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Feliz Homem Novo (Raul Longo)

Postado em: 30-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Educação, Literatura, arte, fotografia

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FELIZ HOMEM NOVO

Que não seja mais
um ano
de tudo de novo
do mesmo velho Homem.

Que esse Homem
solitário e mesquinho,
voltado a si mesmo,
se faça farto e pleno
e não abandone ninguém
no caminho,
a esmo.

Que seja o ano do
Homem Sol,
alimento.

Que não seja o ano
de tudo de novo.
Do mesmo preconceito,
da mesma prepotência.

Um ano sem a sempre ausência
que envergonha a espécie
a cada lamento de criança
com fome.
A cada mulher
à qual não se respeita
nem o nome
nem a essência.

Para que não seja
apenas mais um velho
ano novo.

Que seja, enfim e de fato,
o ano do Homem Novo
e do enquanto
da noite de hoje,
desponte o encanto
do Sol
da eternidade do amanhã.

Feliz Homem Novo!

RAUL LONGO

Referência:
LONGO, Raul. Feliz homem novo. Chá.com Letras, 30 dez. 2011. Disponível em: www.chacomletras.com.br . Acesso em: dia (30) mês (dez.) ano (2011).

Ilustração:
Leonardo da Vinci. Estudio de las proporciones del cuerpo humano. 1490. Pluma, tinta y lapys metalizado sobre papel, 34,3 x 24,5 c. Gallerie Dell’Accademia, inv. nr. 228, Venecia. In: HOHENSTATT, Peter. Leonardo da Vinci: grandes maestros del arte italiano. Barcelona: Tandem Verlag GmbH, 2007.

Vídeo em Destaque – Presente Especial de Ano Novo

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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NORDESTE – O BRASIL BRASILEIRO

LEILA BRITO

“Gigante pela própria natureza”, o Brasil prima por excêntrica multiculturalidade e exótica diversidade étnica, que tem no Nordeste a sua mais pura expressão de brasilidade. Isto porque o povo nordestino é fruto da autêntica miscigenação dos três grupos étnicos formadores da raça brasileira: o indígena, o branco (a região possui a segunda maior população do país com influência genética de europeus não latinos, sobretudo saxões) e o negro. Mas como essa mistura de raças não aconteceu uniformemente, ela gerou três subtipos raciais: o caboclo – mestiço de branco com índio (Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e oeste e região central de Pernambuco), o mulato – mestiço de branco com negro (Bahia, Maranhão, Alagoas e leste de Pernambuco) e o cafuzo – mestiço de índio com negro (Maranhão). Tem-se, então, um conjunto genético de riqueza ímpar (WIKIPÉDIA, 2011).

Atrelada a essa diversidade étnica, a multiculturalidade nordestina, indiscutivelmente, é a grande responsável pela autenticidade da Música Brasileira, e vem contribuindo, ao longo do tempo, para o seu enriquecimento, através do trabalho de reconhecidos fenômenos da música mundial, como os músicos-violonistas-violeiros, compositores e cantadores Elomar Figueira Mello – baiano de Vitória da Conquista; Vital Farias – paraibano de Taperoá; Eugênio Avelino- Xangai – baiano de Itapebi; e Geraldo Azevedo – pernambucano de Petrolina.

O show Cantoria reuniu no palco do Teatro Castro Alves de Salvador, em 1984, esses quatro maiores violeiros e cantadores do Brasil, para a primeira gravação ao vivo com tecnologia digital em nosso país. Neste disco, os compositores revisitam suas parcerias, sucessos de suas carreiras solo e pérolas do cancioneiro popular nordestino. Em 1988, eles voltaram ao mesmo palco do Teatro Castro Alves e gravaram o Cantoria II. Reapresentado em várias capitais brasileiras, sendo que a última apresentação aconteceu na Virada Cultural de São Paulo, no dia 16 de maio de 2010, o Cantoria é considerado um marco na história da Música Popular Brasileira.

