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Vídeo em Destaque

Postado em: 31-01-2012 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Educação, Vídeos, arte, fotografia

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barcelonaII

BARCELONA

Maior metrópole da Europa dentre as localizadas na costa do Mediterrâneo, Barcelona é também a maior cidade e a capital da comunidade autônoma da Catalunha, nordeste da Espanha, e a capital da comarca de Barcelonès e da província de Barcelona. Lá se encontram as instituições mais importantes do governo da Catalunha: a Generalidade da Catalunha (governo autônomo) e o parlamento autônomo.

Das ruínas romanas à cidade medieval, passando por bairros do modernismo catalão, com seus edifícios característicos, ruas arborizadas e largas avenidas, Barcelona reúne harmonicamente o antigo e o novo, revelando, nas linhas de seu traçado singular, a arquitetura do mestre Antoni Gaudí exposta em algumas de suas mais relevantes obras. Dentre elas, o representativo Temple Expiatori de la Sagrada Familia, que Gaudí deixou inacabado mas segue sendo construído lentamente como as catedrais na Idade Média. Seu término está previsto para até 2020. Outras obras do mesmo período são o Park Güell, a Casa Milà, também chamada de La Pedrera, e a Casa Batló, que dividem espaço com o Hostal de la Santa Creu i Sant Pau e o Palau de la Música Catalana, de Lluís Domènech i Montanera, e com o Palau Macaya de Josep Puig i Cadafalch.

gina-7Casa Batló

Em outros estilos e períodos da História, o medieval se destaca com as obras góticas que proliferam no centro histórico da cidade, precisamente no denominado Barri Gòtic, como a Seo de Santa Cruz i Santa Eulalia ou Catedral Gótica de Barcelona. Nesse mesmo estilo, a Seo Santa María de Mar se caracteriza por sua austeridade e harmonia nas medidas.

Barcelona-Montjuic-19.07.2008 113 Museu Nacional d’Art de Catalunya –MNAC

No estilo contemporâneo, destaque para a arquitetura do German Pavello (Pavilhão Alemão) de Ludwig Mies van der Rohe, o prédio da Fundació Joan Miró, do arquiteto catalão Josep Liuís Sert, o Palau Sant Jordi (Palácio de Esportes da Vila Olímpica) de Arata Isozaki, a Torre de Collserola i Tibidabo de Norman Foster  e a Torre de Montjuïc de Santiago Calatrava. Na etapa pós-olímpica, a cidade seguiu mantendo seu desenvolvimento arquitetônico, construindo edifícios como o Museu Nacional d’Arte Contemporani de Barcelona de Richard Meier, o Teatro Nacional da Cataluña, a Torre Agbar de Jean Nouvel, a Torre do Triângulo Ferroviário de Frank Gehry e o Edifício Fórum de Jaques Herzog e Pierre de Meuron.

Photos-PARIS-25a26.07.2008 051La BoqueriaLa Rambla

No centro da cidade, um lugar se destaca pela riqueza cultural: a La Rambla – passarela situada entre a Plaça de Catalunya e o antigo porto, onde são encontradas quiosques de flores, cafeterias, restaurantes, lojas comerciais e mercados. Assim, no percurso pela La Rambla, pode-se admirar edifícios históricos como o Palau de Virreina, o mercado de La Boqueria e o famoso Grande Teatro do Liceu. Uma rua lateral a La Rambla conduz a Plaça Reial e suas palmeiras e edifícios que abrigam cervejarias e restaurantes, findando no antigo porto onde se destaca o Monumento a Colombo que aponta para o mar. Próximo dali se encontra o Museu Maritim, dedicado à história naval do Mar Mediterrâneo, e onde se exibe a reprodução, em escala real, de uma antiga galera de combate. O porto oferece outros atrativos como um centro de ócio com lojas, restaurantes, um cinema IMAX e um aquário da fauna marinha mediterrânea.

Barcelona-Montjuic-19.07.2008 020Fundació Joan Miró

As Artes Plásticas ocupam lugar de destaque em Barcelona, pois dentre outros gênios da pintura, é cidade natal de Joan Mirò e cidade residência de Pablo Picasso a partir dos 14 anos. O Museu Picasso conta com uma importante coleção de obras pouco conhecidas, pois criadas pelo pintor em fases iniciais de sua extensa obra. Da mesma forma, na Fundació Joan Miró, encontram-se expostas algumas das mais importantes obra deste pintor e escultor, e exposições itinerantes procedentes de museus de todo o mundo. No Museu Nacional d’Art de Catalunya – MNAC, situado no Palau Montjuïc, encontra-se exposta uma importante coleção de arte romana. Como seu próprio nome indica, o recém construído Museu d’Art Contemporani de Barcelona expõe trabalhos de artistas desta Escola de Arte. Também são relevantes o Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, situado em El Raval, a Fundació Antoni Tàpies, a Fundación Caixa CatalunyaLa Pedrera e o Museu de Ciència também denominado CosmoCaixa, também vistas no vídeo ao lado.

O que mais posso dizer de Barcelona?
Que ela tingiu de azul o verde de minha memória marinha?
E reavivou de cores ensandecidas o meu prazer desacordado?
E soltou no ar de minha espera bolhas de sabão enlouquecidas?
E explodiu meu querer com o encontro do amor sonhado?

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 31 jan. 2012.

Referência:
WIKIPEDIA. Barcelona. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Barcelona>. Acesso em: 31 jn. 2012.

Ilustração:
Foto 1 – Barcelona via satélite. Google. Disponível em: <http://www.google.com.br>. Acesso em: 31 jan. 2012.
Foto 2 – Barcelona – Casa Batló (Antoni Gaudí). Autor desconhecido desta escritora. Disponível em: <http://thaa2.wordpress.com/category/gina/>. Acesso em: 31 jan. 2012.
Foto 3 – Barcelona – Museu Nacional d’Arte Contemporani de Barcelona–MNAC – Foto de Leila Brito, jul. 2008.
Foto 4 – Barcelona – La Boqueria, La Rambla - Foto de Cacau Pereira, jul. 2008.
Foto 5 – Barcelona – Fundació Joan Miró, jul. 2008. Foto de Leila Brito, jul. 2008.

