Chá.com Letras Rss

Mulher, mujer, femme, donna, woman, frau, γοργόνα…

Postado em: 05-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Sem categoria

2

Afrodite
mulher  vrouw  إمرأة [مرميد]
mujer  女性の  sereia
femme 妇女 mermaid
woman  женщина 美人鱼
frau  婦女  γοργόνα sirena
γυναίκα fraunixe  美人魚
donna  여자 인어  sirène
na água mesma do mar
atlântico índico pacífico
negro vermelho morto
báltico mediterrâneo
libertas quæ sera tamen.

LEILA BRITO

Ilustração:
Afrodite
Pintura de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
BRITO, Leila. Mulher Sereia. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2007.

Vídeo da Semana

Postado em: 05-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Sem categoria

2

yoko1
O Chá.com Letras, rendendo uma homenagem especial à MULHER, pelo  seu dia, disponibiliza, no seu espaço de vídeo  (barra fixa à direita), a bela canção WOMAN, do incomparável John Lennon.

WOMAN
MULHER
John Lennon

Mulher, eu quase não consigo expressar
Minhas emoções confusas na minha negligência.
Afinal de contas, estou eternamente em dívida com você.
E, mulher, eu tentarei expressar
Meus sentimentos interiores e gratidão
Por me mostrar o significado do sucesso.

Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo.
Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo.

Mulher, eu sei que você compreende
A criancinha dentro do homem.
Por favor, lembre-se: minha vida está em suas mãos.
E, mulher, mantenha-me próximo do seu coração
Por mais que [estejamos] distantes,
não nos mantenha separados.
Afinal de contas, está escrito nas estrelas…

Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo.
Ooh, bem, bem,
Doo, doo, doo, doo, doo,
Bem…

Mulher, por favor deixe-me explicar:
Eu nunca tive intenção de te causar tristeza ou dor.
Então, deixe-me te dizer de novo e de novo e de novo:

Eu te amo, sim, sim,
Agora e eternamente.
Eu te amo, sim, sim,
Agora e eternamente.
Eu te amo, sim, sim,
Agora e eternamente.
Eu te amo, sim, sim…

Salve 8 de Março de 2010!

Ilustração:
John Lennon e Yoko Ono – Amsterdam Hilton (1969)
Foto de autor desconhecido desta escritora.

Prisioneiros

Postado em: 02-03-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Sem categoria

4

Liberdade

A liberdade se perdeu
dos sentimentos
transviou-se.

Busca-se, em vão,
libertá-la do emaranhado de teias
onde se prendeu.

A liberdade se perdeu.
Agarrou-se às amarras do dever,
sujeitou-se às imposições do poder.

Prendeu-se
na busca incauta do bom senso,
não se divisa mais o seu calor intenso.

Desprendeu-se
no abismo da mentira movediça
cúmplice da traição à própria verdade.

Procura-se a liberdade.

LEILA BRITO

Ilustração:
Liberdade

Foto de autor desconhecido desta escritora.

Referência:
BRITO, Leila. Prisioneiros. In: BRITO, Ângela et. al. O princípio é o verso. Belo Horizonte: O Lutador, 1989. p. 25.

Vídeo da Semana

Postado em: 24-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Música, Vídeos

2

RenatoRusso-10_mvg_bruce1
Fazendo um link com o poema-homenagem a mim ofertado pelo poeta Moacir Oliveira, disponibilizo, no espaço de vídeo (à direita) deste blog, uma das mais interessantes canções do Renato Russo – o rock-balada Leila, tema de abertura do meu show Leila – do Rock ao Samba, realizado em 1998, no Teatro da Praça, em Belo Horizonte-MG.

