácil. Enganara-se, porém. A gabardina aderia ao encosto do banco, do mesmo modo que ao casaco, à camisola de lã, à camisa, à camisola anterior, à pele, aos músculos, aos ossos. Foi isso que pensou não pensando quando daí a dez minutos se retorcia dentro do carro, a chorar. Desesperado. Estava preso no carro. Por mais que se torcesse para fora, para a abertura da porta, por onde a chuva entrava emperrada por rajadas súbitas e frias, por mais que fincasse os pés na saliência alta da caixa de velocidades, não conseguia arrancar-se do assento. Com as duas mãos segurou-se ao tejadilho e tentou içar-se. Era como se quisesse levantar o mundo. Diante dos seus olhos, os limpa-vidros, que sem querer pusera em movimento no meio da agitação, oscilavam com um ruído seco, de metrônomo. De longe veio o apito da fábrica. E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca. O homem que pedalava olhou curiosamente para dentro do carro e seguiu, talvez decepcionado ou intrigado, por ver um homem sozinho, e não o casal que de longe lhe parecera.

O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso dessa maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali. À força não podia ser. Talvez numa garagem? Não. Como iria explicar? Chamar a polícia? E depois? Juntar-se ia gente, tudo a olhar, enquanto a autoridade evidentemente o puxaria por um braço e pediria ajuda aos presentes, e seria inútil, porque o encosto do banco docemente o prenderia a si. E viriam os jornalista, os fotógrafos, e ele seria mostrado metido no seu carro em todos os jornais do dia seguinte, cheio de vergonha como um animal tosquiado à chuva. Tinha de arranjar outra maneira. Desligou o motor e sem interromper o gesto atirou-se violentamente para fora, como quem ataca de surpresa. Nem um resultado. Feriu-se na testa e na mão esquerda, e a dor causou-lhe uma vertigem que se prolongou , enquanto uma súbita e irreprimível vontade de urinar se expandia, libertando interminável o líquido quente que vertia e escorria entre as pernas para piso do carro. Quando tudo isso sentiu, começou a chorar baixinho, num ganido, miseravelmente, e assim esteve até que um cão, vindo da chuva, veio ladrar-lhe, esquálido e sem convicção, à porta do carro.

Embraiou devagar,  com os movimentos pesados de um sonho de cavernas, e avançou pela azinhaga fazendo força para não pensar, para não deixar que a situação se lhe figurasse num entendimento. De um modo vago sabia que teria de procurar alguém que o ajudasse. Mas quem poderia ser? Não queria assustar a mulher, mas não restava outro remédio. Talvez ela conseguisse. Ao menos não se sentiria tão desgraçadamente sozinho.

Voltou a entrar na cidade, atento aos sinais, sem movimentos bruscos no assento, como se quisesse apaziguar os poderes que o prendiam. Passavam das duas horas e o dia escurecera muito. Viu três bombas de gasolina, mas o carro não reagiu. Todas tinham o letreiro de “esgotado”. À medida que penetrava na cidade, ia vendo automóveis abandonados em posições anormais, com os triângulos vermelhos colocados na janela de trás, sinal que noutras ocasiões seria de avaria, mas que significava, agora, quase sempre, falta de gasolina. Por duas vezes viu grupos de homens a empurrar automóveis para cima dos passeios , com grandes gestos de irritação, debaixo da chuva que não parara ainda.

Quando enfim chegou à rua onde morava, teve de imaginar como iria chamar a mulher. Parou o carro em frente da porta, desorientado, quase à beira doutra crise nervosa. Esperou que acontecesse o milagre de a mulher descer por obra e merecimento do seu silencioso chamado de socorro. Esperou muitos minutos, até que um garoto curioso da vizinhança se aproximou e ele pôde pedir-lhe, com o argumento de uma moeda, que subisse ao terceiro andar e dissesse à senhora que lá morava que o marido estava em baixo à espera, no carro. Que viesse depressa, que era muito urgente. O rapaz foi e desceu, disse que a senhora já vinha e afastou-se a correr, com o dia ganho.