Vídeo:
Barcelona Desde el Aire
– By Hugloreviglione – Parte I de 5. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=JVDoFxfSKH0>. Acesso em: 31 jan. 2012.
Parte 2 de 5 – http://www.youtube.com/watch?v=ySIvJbUg1yo
Parte 3 de 5 – http://www.youtube.com/watch?v=nbXOMrIo55I
Parte 4 de 5 – http://www.youtube.com/watch?v=SRczXscZbfo
Parte 5 de 5 – http://www.youtube.com/watch?v=-bj5TErF02Y

Crônica de Viagem (III)

Postado em: 31-01-2012 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Educação, Literatura, arte, fotografia

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Barcelona-Montjuic-19.07.2008 091

De Lisboa a Barcelona – “no meio do caminho tinha uma pedra”

LEILA BRITO

Após o vexame da esdrúxula escolta, o tempo de quase duas horas de espera pelo voo das 9h45 para Barcelona e a animadora expectativa de chegar ao ansiado destino, onde sei que me esperam pessoas acolhedoras e uma inédita e valiosa vivência pessoal, recolocam minha autoestima no eixo de um salutar controle emocional.

No ar, o espaço se apresenta azuladamente limpo e eu posso vislumbrar sua vastidão se sobrepondo à própria infinitude cortada pela asa do avião, que limitando meu foco de visão o converge para baixo, onde uma espécie de quebra cabeças se forma a cada sobrevoo de um povoado ou cidade. Tento decifrá-los envolvida por repousante sensação de leveza quando, repentinamente, a águia de aço parece se agitar no espaço, batendo fortemente suas asas, de forma tal que faz voar pelos ares as peças de um povoado com extensas e simétricas plantações, que eu tentava montar.

O incidente é o bastante para revolver a emoção e substituir a confiança pelo medo que, ora corajoso, se esconde sob a grandiosa cidade que, finalmente, se revela ao meu olhar atônito, desenhando-se interminavelmente sobre o solo em vertiginoso mapa; e ora traiçoeiro, impede que eu me delicie com o estupendo azul marinho do Mar Mediterrâneo se avolumando afoito sob meus pés, quando o avião se inclina vertiginosamente numa ousada curva, quase tocando as águas com a ponta de sua asa direita, onde um alvo barco deixa um sinuoso rastro de espuma branca. Sinto um calafrio escorrendo pela coluna até o coccis, e prendo a respiração em paralizante pânico, até ser arrebatada pela beleza magnífica da paisagem e momento únicos. Mais uns poucos minutos de tensionado encantamento e eu deslizo convulsa sobre a pista do aeroporto El Prat.

Se bem que as referências sobre o modus recēptō dos espanhóis não sejam nada promissoras, depois desembarcar, por volta das 11h40, sinto a sensação de tocar o chão de um porto seguro, quando um passageiro do meu voo, cuja nacionalidade não consigo identificar pelo sorriso, auxilia-me, gentilmente, pegando minha bagagem mais pesada na esteira e colocando-a no carrinho.

O calor de 38º que o ar condicionado não consegue derreter obriga-me a tirar o casaco de meia estação que usara na viagem. Com as pernas ainda sob o efeito da maratona inglória no aeroporto de Lisboa e sentindo um cansaço mental incomum, sigo em direção à saída e ao ponto de taxi sem direito à escolha, pois o primeiro da fila é quem se apresenta para levar-me ao número 671 da famosa Gran Via de les Cort’s Catalanes, onde me aguarda uma gentil anfitroa.

Barcelona-Montjuic-19.07.2008 003Monumento da Plaça d’Espanya

Ao informar la dirección no meu inseguro español, o taxista deduz que sou brasileira e, com um tom rude na voz, faz um breve e vazio comentário sobre o Brasil, perguntando-me o porquê da minha viagem. Sucinta e objetiva, falo do curso “Español para Extranjeros” na Universitat de Barcelona e da minha intenção de conhecer algumas cidades da Espanha e esticar viagem até a França e Itália. Dito isto, um profundo silêncio é imposto por mim, enquanto meu curioso olhar adentra uma paisagem urbana cada vez mais rica em obras de arte espalhadas pelas  praças e avenidas, incapaz de conseguir inserir todas elas no mosaico veloz que vai construindo ao longo do caminho que nos leva ao meu destino. O trânsito se torna lento ao cruzarmos a Plaça d’Espanya, ornada por seu belíssimo monumento central, e de onde avisto ao longe o suntuoso Palau Nacional de Montjuïc, e só então me dou conta que passa do meio dia e meia, muito embora o meu relógio, acertado no aeroporto de Lisboa, marque uma hora a menos.

Fotos-Barcelona-Dias 12-13.07.2008 060Monumento da Plaça Tetuan

Percebo o trânsito complicar-se, quando o motorista informa que já estamos na Gran Via, e então, após passar pela Plaça d’Universitat, colocando os óculos de grau, ansiosa, passo a checar a numeração dos prédios. Mais adiante, já avistando ao longe o monumento da Plaça Tetuan com seus Jardins del Doctor Robert, informo ao motorista que estamos próximos do meu destino, mas que o número 671 fica na pista oposta da avenida. Segundos depois, após fazer uma brusca conversão na esquina com a Carrer de Girona, aproveitando-se do sinal fechado, o taxista para o carro assim que entra no quarteirão, e fazendo ouvidos moucos ao meu aflito alerta de ainda não termos chegado ao prédio, ele salta para a rua, e abrindo o porta malas, retira rapidamente a minha pesada bagagem e a coloca no passeio público, para em seguida voltar ao carro e, de forma rude, cobrar-me a corrida, mostrando-se impaciente ante meu justificado protesto e pedido para que me deixe no lugar certo. Percebendo a inutilidade da ação, e preocupada com meus pertences largados no chão, pago logo os trinta euros, desço do carro, e só então constato, indignada, que ele me deixara a uns vinte metros da portaria do prédio.

076Gran Via de les Cort’s Catalanes, 671

Impossibilitada de levar a bagagem até lá, peço ajuda a um rapaz que se aproxima de mim caminhando em sentido oposto. Fazendo um muxoxo, mas sensível à situação em que me encontro, ele resolve ajudar-me e, dando meia-volta, puxa as duas malas pelas alças enquanto eu transporto bolsa, frasqueira, computador e travesseiro. Apressado, mal ouve meu sincero e sofrido muchas gracias ao retomar seu caminho. Recompondo-me emocionalmente, respiro fundo e pressiono o botão do interfone. Enfim, a salvo.