O mais incrível dessa canção é que a personagem criada (ou retratada) pelo grande compositor, coincidentemente, tem tudo a ver comigo (tirando o “unzinho”…rsrs) na época. Muito interessante essa identidade descritiva da Leila do Renato Russo com a minha pessoa. Por isso a escolhi como tema deste meu inesquecível show, quando subi ao palco acompanhada do meu pai  Higesipo Brito (então com 81 anos – saudade de você, pai!) – músico-saxofonista, maestro e compositor; do meu filho – músico-baterista – Arthur Rezende (então com 17 anos); do meu irmão Eugênio Britto – músico-violonista, compositor e cantor; e do meu sobrinho Kadu Vianna (então com 18 anos) – cantor, compositor e músico-violonista/guitarrista/pianista.

E estendendo a homenagem do Moacir a esta poeta, reverencio o saudoso cantor e compositor que, com sua Legião Urbana, revolucionou a juventude brasileira dos Anos 1990 (né mesmo Gustavo Brito?) com seus conceitos político-sociais cantados em versos e prosas poéticas.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 24 FEV 2010.

Ilustração:
Renato Russo
Foto de autoria desconhecida desta escritora.

Poema para Leila

Postado em: 24-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

3

Leila-4
Hoje a vi cosendo versos alinhavando palavras
Hoje a surpreendi vasculhando dicionários
inventando frases filtrando rimas
Hoje a encontrei de bem com canetas e papéis
desenhando estrofes
Hoje ela estava demais exalando essências
Hoje a vi toda prosa juntando mel e rosa
cheia de vida rezando cores na escrivaninha
Hoje o quarto de livros está menos pálido menos mofo
Hoje acho que o dia vai custar a partir
vai vagarando tarde afora
Hoje é daqueles dias grávidos de poesia

MOACIR OLIVEIRA
www.moampb.blogspot.com


Ilustração:

Leila Brito clicada por  Nino Andrés
Show Leila – do Rock ao Samba
Teatro da Praça – Belo Horizonte-MG – 14 MAI 1998.

Referência:
OLIVEIRA, Moacir. Poema para Leila. São Paulo, 19 DEZ 2009.

Um conto de Kafka

Postado em: 04-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Política

6

franz_kafka-09mnk

DIANTE DA LEI
Franz Kafka

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde.

— É possível – diz o guarda. — Mas não agora!

O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz:

— Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim.

O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar. O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo, mas diz sempre:

— Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste.

Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei.

Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das
peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão,
um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima. Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo.

— Que queres tu saber ainda?, pergunta o guarda. — És insaciável.

Se todos aspiram a Lei, disse o homem. — Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar.

O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte.

— Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a.


Ilustração:

Autor desconhecido desta escritora.

Referência:
KAFKA, Franz. Contos. Disponível em: <http://www.e-text.org/text/Kafka,%20Franz%20-%20contos.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2010.

Vídeo da Semana

Postado em: 04-02-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Vídeos

1

kafka

Meu escritor preferido em língua estrangeira, Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 – Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um dos maiores literatos de ficção da língua alemã do século XX. A escrita de Kafka é marcada pelo seu tom despegado, imparcial, atenciosa ao menor detalhe, abrangendo os temas da alienação e perseguição, o que pode ser visto nas pequenas histórias A Metamorfose, Um artista da fome, nos romances O Processo, América e O Castelo. Destaque, também, para os contos Muralha da China e Blumfeld, um solteirão de meia-idade.

No mundo kafkiano, os personagens não sabem que rumo podem tomar, não sabem dos objetivos da sua vida, questionam seriamente a existência e acabam sós, diante de uma situação que não planejaram, pois todos os acontecimentos se viraram contra eles, não lhes oferecendo a oportunidade de se aproveitar da situação e, muitas vezes, nem mesmo de sair desta. Por isso, a temática da solidão como fuga, a paranóia e os delírios de influência estão muito ligados à obra kafkiana, sendo comum a existência de personagens secundários que espiam, e conspiram contra o protagonista das histórias de Kafka (geralmente homens, à exceção de alguns contos onde aparecem animais e raros onde a personagem principal é uma mulher). No fundo, estes protagonistas não são mais que projeções do próprio Kafka, onde ele expõe os seus medos, a sua angústia perante o mundo, a sua solidão interior.