No espaço de vídeo, postei um áudio do CD Cantoria de 1988, na exótica voz de Vital Farias, que canta seu maravilhoso pout-pourri, composto de duas belíssimas canções: Era Casa, Era Jardim e Veja Você (Margarida), como um presente do Chá.com Letras a você, Caro(a) Leitor(a), com meus votos de Saúde, Paz, Alegrias e Realizações em 2012.

Na sequência, em quatro post’s, apresento cada um desses quatro grandes músicos, poetas e cantadores brasileiros, executando uma de suas mais impactantes composições musicais, em vídeos inclusos na própria matéria.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 25 DEZ 2011.

Referências:
WIKIPÉDIA. Disponível em: <<http://pt.wikipedia.org/wiki/Regi%C3%A3o_Nordeste_do_Brasil>

Referência deste ensaio:
BRITO, Leila. Direto do Nordeste: meu Brasil brasileiro. Chá.com Letras, 25 dez. 2011. Disponível em: www.chacomletras.com.br . Acesso em: dia (27) mês (jun.) ano (2011).

Ilustração:
Fotos do Show Cantoria – realizado no teatro Castro Alves, em Salvador-BA, em 1984. Disponíveis em: <http://www.fotolog.com.br/rogercrudo/44099754>   e  <http://esquizofia.wordpress.com/2011/03/20/historias-das-musicas-brasileiras-27/>.

Música do Nordeste (I)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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ELOMAR FIGUEIRA MELLO

De formação musical erudita, Elomar estudou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde também se formou em Arquitetura, na década de 1960. Depois que gravou seu primeiro disco …Das Barrancas do Rio Gavião, passou a dedicar-se mais à criação musical, fortemente marcada pela influência da tradição ibérico e árabe que a colonização portuguesa levou ao nordeste brasileiro. Boa parte dos textos musicais e obras de Elomar são escritos em linguagem dialetal sertaneza – título de linguagem atribuída por ele.

Com seu estilo típico de tocar violão, muitas vezes alterando a afinação do instrumento, Elomar criou fama entre o universo violeiro. Gravou em 1990 o festejado disco “Elomar em Concerto”, acompanhado pelo Quarteto Bessler-Reis. Avesso à exposição na mídia para divulgação do seu próprio trabalho, prefere a vida reclusa da fazenda, longe das grandes metrópoles, criando bodes como o que inspirou ao cartunista Henfil o personagem Francisco Orellana. Mesmo assim, algumas de suas composições ficaram relativamente famosas, como Clariô, O Violeiro, Arrumação e O Peão na Amarração.

Sobre a linguagem sernateza de Elomar, em 2003, a linguista e filóloga Darcilia Simões, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, atestava que “a variante sertânica presente em autores como [...] Elomar Figueira Mello (poesia-musical) [traz] uma contribuição lingüístico-cultural incomensurável”. Para a pesquisadora, muito embora “a obra elomariana não [tenha] sido ainda objeto de estudo vernacular, sua composição já [foi] estudada por historiadores, sociólogos e antropólogos. Todavia, talvez por desconhecimento da obra, os lingüistas ainda não se [pronunciaram] a respeito da produção do virtuoso compositor baiano”.

Juntando sua linguagem sertaneza ao seu inconfundível estilo musical de raro e criativo perfil medieval, em Arrumação, Elomar faz um protesto contra a exploração capitalista (o “ladrão” é o banco) do produtor de alimentos do Nordeste brasileiro.

ARRUMAÇÃO
[Elomar Figueira Mello]

Josefina sai cá fora e vem vê
Olha os fôrro ramiado vai chovê
Vai trimina ridusi toda a criação
Das banda de lá do rio Gavião
Chiquêra prá cá já ronca o truvão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó
Mãe Purdença inda num culheu o ái
O aí rôxo essa lavora tardã
Diligença pega panicum balai
Vai cum tua irmã, vai num pulo só
Vai culhê o ái, ái de tua avó
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó
Lua nova sussarana vai passá
“Sêda branca” na passada ela levô
ponta d’unha lua fina risca no céu
A onça prisunha a cara do réu
O pai di chiquêro a gata comeu
Foi um truvejo c’ua zagaia só
Foi tanto sangue de dá dó
Os ciganos já subiro bêra ri
É só danos todo ano nunca vi
Paciência já num guento a pirsiguição
Já só um caco véi nesse meu sertão
Tudo qui juntei foi só prá ladrão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó.