Referência:
BRITO, Leila. De Lisboa a Barcelona – “no meio do caminho tinha uma pedra”. Chá.com Letras, 31 jan. 2012. Disponível em: www.chacomletras.com.br . Acesso em: dia [1] mês [fev.] ano [2012].

Ilustração:
Fotos de Leila Brito – arquivo pessoal – jul. 2008.
Foto 1 – Vista de Barcelona do alto do Montjuïc.
Foto 2 – Monumento da Plaça d’Espanya tendo ao fundo o Palau Montjuïc.
Foto 3 – Monumento da Plaça Tetuan.
Foto 4 – Gran Via de les Cort’s Catalanes, 671.

Feliz Homem Novo (Raul Longo)

Postado em: 30-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Educação, Literatura, arte, fotografia

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FELIZ HOMEM NOVO

Que não seja mais
um ano
de tudo de novo
do mesmo velho Homem.

Que esse Homem
solitário e mesquinho,
voltado a si mesmo,
se faça farto e pleno
e não abandone ninguém
no caminho,
a esmo.

Que seja o ano do
Homem Sol,
alimento.

Que não seja o ano
de tudo de novo.
Do mesmo preconceito,
da mesma prepotência.

Um ano sem a sempre ausência
que envergonha a espécie
a cada lamento de criança
com fome.
A cada mulher
à qual não se respeita
nem o nome
nem a essência.

Para que não seja
apenas mais um velho
ano novo.

Que seja, enfim e de fato,
o ano do Homem Novo
e do enquanto
da noite de hoje,
desponte o encanto
do Sol
da eternidade do amanhã.

Feliz Homem Novo!

RAUL LONGO

Referência:
LONGO, Raul. Feliz homem novo. Chá.com Letras, 30 dez. 2011. Disponível em: www.chacomletras.com.br . Acesso em: dia (30) mês (dez.) ano (2011).

Ilustração:
Leonardo da Vinci. Estudio de las proporciones del cuerpo humano. 1490. Pluma, tinta y lapys metalizado sobre papel, 34,3 x 24,5 c. Gallerie Dell’Accademia, inv. nr. 228, Venecia. In: HOHENSTATT, Peter. Leonardo da Vinci: grandes maestros del arte italiano. Barcelona: Tandem Verlag GmbH, 2007.

Vídeo em Destaque – Presente Especial de Ano Novo

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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NORDESTE – O BRASIL BRASILEIRO

LEILA BRITO

“Gigante pela própria natureza”, o Brasil prima por excêntrica multiculturalidade e exótica diversidade étnica, que tem no Nordeste a sua mais pura expressão de brasilidade. Isto porque o povo nordestino é fruto da autêntica miscigenação dos três grupos étnicos formadores da raça brasileira: o indígena, o branco (a região possui a segunda maior população do país com influência genética de europeus não latinos, sobretudo saxões) e o negro. Mas como essa mistura de raças não aconteceu uniformemente, ela gerou três subtipos raciais: o caboclo – mestiço de branco com índio (Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e oeste e região central de Pernambuco), o mulato – mestiço de branco com negro (Bahia, Maranhão, Alagoas e leste de Pernambuco) e o cafuzo – mestiço de índio com negro (Maranhão). Tem-se, então, um conjunto genético de riqueza ímpar (WIKIPÉDIA, 2011).

Atrelada a essa diversidade étnica, a multiculturalidade nordestina, indiscutivelmente, é a grande responsável pela autenticidade da Música Brasileira, e vem contribuindo, ao longo do tempo, para o seu enriquecimento, através do trabalho de reconhecidos fenômenos da música mundial, como os músicos-violonistas-violeiros, compositores e cantadores Elomar Figueira Mello – baiano de Vitória da Conquista; Vital Farias – paraibano de Taperoá; Eugênio Avelino- Xangai – baiano de Itapebi; e Geraldo Azevedo – pernambucano de Petrolina.

O show Cantoria reuniu no palco do Teatro Castro Alves de Salvador, em 1984, esses quatro maiores violeiros e cantadores do Brasil, para a primeira gravação ao vivo com tecnologia digital em nosso país. Neste disco, os compositores revisitam suas parcerias, sucessos de suas carreiras solo e pérolas do cancioneiro popular nordestino. Em 1988, eles voltaram ao mesmo palco do Teatro Castro Alves e gravaram o Cantoria II. Reapresentado em várias capitais brasileiras, sendo que a última apresentação aconteceu na Virada Cultural de São Paulo, no dia 16 de maio de 2010, o Cantoria é considerado um marco na história da Música Popular Brasileira.

No espaço de vídeo, postei um áudio do CD Cantoria de 1988, na exótica voz de Vital Farias, que canta seu maravilhoso pout-pourri, composto de duas belíssimas canções: Era Casa, Era Jardim e Veja Você (Margarida), como um presente do Chá.com Letras a você, Caro(a) Leitor(a), com meus votos de Saúde, Paz, Alegrias e Realizações em 2012.

Na sequência, em quatro post’s, apresento cada um desses quatro grandes músicos, poetas e cantadores brasileiros, executando uma de suas mais impactantes composições musicais, em vídeos inclusos na própria matéria.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 25 DEZ 2011.

Referências:
WIKIPÉDIA. Disponível em: <<http://pt.wikipedia.org/wiki/Regi%C3%A3o_Nordeste_do_Brasil>

Referência deste ensaio:
BRITO, Leila. Direto do Nordeste: meu Brasil brasileiro. Chá.com Letras, 25 dez. 2011. Disponível em: www.chacomletras.com.br . Acesso em: dia (27) mês (jun.) ano (2011).

Ilustração:
Fotos do Show Cantoria – realizado no teatro Castro Alves, em Salvador-BA, em 1984. Disponíveis em: <http://www.fotolog.com.br/rogercrudo/44099754>   e  <http://esquizofia.wordpress.com/2011/03/20/historias-das-musicas-brasileiras-27/>.