A mulher descera como sempre andava em casa, nem sequer lembrara de trazer um guarda-chuva e agora estava entreportas, indecisa, desviando sem querer os olhos para um rato morto na berma do passeio, para o rato mole, de pelo arrepiado, hesitando em atravessar o passeio debaixo da chuva, um pouco irritada contra o marido que a fizera descer sem motivo, quando poderia muito bem ter subido a dizer o que queria. Mas o marido acenava de dentro do carro e ela assustou-se e correu. Deitou a mão ao puxador, precipitando-se para fugir à chuva, e quando enfim abriu a porta e viu diante do seu rosto a mão do marido aberta empurrando-a sem lhe tocar. Teimou e quis entrar, mas ele gritou-lhe que não, que era perigoso, e contou-lhe o que acontecia, enquanto ela encurvada recebia nas costas toda a chuva que caía e os cabelos se lhe desmanchavam, e o horror lhe crispava a cara toda. E viu o marido, naquele casulo quente e embaciado que o isolava do mundo, torcer-se todo no assento para sair do carro e não conseguir. Atreveu-se a agarra-lo por um braço e puxou, incrédula, e não pode também move-lo dali. E como aqui era horrível demais para ser acreditado, ficaram calados a olhar-se, até que ela pensou que o marido estava doido e fingia não poder sair. Tinha de ir chamar alguém para o tratar, para o levar aonde as loucuras se tratam. Cautelosamente, com muitas palavras, disse ao marido que esperasse um bocadinho, que ela não tardaria, ia procurar ajuda para ele sair, e assim até poderiam almoçar juntos e ele telefonaria para o escritório a dizer que estava constipado. E não iria trabalhar da   parte da tarde. Quer sossegasse, o caso não tinha importância, a ver que não demora nada.

Mas quando ela desapareceu na escada, ele tornou a imaginar-se rodeado de gente, o retrato nos jornais, a vergonha de se ter urinado pelas pernas abaixo, e esperou ainda uns minutos. E quando em cima a mulher fazia telefonemas para toda a parte, para a polícia, para o hospital, lutando para que acreditassem nela, e não na sua voz, dando seu nome e o do marido, a cor do carro, e a marca, e a matrícula, ele não pôde agüentar a espera e a imaginação, e ligou o motor. Quando a mulher tornou a descer, o automóvel já desaparecera e o rato escorregara da berma do passeio, enfim, e rolava na rua inclinada, arrastado pela água que corria dos algeroses. A mulher gritou, mas as pessoas tardaram a aparecer e foi muito difícil de explicar.

Até o anoitecer o homem circulou pela cidade, passando por bombas esgotadas, entrando em filas de espera sem o ter decidido, ansioso por o dinheiro se lhe acabava e ele não saberia o que poderia acontecer quando não houvesse mais dinheiro e o automóvel parasse ao pé duma bomba para receber mais gasolina. E isso só não aconteceu porque todas as bombas começaram a fechar e as filas de espera que ainda se viam apenas aguardando o dia seguinte, e então o melhor era fugir de encontrar bombas ainda abertas para não ter que parar. Numa avenida muito longa e larga, quase sem outro trânsito, o carro da polícia acelerou e ultrapassou-o, e quando o ultrapassava um guarda fez-lhe sinal para que parasse. Mas ele teve outra vez medo e não parou. Ouviu atrás de si a sereia da polícia e viu, também, vindo não soube donde, um motociclista fardado quase a alcançá-lo. Mas o carro, o seu carro, deu um rondo, um arranco poderoso e saiu, de um salto, logo adiante, para o acesso duma auto-estrada. A polícia seguia-o de longe, cada vez mais longe, e quando a noite se fechou não havia sinais deles, e o automóvel rolava por outra estrada.

Sentia fome. Urinara outra vez, humilhado demais para se envergonhar e delirava um pouco: humilhado, himolhado. Ia declinando sucessivamente, alterando as consoante e as vogais, num exercício in consciente e obsessivo que o defendia da realidade. Não parava porque não sabia para que iria parar. Mas, de madrugada, por duas vezes, encostou o carro a berma e tentou sair devagarinho, como se entretanto ele e o carro tivessem chegado a um acordo de pazes e fosse a altuar de tirar a prova da boa-fé de cada um. Por duas vezes falou baixinho quando o assento o segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixa-lo sair a bem, por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar. E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado, continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir.

Toda a noite viajou sem saber por onde. Atravessou povoações de que não viu o nome, percorreu longas rectas, subiu e desceu montes, fez e desfez laços e deslaços de curvas, e quando a manhã começou a nascer estava em qualquer parte, numa estrada arruinada, onde a água da chuva se juntava em charcos arrepiados à superfície. O motor roncava poderosamente , arrancando as rodas à lama, e toda a estrutura do carro vibrava, com um som inquietante. A manhã abriu por completo, sem que o sol chegasse a mostrar-se, mas a chuva parou de repente. A estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante. Foi nesse momento que viu que ponteiro do indicador da gasolina estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e arrastou o carro por mais vinte metros. Era outra vez estrada para lá daquele lugar, mas a gasolina acabara.

A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os  olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou do carro. Escorregou um pouco mais, e ficou deitado sobre as pedras. A chuva recomeçara a cair.