Elomar marca sua presença em palcos por todo o país, como menestrel, com orquestras, quintetos, quartetos e outras formações sinfônicas. Fez apresentações na Martinica e na Alemanha. Já recebeu diversos convites para apresentações na França, Inglaterra e Portugal, rejeitando a todos por considerar insignificantes as propostas e os cachês.

Sua vasta produção como compositor, além das canções mais conhecidas, inclui galopes estradeios, canções de alta influência regional, além de óperas e autos já registradas em partituras, ainda não gravadas.

Referências:
DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Elomar: Elomar Figueira Mello – 21/12/1937 – Vitória da Conquista-BA. Disponível em: < http://www.dicionariompb.com.br/elomar/dados-artisticos>. Acesso em: 25 dez. 2011.
MELLO. Elomar Figueira. Arrumação. Vídeo disponível em: < <http://video.google.com/videoplay?docid=-6078490764365792313> . Acesso em: 25 dez. 2011.
SIMÕES, Darcilia Marindir Pinto. Parcela da língua sertaneza
de Elomar Figueira de Melo
. Rio de Janeiro, 2003. Disponível em: < http://www.filologia.org.br/vicnlf/anais/parcela.html > . Acesso em: 25 dez. 2011.
WIKIPÉDIA. disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/elomar_figueira_mello>. acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
Foto do CD Poeta do Sertão. Disponível em: <http://www.ufmg.br/online/arquivos/020999.shtml>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Vídeo:
MELO, Elomar Figueira. Arrumação: Elomar ensaio. Disponível em: <http://video.google.com/videoplay?docid=-6078490764365792313>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Música do Nordeste (II)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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VITAL FARIAS

No dia 23 de janeiro de 1943, em Taperoá (PB), nascia Vital Farias, caçula de 14 irmãos. Foi alfabetizado pelas irmãs com a Literatura de Cordel. Aos 18 anos, motivado pela tradição musical familiar, começou a estudar violão sozinho. Nessa época, foi para João Pessoa para servir ao Exército. Participou de diversos conjuntos musicais, entre os quais Os Quatro Loucos, que apresentava imitações de músicas do conjunto de rock inglês The Beatles. Pouco depois,passou a dar aulas de violão e teoria musical no Conservatório de Música de João Pessoa. Em 1975, mudou-se para o Rio de Janeiro, e no ano seguinte foi aprovado no vestibular para a Faculdade de Música.

No Rio de Janeiro, passou a participar de shows e outros eventos artísticos, como a peça Gota d’água, de Chico Buarque de Hollanda (1976), atuando como músico. Sua primeira composição gravada, por Ari Toledo, foi Ê Mãe, composta em parceria com Livardo Alves. Em 1978, gravou o seu primeiro disco. Dois anos depois saía Taperoá, seu segundo disco. Em 1982, lançou o LP Sagas Brasileiras. Em 1984, lançou, pela Kuarup, o CD Cantoria I, com Elomar, Geraldo Azevedo e Xangai. Em 1985, lançou o LP Do Jeito Natural, uma coletânea com seus maiores sucessos. No mesmo ano, participou do álbum Cantoria II, com os mesmos músicos e amigos nordestinos. Depois disso, resolveu parar de gravar por um tempo, passando a se dedicar aos estudos. Suas composições destacam-se pelo humor e inventividade, onde se mesclam canções nordestinas, sambas de breque, modinhas, xaxados e outros ritmos.

Em 2002, produziu o disco de estreia de sua filha e cantora Giovanna, cujo repertório inclui quinze composições de sua autoria. O disco foi lançado pelo selo Discos Vital Farias. No mesmo ano, lançou o disco Vital Farias ao Vivo e aos Mortos Vivos. Recebeu, ainda no mesmo período, o título de Cidadão do Rio de Janeiro. Sua bela e triste composição musical Saga da Amazônia é um protesto contra a destruição desta floresta considerada o “pulmão do mundo”.