Música do Nordeste (I)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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ELOMAR FIGUEIRA MELLO

De formação musical erudita, Elomar estudou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde também se formou em Arquitetura, na década de 1960. Depois que gravou seu primeiro disco …Das Barrancas do Rio Gavião, passou a dedicar-se mais à criação musical, fortemente marcada pela influência da tradição ibérico e árabe que a colonização portuguesa levou ao nordeste brasileiro. Boa parte dos textos musicais e obras de Elomar são escritos em linguagem dialetal sertaneza – título de linguagem atribuída por ele.

Com seu estilo típico de tocar violão, muitas vezes alterando a afinação do instrumento, Elomar criou fama entre o universo violeiro. Gravou em 1990 o festejado disco “Elomar em Concerto”, acompanhado pelo Quarteto Bessler-Reis. Avesso à exposição na mídia para divulgação do seu próprio trabalho, prefere a vida reclusa da fazenda, longe das grandes metrópoles, criando bodes como o que inspirou ao cartunista Henfil o personagem Francisco Orellana. Mesmo assim, algumas de suas composições ficaram relativamente famosas, como Clariô, O Violeiro, Arrumação e O Peão na Amarração.

Sobre a linguagem sernateza de Elomar, em 2003, a linguista e filóloga Darcilia Simões, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, atestava que “a variante sertânica presente em autores como [...] Elomar Figueira Mello (poesia-musical) [traz] uma contribuição lingüístico-cultural incomensurável”. Para a pesquisadora, muito embora “a obra elomariana não [tenha] sido ainda objeto de estudo vernacular, sua composição já [foi] estudada por historiadores, sociólogos e antropólogos. Todavia, talvez por desconhecimento da obra, os lingüistas ainda não se [pronunciaram] a respeito da produção do virtuoso compositor baiano”.

Juntando sua linguagem sertaneza ao seu inconfundível estilo musical de raro e criativo perfil medieval, em Arrumação, Elomar faz um protesto contra a exploração capitalista (o “ladrão” é o banco) do produtor de alimentos do Nordeste brasileiro.

ARRUMAÇÃO
[Elomar Figueira Mello]

Josefina sai cá fora e vem vê
Olha os fôrro ramiado vai chovê
Vai trimina ridusi toda a criação
Das banda de lá do rio Gavião
Chiquêra prá cá já ronca o truvão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó
Mãe Purdença inda num culheu o ái
O aí rôxo essa lavora tardã
Diligença pega panicum balai
Vai cum tua irmã, vai num pulo só
Vai culhê o ái, ái de tua avó
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó
Lua nova sussarana vai passá
“Sêda branca” na passada ela levô
ponta d’unha lua fina risca no céu
A onça prisunha a cara do réu
O pai di chiquêro a gata comeu
Foi um truvejo c’ua zagaia só
Foi tanto sangue de dá dó
Os ciganos já subiro bêra ri
É só danos todo ano nunca vi
Paciência já num guento a pirsiguição
Já só um caco véi nesse meu sertão
Tudo qui juntei foi só prá ladrão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó.

Elomar marca sua presença em palcos por todo o país, como menestrel, com orquestras, quintetos, quartetos e outras formações sinfônicas. Fez apresentações na Martinica e na Alemanha. Já recebeu diversos convites para apresentações na França, Inglaterra e Portugal, rejeitando a todos por considerar insignificantes as propostas e os cachês.

Sua vasta produção como compositor, além das canções mais conhecidas, inclui galopes estradeios, canções de alta influência regional, além de óperas e autos já registradas em partituras, ainda não gravadas.

Referências:
DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Elomar: Elomar Figueira Mello – 21/12/1937 – Vitória da Conquista-BA. Disponível em: < http://www.dicionariompb.com.br/elomar/dados-artisticos>. Acesso em: 25 dez. 2011.
MELLO. Elomar Figueira. Arrumação. Vídeo disponível em: < <http://video.google.com/videoplay?docid=-6078490764365792313> . Acesso em: 25 dez. 2011.
SIMÕES, Darcilia Marindir Pinto. Parcela da língua sertaneza
de Elomar Figueira de Melo
. Rio de Janeiro, 2003. Disponível em: < http://www.filologia.org.br/vicnlf/anais/parcela.html > . Acesso em: 25 dez. 2011.
WIKIPÉDIA. disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/elomar_figueira_mello>. acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
Foto do CD Poeta do Sertão. Disponível em: <http://www.ufmg.br/online/arquivos/020999.shtml>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Vídeo:
MELO, Elomar Figueira. Arrumação: Elomar ensaio. Disponível em: <http://video.google.com/videoplay?docid=-6078490764365792313>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Música do Nordeste (II)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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VITAL FARIAS

No dia 23 de janeiro de 1943, em Taperoá (PB), nascia Vital Farias, caçula de 14 irmãos. Foi alfabetizado pelas irmãs com a Literatura de Cordel. Aos 18 anos, motivado pela tradição musical familiar, começou a estudar violão sozinho. Nessa época, foi para João Pessoa para servir ao Exército. Participou de diversos conjuntos musicais, entre os quais Os Quatro Loucos, que apresentava imitações de músicas do conjunto de rock inglês The Beatles. Pouco depois,passou a dar aulas de violão e teoria musical no Conservatório de Música de João Pessoa. Em 1975, mudou-se para o Rio de Janeiro, e no ano seguinte foi aprovado no vestibular para a Faculdade de Música.

No Rio de Janeiro, passou a participar de shows e outros eventos artísticos, como a peça Gota d’água, de Chico Buarque de Hollanda (1976), atuando como músico. Sua primeira composição gravada, por Ari Toledo, foi Ê Mãe, composta em parceria com Livardo Alves. Em 1978, gravou o seu primeiro disco. Dois anos depois saía Taperoá, seu segundo disco. Em 1982, lançou o LP Sagas Brasileiras. Em 1984, lançou, pela Kuarup, o CD Cantoria I, com Elomar, Geraldo Azevedo e Xangai. Em 1985, lançou o LP Do Jeito Natural, uma coletânea com seus maiores sucessos. No mesmo ano, participou do álbum Cantoria II, com os mesmos músicos e amigos nordestinos. Depois disso, resolveu parar de gravar por um tempo, passando a se dedicar aos estudos. Suas composições destacam-se pelo humor e inventividade, onde se mesclam canções nordestinas, sambas de breque, modinhas, xaxados e outros ritmos.