Considerada sua obra de maior expressão, O Processo (Der Prozess) conta a história de Josef K, personagem que acorda certa manhã e, sem motivos sabidos, é preso e sujeito a longo e incompreensível processo por um crime que ignora, ou seja,  ele desconhece a acusação.

Segundo Max Brod, amigo pessoal de Kafka, e a quem o escritor entregou, em 1920, todos os seus escritos com a ordem de que os destruisse, o romance permaneceu inacabado. Contrariando o pedido do amigo, após sua morte, Brod editou O Processo por julgá-lo uma obra coerente, publicando-o em 1925.

Em homenagem a Franz Kafka, o Chá.com Letras disponibiliza, no espaço de vídeo, a primeira (1/13) das treze partes de mais uma grandiosa obra do lendário diretor Orson Welles: The Trial (Le Procès),  filmado em 1962 (versionado para o espanhol): http://www.youtube.com/watch?v=CKdXn_wXFqM&feature=player_embedded
As outras podem ser encontradas, em sequência, no Youtube – endereços abaixo:

2/13 – http://www.youtube.com/watch?v=qn3Icnd7oEY&feature=related
3/13 – http://www.youtube.com/watch?v=0GNAEXVKzyE&feature=related
4/13 – http://www.youtube.com/watch?v=0GNAEXVKzyE&feature=related
5/13 – http://www.youtube.com/watch?v=Rkmf6jxVwW4&feature=related
6/13 – http://www.youtube.com/watch?v=ZnwuY8WgC3M&feature=related
7/13 – http://www.youtube.com/watch?v=e47gdjDsNMc&feature=related
8/13- http://www.youtube.com/watch?v=f9q8RHxTN7w&feature=related
9/13- http://www.youtube.com/watch?v=QWREVg7cmOY&feature=related
10/13- http://www.youtube.com/watch?v=agEoUh5jH-A&feature=related
11/14- http://www.youtube.com/watch?v=PSeQ4aX4fxc&feature=related
12/13- http://www.youtube.com/watch?v=HUO-SCg1-xk&feature=related
13/13- http://www.youtube.com/watch?v=JtwzBiXxDbg&feature=related

Entrevistado pela BBC em 1962, Orson Welles afirmou que o período mais feliz de sua vida havia sido durante as filmagens de The Trial (Le Procès). Após cinco anos sem filmar, a produção cara, sem restrições e sem fins lucrativos, foi um presente para ele. O diretor pôde contar com atuações de Anthony Perkins (no papel de Josef K), Jeanne Moreau e Romy Shneider. Apesar de todos os críticos indicarem seu filme Cidadão Kane como obra-prima do cinema, Orson Welles não teve dúvida em apontar The Trial como filme predileto.

A versão de Orson Welles de O Processo procurou ser fiel a Kafka. O argumento é, sem dúvida nenhuma, Kafkiano. Algumas mudanças são fruto da interpretação pessoal do diretor e da adaptação da história de 1914 aos anos sessenta.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 4 FEV 2009.

Ilustração:
Fotografia de Franz Kafka feita em 1917.

Referências:

KAFKA, Franz. O processo. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 280 p.
O Processo (The Trial – Le Procès) 1962. Disponível em: <http://www.processocriminalpslf.com.br/o_processo.htm>. Acesso em: 4 fev. 2010.
WIKIPÉDIA. Franz Kafka. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Kafka>. Acesso em: 4 fev. 2010.

Frida e as hostes do sonho

Postado em: 28-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

4

Angustiantemente - frida_kahlo_without_hope

“O mistério coabita os pesadelos; a perícia é dos sonhos”.
CARLOS NEJAR

Porque a ânsia disritma o compasso de qualquer tempo e o distanciamento explode a imobilidade de qualquer espera, interstícios abissais se abrem na soleira dos sentidos suicidando, momentaneamente, o desejo. Inerte, ela vê, no vácuo do assombro, o presente capturado pelo desmaio da certeza, o passado em rédeas soltas pelo desafio da dúvida, os pés tateando o breu do futuro e o instante engasgado num soluço impotente.