SAGA DA AMAZÔNIA
[Vital Farias]

Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta
mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
no fundo d’água as Iaras, caboclo lendas e mágoas
e os rios puxando as águas.

Papagaios, periquitos, cuidavam de suas cores
os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores
sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir
era: fauna, flora, frutos e flores.

Toda mata tem caipora para a mata vigiar
veio caipora de fora para a mata definhar
e trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira
e trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar
eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá.

O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
e o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar?
depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar
igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar.

Mas o dragão continua a floresta devorar
e quem habita essa mata, prá onde vai se mudar???
corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá
tartaruga: pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiura.

No lugar que havia mata, hoje há perseguição
grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé de Nana tá de prova, naquele lugar tem cova
gente enterrada no chão:

Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
roubou seu lugar.

Foi então que um violeiro chegando na região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração.

Aqui termina essa história para gente de valor
pra gente que tem memória, muita crença, muito amor
pra defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta
era uma vez uma floresta na Linha do Equador…

Referências:

MÚSICA POPULAR BRASILEIRA NET. Vital Farias. Disponível em:  <http://www.mpbnet.com.br/musicos/vital.farias/index.html>. Acesso em 25 dez. 2011.MÚSICA POPULAR BRASILEIRA NET. Saga da Amazônia. Disponível em: <http://www.mpbnet.com.br/musicos/vital.farias/letras/saga_da_amazonia.htm> Acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
Vital Farias e sua filha Olívia. Disponível em: <vitalfariascantador.blogspot.com>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Vídeo:
FARIAS, Vital. Saga da Amazônia. Gravado ao vivo em VHS pela TV Gaúcha em 1995 – Produção TVE-RS. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=8t0dTW_J968>. Acesso em 25 dez. 2011.

Música do Nordeste (III)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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Xangai
XANGAI

Xangai é considerado o melhor intérprete de Elomar, propiciando, inclusive, a facilitação do entendimento das composições deste compositor classificado, por muitos, como erudito. Em 1980, lançou o disco “Parceria Malunga”, pela extinta gravadora Marcus Pereira.

Por ser descendente direto do bandeirante  João Gonçalves da Costa, fundador do Arraial da Conquista, atualmente Vitória da Conquista, pensava-se que  Xangai tinha nascido naquela cidade, mas foi às margens do córrego do Judiá, afluente do Rio Jequitinhonha, na zona rural da pequena cidade de Itapebi, lá no extremo sul da Bahia, que veio ao mundo Eugênio Avelino, durante as águas de março de 1948. Filho e neto de sanfoneiros, ainda menino cruzou a fronteira do seu Estado e foi morar com seus pais, na cidade de Nanuque, no norte de Minas Gerais.

O apelido de Xangai adveio de uma sorveteria do seu pai em Nanuque, batizada com o nome da distante cidade asiática, originando daí o seu nome artístico. Ainda adolescente, foi morar em Vitória da Conquista, onde recebeu a influência de muitos cantadores.

Acontecivento, este  é o nome do seu primeiro disco, lançado em 1976. Esta Mata Serenou, Forró de Surubim e Asa Branca são músicas que se destacaram no disco. Em 1979, teve início a sua parceria com o multiartista campoformosense Augusto Jatobá. Dois anos depois, lançou o LP Qui Tú tem Canário pelo selo Kuarup. Em 1999, foi convidado para participar do disco de comemoração dos 100 anos do Esporte Clube Vitória, time do seu coração.

Seu último lançamento no mercado fonográfico foi Estampa Eucalol, em 2006. No dia 16 de março de 2007, participou de um show com Waldick Soriano, em Caitité, cidade natal do rei da música brega tupininquim.