Em 2002, produziu o disco de estreia de sua filha e cantora Giovanna, cujo repertório inclui quinze composições de sua autoria. O disco foi lançado pelo selo Discos Vital Farias. No mesmo ano, lançou o disco Vital Farias ao Vivo e aos Mortos Vivos. Recebeu, ainda no mesmo período, o título de Cidadão do Rio de Janeiro. Sua bela e triste composição musical Saga da Amazônia é um protesto contra a destruição desta floresta considerada o “pulmão do mundo”.

SAGA DA AMAZÔNIA
[Vital Farias]

Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta
mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
no fundo d’água as Iaras, caboclo lendas e mágoas
e os rios puxando as águas.

Papagaios, periquitos, cuidavam de suas cores
os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores
sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir
era: fauna, flora, frutos e flores.

Toda mata tem caipora para a mata vigiar
veio caipora de fora para a mata definhar
e trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira
e trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar
eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá.

O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
e o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar?
depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar
igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar.

Mas o dragão continua a floresta devorar
e quem habita essa mata, prá onde vai se mudar???
corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá
tartaruga: pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiura.

No lugar que havia mata, hoje há perseguição
grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé de Nana tá de prova, naquele lugar tem cova
gente enterrada no chão:

Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
roubou seu lugar.

Foi então que um violeiro chegando na região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração.

Aqui termina essa história para gente de valor
pra gente que tem memória, muita crença, muito amor
pra defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta
era uma vez uma floresta na Linha do Equador…

Referências:

MÚSICA POPULAR BRASILEIRA NET. Vital Farias. Disponível em:  <http://www.mpbnet.com.br/musicos/vital.farias/index.html>. Acesso em 25 dez. 2011.MÚSICA POPULAR BRASILEIRA NET. Saga da Amazônia. Disponível em: <http://www.mpbnet.com.br/musicos/vital.farias/letras/saga_da_amazonia.htm> Acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
Vital Farias e sua filha Olívia. Disponível em: <vitalfariascantador.blogspot.com>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Vídeo:
FARIAS, Vital. Saga da Amazônia. Gravado ao vivo em VHS pela TV Gaúcha em 1995 – Produção TVE-RS. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=8t0dTW_J968>. Acesso em 25 dez. 2011.

Música do Nordeste (III)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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Xangai
XANGAI

Xangai é considerado o melhor intérprete de Elomar, propiciando, inclusive, a facilitação do entendimento das composições deste compositor classificado, por muitos, como erudito. Em 1980, lançou o disco “Parceria Malunga”, pela extinta gravadora Marcus Pereira.

Por ser descendente direto do bandeirante  João Gonçalves da Costa, fundador do Arraial da Conquista, atualmente Vitória da Conquista, pensava-se que  Xangai tinha nascido naquela cidade, mas foi às margens do córrego do Judiá, afluente do Rio Jequitinhonha, na zona rural da pequena cidade de Itapebi, lá no extremo sul da Bahia, que veio ao mundo Eugênio Avelino, durante as águas de março de 1948. Filho e neto de sanfoneiros, ainda menino cruzou a fronteira do seu Estado e foi morar com seus pais, na cidade de Nanuque, no norte de Minas Gerais.

O apelido de Xangai adveio de uma sorveteria do seu pai em Nanuque, batizada com o nome da distante cidade asiática, originando daí o seu nome artístico. Ainda adolescente, foi morar em Vitória da Conquista, onde recebeu a influência de muitos cantadores.

Acontecivento, este  é o nome do seu primeiro disco, lançado em 1976. Esta Mata Serenou, Forró de Surubim e Asa Branca são músicas que se destacaram no disco. Em 1979, teve início a sua parceria com o multiartista campoformosense Augusto Jatobá. Dois anos depois, lançou o LP Qui Tú tem Canário pelo selo Kuarup. Em 1999, foi convidado para participar do disco de comemoração dos 100 anos do Esporte Clube Vitória, time do seu coração.

Seu último lançamento no mercado fonográfico foi Estampa Eucalol, em 2006. No dia 16 de março de 2007, participou de um show com Waldick Soriano, em Caitité, cidade natal do rei da música brega tupininquim.

“Xangai, um cantor, um artista, um menestrel, um dos maiores poucos gatos pingados e tresloucados sonhadores-de-mãos-sangrentas-contrapontas-afiadas inimigas. Remanescentes que teima guardar a moribunda alma desta terra. Que também vai se atropelando contra a multidão de astros constelados que fulgurantes espargem luz negra dos céus dos que buscam a luz. Lá vai ele recalcitrante e contumás cavaleiro, perdulário da bem querência que deixa a índole dissoluta de um pobre povo que habita o espaço rico de uma pátria que ainda não nasceu [...]” Casa dos Carneiros, minguante de maio de 1991 – Elomar Figueira de Melo.

O compositor apresenta, na Rádio Educadora da Bahia, há alguns anos, o programa Brasileirança, que muito tem contribuído para  divulgação da música nordestina.

Galope à Beira Mar Soletrado
[Xangai/ Ivanildo Vilanova]

No ma-ti-nal
a me-ren-da
re-co-men-da
ser só fru-gal
pas-ta den-tal
de es-co-var
de-ve la-var
com co-li-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Não dei-xe
o in-tes-ti-no
fi-car fi-no
que só fei-xe
co-ma pei-xe
no pa-la-dar
um ca-la-mar
es-ca-lo-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Um ex-em-plo
de gi-gan-te
ru-mi-nan-te
um ca-me-lo
pa-ta pe-lo
ru-di-men-tar
pa-ra ma-tar
se-re-le-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Es-car-la-te
tan-ge-ri-na
vi-ta-mi-na
no to-ma-te
a-ba-ca-te
ver-de po-mar
pa-ra cor-tar
tos-se gri-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Um re-gi-me
de ver-da-de
li-ber-da-de
é seu ti-me
é su-bli-me
ser po-pu-lar
par-la-men-tar
par-ti-ci-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Referências:
QUEIROZ, William Veras de. Eugênio Avelino: o menestrel dos sertões. Blog Sol Vermelho. Santo Antônio de Salgueiro-PE, 2010. Disponível em: <http://blogsolvermelho.blogspot.com/2010/09/eugenio-avelino-xangai-filho-e-neto-de.html >. Acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
Eugênio Avelino
: o menestrel dos sertões. Disponível em: < http://blogsolvermelho.blogspot.com/2010_09_01_archive.html>
Acesso em 25 dez. 2011.