Copyright© 1994 Companhia das Letras

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
SARAMAGO, José. Objeto Quase. São Paulo: Cia das Letras, 1994.

Vídeo da Semana

Postado em: 09-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Literatura, Vídeos

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machado-de-assis2

Ilustrando o ensaio “As mulheres preferem os tolos(?)”, post anterior, disponibilizo, no espaço de vídeo deste blog, uma aula ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Schwarz contextualizando e analisando a obra de Machado de Assis, adentrando, inclusive, o tom político da crítica que o escritor faz à elite nacional em seus romances, no sentido de considerá-la inculta, alienada, preconceituosa, vulgar e meramente preocupada com a garantia da propriedade.

Schwarz exemplifica tal perfil criticado por Machado, equiparando-o ao da mesma elite brasileira que apoiou o Golpe de Estado de 64, esclarecendo que jamais se poderia esperar dessa classe social uma atitude de “mentores esclarecidos”, e sim de pessoas unicamente preocupadas com a preservação da posse de seus bens e com a possibilidade de enriquecerem ainda mais com o Regime Militar.

Crítico literário, professor aposentado de Teoria Literária da USP e um dos continuadores da obra de Antonio Candido, Schwarz redigiu estudos críticos sobre Machado de Assis elencados entre os mais representativos sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sobre a tradição crítica a que se filia, o próprio Schwarz afirma que se impregnou muito dos livros e pontos de vista de Antonio Candido, e acrescenta: “Meu trabalho seria impensável, igualmente, sem a tradição – contraditória – formada por Lukács, Benjamin, Brecht e Adorno, e sem a inspiração de Marx.”

O vídeo é de curta duração e, por isso, não tomará muito do seu tempo. Sugiro, pois, que assista à essa magnifica aula do Prof. Schwarz que, sem dúvida, acrescenta informações valiosas sobre a incomparável produção literária do maior escritor brasileiro de todos os tempos.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 9 de junho de 2010.

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
WIKIPÉDIA. Roberto Schwarz. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_Schwarz>. Acesso em: 9 jun. 2010

As mulheres preferem os tolos(?)

Postado em: 08-06-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Filosofia, Literatura

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capitu1

LEILA BRITO

Essa é a tese defendida pelo maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis, em sua obra literária.  E é o teórico francês Victor Henaux o autor de tão revolucionária teoria, exposta em um artigo intitulado Queda que as mulheres têm para os tolos, traduzido por Machado em 1861. Segundo Henaux:

O tolo não se faz, nasce feito. [...] Mulher alguma resistiu nunca a um tolo. [...] Nenhum homem de espírito teve ainda impunemente um parvo como rival. [...] Em matéria de amor, deixa-se o homem de espírito embalar por estranhas ilusões. [...] Respeitoso até a timidez não ousa exprimir o seu amor em palavras; exala-o por meio de uma não interrompida série de meigos cuidados, ternos respeitos e atenções delicadas. [...] O tolo, porém, não tem escrúpulos. [...] Para fazer-se notar daquela que ama, importuna-a, acompanha-a nas ruas, vigia-a nas igrejas e espia-a nos espetáculos. Arma-lhe laços grosseiros (HENAUX, 1859).

Este texto de Victor Henaux pertence à produção teórica dos moralistas franceses, foi escrito com uma roupagem esteticista da época, e expõe a comparação do homem de espírito (homem culto) com o homem tolo (homem inculto), para defender a tese de que a mulher tem queda pelos tolos, e que isto é algo irremediável nela, tratando-se, pois, de uma tendência “genética” do sexo feminino.

Na primeira parte do texto, HENAUX (1859) mostra que as mulheres agiriam normalmente, de uma forma geral, exceto na questão do amor, cuja regularidade no comportamento aponta para a sua preferência pelos homens tolos – qualidade inferior de homens. Na segunda parte do texto, o autor exalta o homem tolo, porque qualquer carreira que ele escolha o levará ao sucesso, não importando a profissão dele. Na verdade, a tolice seria uma virtude que o leva ao sucesso com as mulheres. Esse cientificismo é visto de forma determinante, chegando o autor a colocar o tema no interior da Física para demonstrar o determinismo do sucesso do tolo. Na terceira parte do texto, o autor mostra que o homem de espírito tem uma visão aprofundada do mundo. Já o tolo vê o mundo a partir de uma visão estratégica ou pragmática. Em vista disso, o homem  de espírito é voltado para a interioridade(virtudes), buscando a si próprio, pois tem consciência de suas limitações, enquanto o homem tolo volta-se para a exterioridade  (coisas mundanas), sendo marcado pela vaidade (se acha o tal), e essa característica é fundamental para que conquiste as mulheres (em francês vanité – van = vão, ou seja, o tolo não sabe nada mas acha que sabe, e é por isso que alcança o sucesso).