“Xangai, um cantor, um artista, um menestrel, um dos maiores poucos gatos pingados e tresloucados sonhadores-de-mãos-sangrentas-contrapontas-afiadas inimigas. Remanescentes que teima guardar a moribunda alma desta terra. Que também vai se atropelando contra a multidão de astros constelados que fulgurantes espargem luz negra dos céus dos que buscam a luz. Lá vai ele recalcitrante e contumás cavaleiro, perdulário da bem querência que deixa a índole dissoluta de um pobre povo que habita o espaço rico de uma pátria que ainda não nasceu [...]” Casa dos Carneiros, minguante de maio de 1991 – Elomar Figueira de Melo.

O compositor apresenta, na Rádio Educadora da Bahia, há alguns anos, o programa Brasileirança, que muito tem contribuído para  divulgação da música nordestina.

Galope à Beira Mar Soletrado
[Xangai/ Ivanildo Vilanova]

No ma-ti-nal
a me-ren-da
re-co-men-da
ser só fru-gal
pas-ta den-tal
de es-co-var
de-ve la-var
com co-li-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Não dei-xe
o in-tes-ti-no
fi-car fi-no
que só fei-xe
co-ma pei-xe
no pa-la-dar
um ca-la-mar
es-ca-lo-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Um ex-em-plo
de gi-gan-te
ru-mi-nan-te
um ca-me-lo
pa-ta pe-lo
ru-di-men-tar
pa-ra ma-tar
se-re-le-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Es-car-la-te
tan-ge-ri-na
vi-ta-mi-na
no to-ma-te
a-ba-ca-te
ver-de po-mar
pa-ra cor-tar
tos-se gri-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Um re-gi-me
de ver-da-de
li-ber-da-de
é seu ti-me
é su-bli-me
ser po-pu-lar
par-la-men-tar
par-ti-ci-pe
no ga-lo-pe
da bei-ra-mar

Referências:
QUEIROZ, William Veras de. Eugênio Avelino: o menestrel dos sertões. Blog Sol Vermelho. Santo Antônio de Salgueiro-PE, 2010. Disponível em: <http://blogsolvermelho.blogspot.com/2010/09/eugenio-avelino-xangai-filho-e-neto-de.html >. Acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
Eugênio Avelino
: o menestrel dos sertões. Disponível em: < http://blogsolvermelho.blogspot.com/2010_09_01_archive.html>
Acesso em 25 dez. 2011.

Vídeo:
AVELINO, Eugênio; VILANOVA, Ivanildo. Galope à beira mar: DVD “Estampas Eucalol”. Disponível: <http://www.youtube.com/watch?v=XH6BO9O5aEM>. Acesso em 25 dez. 2011.

Música do Nordeste (IV)

Postado em: 25-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, Música, Vídeos, arte, fotografia

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GERALDO AZEVEDO

Geraldo Azevedo (Petrolina, 11 de janeiro de 1945) é um compositor, cantor e violonista pernambucano. Autodidata, aos 12 anos de idade já tocava violão. Iniciou sua trajetória musical quando, aos 18 anos, mudou-se para Recife a fim de estudar. Lá conheceu Teca Calazans (cantora), Naná Vasconcelos (percussionista), Marcelo Melo e Toinho Alves, que faziam parte do grupo folclórico Construção, ao qual juntou-se.

Em 1967, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou com a cantora Eliana Pittman, e fundou o Quarteto Livre, que acompanhou o cantor Geraldo Vandré em diversas apresentações, até que, devido a problemas políticos com o Governo Militar, o grupo se dissolveu. Em 1968, a cantora Eliana Pittman gravou a sua composição Aquela Rosa.

No início da década de 1970, formou dupla com o também pernambucano Alceu Valença, em boa performance no Festival Universitário da TV Tupi. Participando com as composições 78 Rotações e Planetário, a dupla chamou a atenção da gravadora Copacabana. Assim, em 1972, Geraldo Azevedo é lançado no mercado fonográfico através do disco Alceu Valença & Geraldo Azevedo.