O abalo do  inesperado trepida o chão, e o céu de Frida, sucumbindo sob escombros, apaga as estrelas esquecidas de dormir na madrugada insone do ansiado encontro. Resta socorrer-se em palavras ditadas pela aflição aguda do desencanto que apunhala o desnorteamento dos sentidos no vão do susto. Tenta neutralizar a dor com emplasto de uma sabedoria tão desiludida, que mais faz doer que aplacar o sofrimento.

Se tem algo que Frida conhece bem, é o verso e o reverso do medo da perda. Por isso, sabe que independente do lado para o qual se incline, o perigo oculto na dor é o mesmo: se para o lado da dúvida, fica refém da esperança; se para o lado da certeza, fica refém da ilusão. O que lhe resta senão dar crédito à ilusão, mesmo sabendo do risco de um suicídio definitivo do desejo?

É quando a ânsia dá lugar ao medo e seu coração palpita o descompasso de um desalento tão desesperador que  a ilusão é tragada pelo incômodo silêncio da voz dele no seu ouvido, desligada abruptamente da vital energia amorosa. E então, Frida sente o calor do sonho sendo congelado pelo frio de uma agoniada espera surda, muda, cega e paralítica.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 27 JAN 2010.

Ilustração:
Frida Kahlo -  Sin esperanza – 1945
Colleción Museo Dollores Olmedo Patiño – Ciudad del Mexico

Referência:
BRITO, Leila. Frida e as hostes do sonho. Chá.com Letras. Belo Horizonte, 27 jan. 2010. Disponível em: <www.chacomletras.com.br>. Acesso em: dia, mês, ano (ex. 28 jan. 2010).

Vídeo da Semana

Postado em: 16-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Vídeos

3

harold

HAROLD AND MAUDE

Desta feita, o espaço de vídeo do Chá.com Letras estreia no cinema, com o trailer do apaixonante filme Harold and Maude (Ensina-me a Viver), que retrata o relacionamento amoroso entre Harold – um jovem de 20 anos com obsessão pela morte (ele passa a maior parte de seu tempo indo a funerais e simulando suicídios) e uma senhora de 79 anos encantada com a vida.

A razão da indicação é a inteligente e sensível abordagem do contraponto: o culto da morte por um velho jovem e o culto da vida por uma jovem velha que, num relacionamento regado a deliciosas e inusitadas loucuras, são flechados por Eros. Essa paixão entre gerações tão antagônicas em vivência existencial é um dos amores mais lindos de que tenho notícia, superando, a meu ver, a paixão de Romeu e Julieta. É simplesmente maravilhoso!

Direção: Hal Ashby
Roteiro: Collin Higgins
Elenco: Ruth Gordon (Maude) e Bud Cort (Harold Chasen)

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 16 jan. 2009.

Sinfonia em dor maior

Postado em: 16-01-2010 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura

4

Mulhernaspedras
e tudo o que era
na espera doce de se fazer em flor
deixou de ser
no desencontro de se querer o amor
no corte frio da navalha em fio
cortando fundo a cicatriz em dor
expondo a carne à solidão sofrida
de se perder no seio da ferida
aberta ao sofrimento em cor
de sangue rubro escorrendo tinto
nos veios da pele em pálido fulgor
de brilho opaco bêbado de luz
se resvalando pelos vãos do corpo nu
de braços se abrindo em cruz
na entrega cálida do prazer a sós
porque nós dois de nós nos perdemos
juntos no separado espaço da loucura insana
de esquecer o amor em nós se contorcendo
em espasmos lúbricos de vil coreografia
sórdida no seu bailar sozinha
a dança errante do prazer em agonia
perpetuando a solidão a sós de nós
dois nos separando em dois amores
que antes de ser dividido em dor
foi um inteiro feliz de um só desejo
se reunindo num espiralar de pétalas
à espera doce de se abrir em flor.

LEILA BRITO

Ilustração:
Foto de autor desconhecido desta poeta.

Referência:
BRITO, Leila. E tudo o que era. Launim. Belo Horizonte: LetraporLetra, 2010. No prelo.