Por fim, o autor explica que “o amor é uma jornada do sentimento à sensação”. O homem de espírito valoriza o sentimento enquanto o homem tolo valoriza a sensação.  Tem-se, então, um confronto entre o amor mais espiritualizado e o amor mais carnal. Assim, porque o homem de espírito é um questionador de seus valores, ele está sempre em dúvida quanto ao seu amor (é perturbado pela dúvida), enquanto o homem tolo é um amante sempre contente e tranquilo, porque tem confiança nos seus predicados e, portanto, tem certeza de ser amado. O homem de espírito preocupa-se com o amor que doa, enquanto o homem tolo preocupa-se com o amor que recebe. O homem de espírito é um ser ético; o homem tolo é um ser estratégico (manipulador). Assim, para o homem de espírito a mulher é um FIM, enquanto para o homem tolo a mulher é um MEIO (HENAUX, 1859).

A visão da mulher que se tinha na época é a de um ser volúvel na esfera dos sentimentos, expondo o movimento natural da vida em contante mutação, refletindo, pois, em seu comportamento, o “vir-a-ser”. Diante disto, para HENAUX (1859), o homem de espírito não se ajusta a esta mutabilidade e se sente perdido, enquanto o homem tolo coloca-se acima disto, utilizando a traição para seguir em frente. Assim, o homem tolo é bem ajustado ao “vir-a-ser”, à temporalidade, enquanto o homem de espírito vive um estranhamento em relação ao “vir-a-ser”, sendo um filósofo voltado para as coisas eternas. Por isso, o homem de espírito tenta se sobrepor aos reveses e muda, cresce, enquanto o homem tolo, que não sofre reveses na vida, permanece imaturo.

Num estudo aprofundado da ficção machadiana, constata-se que o escritor adota a teoria de HENAUX (1859), expondo a problemática da oposição entre vida interior (vida íntima), opção do homem de espírito, e vida exterior (vida social), opção do homem tolo. O primeiro sabe que lhe falta muito; tem consciência de sua condição humana limitada, sendo, por isso, um questionador de seus valores e, por estar voltado para a interioridade do próprio ser, não alcança o sucesso mundano (incluindo-se aí as mulheres). Já o segundo é cheio de si, vaidoso de seus predicados e, por estar voltado para a exterioridade do próprio ser, alcança o sucesso mundano (particularmente com as mulheres). Ao longo de sua obra, o homem de espírito de Machado vai se transformando no personagem cético, em um perdedor no campo amoroso, que se caracteriza em Brás Cubas (um cético morto) – Memórias póstumas de Braz Cubas, evolui em Bentinho (um cético vivo) – Dom Casmurro, e se define em Aires (o cético convicto – um ataráxico) – Memorial de Aires. Tal processo foi possibilitado pela mudança do foco narrativo, com os personagens Brás Cubas, Bentinho e Aires no papel de narradores/escritores da própria história.

Assim, no transcurso de sua obra, Machado de Assis expõe a problemática da oposição entre vida interior e vida exterior, e tal confronto é refletido no triângulo amoroso que ambasa todos os seus romances, com o homem tolo sempre vencendo o homem de espírito. Em Dom Casmurro, Bentinho se afasta da vida exterior, representada por Capitu, amargando a dúvida da traição que ele nunca admite explicitamente. Enfim, o grande escritor não deixa dúvida: “as mulheres preferem os tolos”.

Referências:
ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. 4. ed. São Paulo: Ática, 1985. (Bom Livro)
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Crawfordsville-USA: Klick Editora, 1997.
ASSIS, Machado de. Dom casmurro. In: MINISTÉRIO DA CULTURA. Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: www.dominiopublico.org.br. Acesso em: 8 set. 2007.
BRITO, Leila. A filosofia na ficção de Machado de Assis: Pacal, Montaigne, Shopenhauser, Comte. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 14 f. Mimeografado.
BRITO, Leila. O ceticismo em Machado de Assis. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 2007. 50 f. Notas de aula.
HENAUX, Victor. [1859]. Queda que as mulheres têm para os tolos. Tradução de Machado de Assis. AM, 19, 23, 26 e 30 abr. e 3 mai. 1861. In: ASSIS, Machado de. Obras Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1937-58. v. III).
MAIA NETO, José Raimundo. A condição de observador na obra de Machado de Assis. 1987. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1987.

Ilustração:
Atores representando as personagens principais de Dom Carmurro na minissérie Capitu produzida pela Rede Globo.