O compositor nordestino também é conhecido pelos seus incandescentes frevos (a dança de rua típica do carnaval pernambucano), sendo muitos dos seus shows encerrados de forma eletrizante, com as composições Tempo Tempero, Pega Fogo Coração, Tempo Folião etc. É esta mistura, aliada à sua impecável performance ao violão, que o tornou um dos mais conceituados músicos nordestinos.

Misturando harmonias sofisticadas da bossa nova com ritmos da música negra, alcançou seus maiores sucessos com Papagaio do Futuro (parceria com Alceu Valença), Caravana (tema da novela Gabriela), Juritis e Borboletas (tema da novela Saramandaia), Arraial dos Tucanos (da série Sítio do Picapau Amarelo), além de Barcarola do São Francisco (parceria com Carlos Fernando) e Canta Coração, gravada por Elba Ramalho. Em 1994, a Polygram lançou a coletânea de suas composições – Minha História.

Participou de alguns importantes projetos coletivos de discos como Asas da América I (1979) e Asas da América II (1980), Cantoria I (1984), Cantoria II (1988) e O Grande Encontro I (1996), e o Grande Encontro II (1997), além de fazer parte de várias coletâneas. Mesmo não estando na boca da mídia nem vendendo números astronômicos, Geraldo Azevedo firmou-se como um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira.

Bicho de Sete Cabeças
[Geraldo Azevedo]

Não dá pé não tem pé nem cabeça
não tem ninguém que mereça
não tem coração que esqueça
não tem jeito mesmo
não tem dó no peito
não tem nem talvez ter feito
que você me fez desapareça
cresça e desapareça.

Não tem dó no peito
não tem jeito
não tem coração que esqueça
não tem ninguém que mereça
não tem pé não tem cabeça
não dá pé não é direito
não foi nada, eu não fiz nada disso
e você fez um bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças.

(ambas estrofes ao mesmo tempo)

Não dá pé não tem pé nem cabeça
não tem coração que esqueça (não tem ninguém que mereça)
não tem jeito mesmo (não tem pé não tem cabeça)
não tem dó no peito (não dá pé não é direito)
não tem nem talvez ter feito (não foi nada)
que você me fez desapareça (eu não fiz nada disso e)
cresça e desapareça (você fez um)
bicho de sete cabeças,
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças
bicho de sete cabeças.

Referências:

LETRAS.COM.BR. Biografia: Geraldo Azevedo. Disponível em: <http://www.letras.com.br/biografia/geraldo-azevedo>. Acesso em: 25 dez. 2011.
NORDESTE WEB. Biografia: Geraldo Azevedo. Disponível em:  <http://www.nordesteweb.com/geraldo/ger_biografia.htm>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Ilustração:
KNGINE MOVIES. Geraldo Azevedo. Disponível em: <www.movies.kngine.com>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Vídeo:
AZEVEDO, Geraldo. Bicho de sete cabeças: DVD “Uma Geral do Azevedo”. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=TgeF4V_NsbE>. Acesso em: 25 dez. 2011.

Crônicas de Viagem (II)

Postado em: 09-12-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Cultura, Literatura, fotografia

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De Lisboa a Barcelona: no aeroporto sob esdrúxula escolta

LEILA BRITO

Sete horas da manhã e, repentinamente, o infinito azul do mar é invadido pela terra em estonteante aproximação da orla que circunda Lisboa, traçando as linhas do continente europeu até onde minha vista alcança, enquanto a paisagem cresce sob meus pés de águia em queda livre. Com seus alvos condomínios residenciais se destacando na paisagem urbana, rapidamente, a cidade me engole em repousante e suave aterrissagem.

O tom poético finda aqui, pois é substituído pelo desconforto que sinto ao caminhar na congestionada fila que segue pelo estreito corredor até o pequeno box que dá para a escada, carregando minha incômoda e pesada bagagem de mão que inclui trevesseiro, bolsa, frasqueira e notebook. Sensibilizado, o passageiro de trás oferece ajuda, carregando meu computador escada abaixo, até os últimos degraus onde ouço uma voz feminina, em brusco sotaque português, a chamar-me pelo nome em tom interrogativo: “Senhora Leila?” Ao levantar a cabeça, dou de cara com uma mulher morena aparentando trinta anos, esguia e carrancuda, acompanhada de duas raparigas e um mancebo, certamente colegas de trabalho, pois trajando o mesmo uniforme a la bandeirante e escoteiro.