Vídeo:
AVELINO, Eugênio; VILANOVA, Ivanildo. Galope à beira mar: DVD “Estampas Eucalol”. Disponível: <http://www.youtube.com/watch?v=XH6BO9O5aEM>. Acesso em 25 dez. 2011.

Música do Nordeste (IV)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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GERALDO AZEVEDO

Geraldo Azevedo (Petrolina, 11 de janeiro de 1945) é um compositor, cantor e violonista pernambucano. Autodidata, aos 12 anos de idade já tocava violão. Iniciou sua trajetória musical quando, aos 18 anos, mudou-se para Recife a fim de estudar. Lá conheceu Teca Calazans (cantora), Naná Vasconcelos (percussionista), Marcelo Melo e Toinho Alves, que faziam parte do grupo folclórico Construção, ao qual juntou-se.

Em 1967, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou com a cantora Eliana Pittman, e fundou o Quarteto Livre, que acompanhou o cantor Geraldo Vandré em diversas apresentações, até que, devido a problemas políticos com o Governo Militar, o grupo se dissolveu. Em 1968, a cantora Eliana Pittman gravou a sua composição Aquela Rosa.

No início da década de 1970, formou dupla com o também pernambucano Alceu Valença, em boa performance no Festival Universitário da TV Tupi. Participando com as composições 78 Rotações e Planetário, a dupla chamou a atenção da gravadora Copacabana. Assim, em 1972, Geraldo Azevedo é lançado no mercado fonográfico através do disco Alceu Valença & Geraldo Azevedo.

O compositor nordestino também é conhecido pelos seus incandescentes frevos (a dança de rua típica do carnaval pernambucano), sendo muitos dos seus shows encerrados de forma eletrizante, com as composições Tempo Tempero, Pega Fogo Coração, Tempo Folião etc. É esta mistura, aliada à sua impecável performance ao violão, que o tornou um dos mais conceituados músicos nordestinos.

Misturando harmonias sofisticadas da bossa nova com ritmos da música negra, alcançou seus maiores sucessos com Papagaio do Futuro (parceria com Alceu Valença), Caravana (tema da novela Gabriela), Juritis e Borboletas (tema da novela Saramandaia), Arraial dos Tucanos (da série Sítio do Picapau Amarelo), além de Barcarola do São Francisco (parceria com Carlos Fernando) e Canta Coração, gravada por Elba Ramalho. Em 1994, a Polygram lançou a coletânea de suas composições – Minha História.

Participou de alguns importantes projetos coletivos de discos como Asas da América I (1979) e Asas da América II (1980), Cantoria I (1984), Cantoria II (1988) e O Grande Encontro I (1996), e o Grande Encontro II (1997), além de fazer parte de várias coletâneas. Mesmo não estando na boca da mídia nem vendendo números astronômicos, Geraldo Azevedo firmou-se como um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira.

Bicho de Sete Cabeças
[Geraldo Azevedo]

Não dá pé não tem pé nem cabeça
não tem ninguém que mereça
não tem coração que esqueça
não tem jeito mesmo
não tem dó no peito
não tem nem talvez ter feito
que você me fez desapareça
cresça e desapareça.

Não tem dó no peito
não tem jeito
não tem coração que esqueça
não tem ninguém que mereça
não tem pé não tem cabeça
não dá pé não é direito
não foi nada, eu não fiz nada disso
e você fez um bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças.

(ambas estrofes ao mesmo tempo)

Não dá pé não tem pé nem cabeça
não tem coração que esqueça (não tem ninguém que mereça)
não tem jeito mesmo (não tem pé não tem cabeça)
não tem dó no peito (não dá pé não é direito)
não tem nem talvez ter feito (não foi nada)
que você me fez desapareça (eu não fiz nada disso e)
cresça e desapareça (você fez um)
bicho de sete cabeças,
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças.

Referências:

LETRAS.COM.BR. Biografia: Geraldo Azevedo. Disponível em: <http://www.letras.com.br/biografia/geraldo-azevedo>. Acesso em: 25 dez. 2011.
NORDESTE WEB. Biografia: Geraldo Azevedo. Disponível em:  <http://www.nordesteweb.com/geraldo/ger_biografia.htm>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
KNGINE MOVIES. Geraldo Azevedo. Disponível em: <www.movies.kngine.com>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Vídeo:
AZEVEDO, Geraldo. Bicho de sete cabeças: DVD “Uma Geral do Azevedo”. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=TgeF4V_NsbE>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Crônicas de Viagem (II)

Postado em: 09-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, fotografia

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De Belo Horizonte a Lisboa: no aeroporto sob esdrúxula escolta

LEILA BRITO

Sete horas da manhã e, repentinamente, o infinito azul do mar é invadido pela terra em estonteante aproximação da orla que circunda Lisboa, traçando as linhas do continente europeu até onde minha vista alcança, enquanto a paisagem cresce sob meus pés de águia em queda livre. Com seus alvos condomínios residenciais se destacando na paisagem urbana, rapidamente, a cidade me engole em repousante e suave aterrissagem.

O tom poético finda aqui, pois é substituído pelo desconforto que sinto ao caminhar na congestionada fila que segue pelo estreito corredor até o pequeno box que dá para a escada, carregando minha incômoda e pesada bagagem de mão que inclui trevesseiro, bolsa, frasqueira e notebook. Sensibilizado, o passageiro de trás oferece ajuda, carregando meu computador escada abaixo, até os últimos degraus onde ouço uma voz feminina, em brusco sotaque português, a chamar-me pelo nome em tom interrogativo: “Senhora Leila?” Ao levantar a cabeça, dou de cara com uma mulher morena aparentando trinta anos, esguia e carrancuda, acompanhada de duas raparigas e um mancebo, certamente colegas de trabalho, pois trajando o mesmo uniforme a la bandeirante e escoteiro.