Ainda sob o efeito estonteante da pressurização, antes que eu entenda o que está acontecendo, ela interroga-me abrupta e autoritária: “Onde está sua cadeira de rodas?” Atônita com a descabida pergunta, toco o solo português no imenso pátio de manobra, ainda sem entender a situação, quando um flash de memória leva-me de volta ao aeroporto de Confins e ao balcão da TAP, quando a gentil funcionária brasileira que fez meu chek-in, após destacar um funcionário da empresa para carregar a minha bagagem de mão até eu me acomodar no avião, avisa-me que irá se comunicar com a TAP em Lisboa, para dar-me a mesma atenção assim que eu lá desembarcasse, em razão da minha condição de deficiente físico.

“Ah!”, digo-lhe emergindo do insigth: “Então você é a funcionária da TAP que veio ajudar-me! Olha, eu não uso cadeira de rodas para me locomover, porque minha limitação física é parcial. Só preciso que você me ajude a carregar a minha pesada e volumosa bagagem de mão até o portão de embarque do voo das dez e quarenta e cinco para Barcelona”. Num tom de voz ainda mais agressivo, ela me pergunta: “A senhora pagou o valor dessa taxa especial na passagem?”. Ao que respondo: “Não! Porque, no Brasil, esse tipo de atenção dispensa pagamento, por se tratar de um direito garantido pela lei de proteção ao deficiente físico”. E ante o meu gesto de entregar-lhe meu notebook e minha frasqueira, para meu espanto, ela se afasta de mim como de um doente contagioso, dizendo-me, no seu agora agressivo sotaque português: “Somos funcionários do aeroporto e a lei nos proibe de tocar em bagagem de passageiro. A senhora é quem vai carregar sua bagagem. Nós apenas vamos acompanhá-la até o portão de embarque da sua conexão”.

Sem dar-me tempo para reagir, com autoridade de polícia, ela segue em direção ao ônibus à disposição dos passageiros do meu voo acompanhada dos outros três agentes aeroportuários. Enquanto isso, curvo-me para pegar a bagagem no chão, ando alguns passos e com extrema dificuldade subo no ônibus, onde me instalo de pé com a frasqueira entre as pernas, segurando-me na barra vertical disponível, que transformo em apoio para o corpo, já que os poucos bancos estão ocupados. Eu ainda não sabia, mas começava ali a minha via sacra pelo aeroporto de Lisboa.

Na primeira parada do ônibus, ao ver todos os passageiros descendo, sigo-os, perdendo de vista meus indesejáveis acompanhantes. Atordoada, adentro a segunda estação da via sacra, caminhando vergada sob o peso da bagagem e de dores lancinantes. Mais uns passos, e paro para identificar aquele lugar tumultuado por imensas filas formadas em frente a diminutos guichês. Percebo, então, que estou no temido setor de imigração. É tal o impacto do susto, que me esqueço dos tais acompanhantes. A espera é breve, pois ponho-me à frente, depois de solicitar e obter a ajuda do primeiro estrangeiro da primeira fila. Com a bagagem no chão e apoiada em minhas pernas, apresento o passaporte, o seguro-saúde, os cartões de crédito, a matrícula no curso na Universitat de Barcelona e, antes que eu termine, a funcionária solicita a reserva do hotel, ao que eu respondo com a entrega do comprovante de locação da habitación enviado pela minha afintrioa, e dispensa, por medida de segurança, a apresentação dos euros, mas depois de visualizar o maço de notas dentro da minha bolsa.