Ainda sob o efeito estonteante da pressurização, antes que eu entenda o que está acontecendo, ela interroga-me abrupta e autoritária: “Onde está sua cadeira de rodas?” Atônita com a descabida pergunta, toco o solo português no imenso pátio de manobra, ainda sem entender a situação, quando um flash de memória leva-me de volta ao aeroporto de Confins e ao balcão da TAP, quando a gentil funcionária brasileira que fez meu chek-in, após destacar um funcionário da empresa para carregar a minha bagagem de mão até eu me acomodar no avião, avisa-me que irá se comunicar com a TAP em Lisboa, para dar-me a mesma atenção assim que eu lá desembarcasse, em razão da minha condição de deficiente físico.

“Ah!”, digo-lhe emergindo do insigth: “Então você é a funcionária da TAP que veio ajudar-me! Olha, eu não uso cadeira de rodas para me locomover, porque minha limitação física é parcial. Só preciso que você me ajude a carregar a minha pesada e volumosa bagagem de mão até o portão de embarque do voo das nove e quarenta e cinco para Barcelona”. Num tom de voz ainda mais agressivo, ela me pergunta: “A senhora pagou o valor dessa taxa especial na passagem?”. Ao que respondo: “Não! Porque, no Brasil, esse tipo de atenção dispensa pagamento, por se tratar de um direito garantido pela lei de proteção ao deficiente físico”. E ante o meu gesto de entregar-lhe meu notebook e minha frasqueira, para meu espanto, ela se afasta de mim como de um doente contagioso, dizendo-me, no seu agora agressivo sotaque português: “Somos funcionários do aeroporto e a lei nos proibe de tocar em bagagem de passageiro. A senhora é quem vai carregar sua bagagem. Nós apenas vamos acompanhá-la até o portão de embarque da sua conexão”.

Sem dar-me tempo para reagir, com autoridade de polícia, ela segue em direção ao ônibus à disposição dos passageiros do meu voo acompanhada dos outros três agentes aeroportuários. Enquanto isso, curvo-me para pegar a bagagem no chão, ando alguns passos e com extrema dificuldade subo no ônibus, onde me instalo de pé com a frasqueira entre as pernas, segurando-me na barra vertical disponível, que transformo em apoio para o corpo, já que os poucos bancos estão ocupados. Eu ainda não sabia, mas começava ali a minha via sacra pelo aeroporto de Lisboa.

Na primeira parada do ônibus, ao ver todos os passageiros descendo, sigo-os, perdendo de vista meus indesejáveis acompanhantes. Atordoada, adentro a segunda estação da via sacra, caminhando vergada sob o peso da bagagem e de dores lancinantes. Mais uns passos, e paro para identificar aquele lugar tumultuado por imensas filas formadas em frente a diminutos guichês. Percebo, então, que estou no temido setor de imigração. É tal o impacto do susto, que me esqueço dos tais acompanhantes. A espera é breve, pois ponho-me à frente, depois de solicitar e obter a ajuda do primeiro estrangeiro da primeira fila. Com a bagagem no chão e apoiada em minhas pernas, apresento o passaporte, o seguro-saúde, os cartões de crédito, a matrícula no curso na Universitat de Barcelona e, antes que eu termine, a funcionária solicita a reserva do hotel, ao que eu respondo com a entrega do comprovante de locação da habitación enviado pela minha afintrioa, e dispensa, por medida de segurança, a apresentação dos euros, mas depois de visualizar o maço de notas dentro da minha bolsa.

São breves instantes de absoluta concentração para transmitir confiabilidade e não perder nenhum documento até guardá-los dentro da bolsa junto com o passaporte carimbado. Vencido o grande desafio, considerando-se o conturbado momento vivido pelos brasileiros com o abuso de repatriamento no aeroporto de Madrid, sinto-me aliviada e feliz. Porém, basta eu ver meus quatro aviltosos acompanhantes aguardando-me perto da esteira do Raio X, para me angustiar. Lá estão eles firmes no propósito de impor-me a vexatória escolta. “O que as pessoas estão pensando? Que sou uma criminosa?” Pergunto-me enquanto retiro relógio, pulseira, anéis, brincos e o cinto de couro com metal e os coloco na bandeja, antes de ser irremediavelmente revistada pelos seguranças por causa das abotoaduras de metal fixadas no barrado das pernas de minha calça comprida. Experimento uma preocupante expectativa até sair do outro lado e pegar minha bagagem e objetos pessoais na esteira, e dar de cara com os quatro aeroportuários brincando de agentes federais portugueses.

Conformada, parto para a terceira estação da via sacra, com a agente-chefe seguindo altiva e silenciosa ao meu lado e seus três mudos subordinados ombreados atrás de mim. Ao senti-los firmes e insensíveis ao meu calvário pelo largo e interminável corredor que se abriu à nossa vista, percebo que minha revolta pela agressão moral em curso se transformara em indignação, pois minha vontade é parar, colocar a bagagem no chão, expulsá-los dali aos gritos, e seguir sozinha o percurso até o portão de embarque para Barcelona. Mas impedida pelo medo de ser repatriada por “desrespeito às leis aeroportuárias portuguesas”, por mais desumanas que sejam em relação às leis brasileiras, o máximo que faço é parar a cada dois minutos de caminhada, colocar a bagagem no chão, respirar fundo e fazer exercícios de alongamento dos braços, e deixá-los estacionados me aguardando feito bobos até curvar-me, erguer a bagagem com dificuldade e seguir cambaleante, pois minhas pernas protestam contra a insensibilidade daquelas covardes “autoridades”, incapazes, sequer, de ceder-me um carrinho de bagagem para aliviar meu sofrimento.

Ao longo desse extenso corredor, vivencio a quarta e quinta estação da via sacra até vizualizar a próxima e a mais cruel das provas: o suplício da escada rolante. E agora? Como subir na escada carregando a bagagem sem cair e machucar-me gravemente, por falta de apoio no corrimão? Enquanto me aproximo tropegamente, já no limite da resistência física, concluo ser impossível sobreviver ao suplício. É então que, determinada a me insurgir contra a autoridade dominante, paro em frente à escada e comunico-lhe minha decisão: “Se eu subir carregando minha bagagem sem me apoiar no corrimão, vou me desequilibrar, cair e me ferir nos degraus em movimento. Por isso, vocês terão que transportá-la até o final da escada”. Assaltada por milagroso lapso de raciocínio, mas mantendo-se impositiva no cumprimento da lei aeroportuária, a agente-chefe se dispõe a cuidar tão somente da frasqueira.

Confortada com o que pensei tratar-se de um parcial e tardio gesto de sensibilidade humana, deixo a frasqueira no chão e adentro a escada rolante segurando o notebook e o travesseiro com a mão esquerda, e mantendo a bolsa pendente no ombro, com a mão direita me apoio no corrimão. Quando olho para trás, assisto a uma cena inacreditavelmente estapafúrdia. Vejo a agente-chefe pegar a alça da minha frasqueira com as pontinhas dos dedos de uma só mão, como se ela estivesse suja de fezes, e praticamente jogá-la no primeiro degrau da escada, e subir logo atrás, de mãos vazias, seguida por seus pares. Quando saio da escada e olho para trás, novamente a vejo pegar na alça da minha frasqueira com as mesmas pontinhas de dedo, e lançá-la ao chão, para eu me abaixar e pegá-la com a mão direita que acabara de deixar o corrimão.

Atônita com tamanha estupidez e maldade, sentindo dores lancinantes, caminho para a sétima e última estação daquela via sacra “portuguesa com certeza”, enquanto minha indignação alcança o limite máximo da intolerância à agressão física e moral sofrida. Mal consigo conter-me até cruzar a linha de chegada do portão de embarque do voo para Barcelona, quando a agente-chefe, num gesto de hipócrita sensibilidade, indica-me a direção dos bancos para eu sentar e, enfim, descansar. Contendo a ira que me corrói por dentro, lanço-lhe um olhar enfurecido, e me dirijo ao balcão onde ponho minha bagagem e me apoio, pois mantendo-me de pé, dou as costas para os quatro, a quem não mais desejo ver nem mesmo pelas costas.

Enquanto aguardo a conexão, concluo que acabo de adentrar o terceiro mundo, e preparo-me para mais provações.


Referência:

BRITO, Leila. De Belo Horizonte a Lisboa – no aeroporto sob esdrúxula escolta. Chá.com Letras, 8 dez. 2011. Disponível em: www.chacomletras.com.br . Acesso em: dia (8) mês (dez.) ano (2011).

Ilustração:
Foto/vídeo do Comandante António Escarduça da TAP, vindo do Rio de Janeiro.
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=eQgH1GvS6Eg>

A um menino inesquecível

Postado em: 26-10-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Memória, fotografia

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VEM CÁ-BRITINHO!!!

LEILA BRITO

Vermelho de raiva, espumando pelos cantos da boca, os olhos saltando das órbitas, o menino grita um insulto para outro, numa tentativa de golpe mortal para a pendenga principiada na sala de aula. E a turma dele, solidária, faz coro entoando o refrão ofensivo: Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! O som estridente das vozes desce pela rampa lateral do grupo escolar e ganha a rua, explodindo triunfante!

Mas Britinho não dá o braço a torcer. Acostumado ao insulto, sai correndo, saltando feito um cabrito por cima do próprio orgulho. Para o cacófato, que soberbamente ele sabe denominar, não há resposta que faça frente. Nem mesmo “macarrão-da-santa-casa”, um insulto tão temido pelos garotos branquelos como seu contendor, faria o efeito desejado. Melhor mesmo, é fingir que não está ouvindo, e dar o troco numa hora em que o inimigo estiver vivendo um momento menos glorioso.

Chegando em casa, conta a história para a mãe, fazendo-se de vítima. Ele não fizera nada de mal para o colega insultá-lo daquele jeito. Uma tremenda injustiça! E tanto se defende que passa a acreditar na própria mentira. Horas depois, junto com o primo Edilson e o irmão Humberto, trama uma vingança à altura do insulto. Assunto resolvido e os três caem no rio num mergulho perto do “redimunho” que fica próximo à outra margem. Tudo escondido da mãe e do pai, claro. Nadando de braçadas, eles voltam para a margem do quintal da casa do primo, e com a água na altura da cintura, passam à pesca de saco. Os peixes que caírem na rede improvisada, vão fritar e saborear, depois de cortá-los ao meio, de fora a fora, e de retirar os miúdos, que nem tinham  aprendido na aula de Ciências.

Quando voltam pra casa, depois de horas de desaparecimento, ele tem na ponta da língua outra história pra contar: “É que fomos buscar lenha no mato com o Edilson, lá pra cima do hospital. A mãe dele pediu pra gente! Pergunta pro Edilson! Pode perguntar pra “cumadre” também! Olha como a gente tá cheio de carrapato!” Dizendo isto, sai de fininho pra não dar chance de outras perguntas que possam complicar a situação. E como ele já havia sofrido uma dura humilhação naquele dia, a mãe está por demais sensibilizada para ter coragem de castigá-lo.

No dia seguinte, depois da vingança, outra confusão na saída da escola e, de novo, o coral de vozes estridentes: Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! Só que desta vez, cheio de moral, ele devolve o insulto com aquelas “bananas” que tão bem sabe dar, e sai correndo em disparada, dando pulos e gritos, orgulhoso de si mesmo. É… O inimigo tem direito de reagir, depois de ganhar tantos cascudos e pontapés. E o coro da garotada soa como um hino de louvor à sua fama de menino esperto e valente.

Um menino tão forte, mas tão forte, que não morre nunca. Ele permanece vivo no enredo de suas incríveis histórias de sustos de assombração, fugas pro açude, nadanças no Rio das Velhas, mentiras fabulosas, castigos drásticos e surras homéricas, disputas de bolas de gude, peladas de rua, pesca de saco, caça a passarinho, namoricos de quintal, aventuras ao volante do caminhão da Samsa… E por mais que o tempo corra, por mais que a vida passe, por mais que o corpo cresça e desapareça, ele sobrevive triunfante no grito da garotada que ecoa solto pelas memórias das ruas de Rio Acima: Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!!

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Ah… Rio Acima!
Terra de minhas travessuras.
Nadanças no límpido rio

e brincadeiras nas ruas.
Quisera que fossem tuas

as ondas dos meus delírios.

Ah… Rio Acima!
Recordo belos momentos

em tuas ruas passeando.
Meu coração, em pensamento
,
com teu coração conversando.

(Poema de Higesipo Brito Júnior – “Britinho” – Junho/89)

Referência:
BRITO, Leila. Vem-Cá Britinho. Folha de Nova Lima, jun. 1999, Caderno Cultura, p. 5.

Ilustração:
Britinho aos 3 anos – 1947 – Foto de família.