São breves instantes de absoluta concentração para transmitir confiabilidade e não perder nenhum documento até guardá-los dentro da bolsa junto com o passaporte carimbado. Vencido o grande desafio, considerando-se o conturbado momento vivido pelos brasileiros com o abuso de repatriamento no aeroporto de Madrid, sinto-me aliviada e feliz. Porém, basta eu ver meus quatro aviltosos acompanhantes aguardando-me perto da esteira do Raio X, para me angustiar. Lá estão eles firmes no propósito de impor-me a vexatória escolta. “O que as pessoas estão pensando? Que sou uma criminosa?” Pergunto-me enquanto retiro relógio, pulseira, anéis, brincos e o cinto de couro com metal e os coloco na bandeja, antes de ser irremediavelmente revistada pelos seguranças por causa das abotoaduras de metal fixadas no barrado das pernas de minha calça comprida. Experimento uma preocupante expectativa até sair do outro lado e pegar minha bagagem e objetos pessoais na esteira, e dar de cara com os quatro aeroportuários brincando de agentes federais portugueses.

Conformada, parto para a terceira estação da via sacra, com a agente-chefe seguindo altiva e silenciosa ao meu lado e seus três mudos subordinados ombreados atrás de mim. Ao senti-los firmes e insensíveis ao meu calvário pelo largo e interminável corredor que se abriu à nossa vista, percebo que minha revolta pela agressão moral em curso se transformara em indignação, pois minha vontade é parar, colocar a bagagem no chão, expulsá-los dali aos gritos, e seguir sozinha o percurso até o portão de embarque para Barcelona. Mas impedida pelo medo de ser repatriada por “desrespeito às leis aeroportuárias portuguesas”, por mais desumanas que sejam em relação às leis brasileiras, o máximo que faço é parar a cada dois minutos de caminhada, colocar a bagagem no chão, respirar fundo e fazer exercícios de alongamento dos braços, e deixá-los estacionados me aguardando feito bobos até curvar-me, erguer a bagagem com dificuldade e seguir cambaleante, pois minhas pernas protestam contra a insensibilidade daquelas covardes “autoridades”, incapazes, sequer, de ceder-me um carrinho de bagagem para aliviar meu sofrimento.

Ao longo desse extenso corredor, vivencio a quarta e quinta estação da via sacra até vizualizar a próxima e a mais cruel das provas: o suplício da escada rolante. E agora? Como subir na escada carregando a bagagem sem cair e machucar-me gravemente, por falta de apoio no corrimão? Enquanto me aproximo tropegamente, já no limite da resistência física, concluo ser impossível sobreviver ao suplício. É então que, determinada a me insurgir contra a autoridade dominante, paro em frente à escada e comunico-lhe minha decisão: “Se eu subir carregando minha bagagem sem me apoiar no corrimão, vou me desequilibrar, cair e me ferir nos degraus em movimento. Por isso, vocês terão que transportá-la até o final da escada”. Assaltada por milagroso lapso de raciocínio, mas mantendo-se impositiva no cumprimento da lei aeroportuária, a agente-chefe se dispõe a cuidar tão somente da frasqueira.

Confortada com o que pensei tratar-se de um parcial e tardio gesto de sensibilidade humana, deixo a frasqueira no chão e adentro a escada rolante segurando o notebook e o travesseiro com a mão esquerda, e mantendo a bolsa pendente no ombro, com a mão direita me apoio no corrimão. Quando olho para trás, assisto a uma cena inacreditavelmente estapafúrdia. Vejo a agente-chefe pegar a alça da minha frasqueira com as pontinhas dos dedos de uma só mão, como se ela estivesse suja de fezes, e praticamente jogá-la no primeiro degrau da escada, e subir logo atrás, de mãos vazias, seguida por seus pares. Quando saio da escada e olho para trás, novamente a vejo pegar na alça da minha frasqueira com as mesmas pontinhas de dedo, e lançá-la ao chão, para eu me abaixar e pegá-la com a mão direita que acabara de deixar o corrimão.

Atônita com tamanha estupidez e maldade, sentindo dores lancinantes, caminho para a sétima e última estação daquela via sacra “portuguesa com certeza”, enquanto minha indignação alcança o limite máximo da intolerância à agressão física e moral sofrida. Mal consigo conter-me até cruzar a linha de chegada do portão de embarque do voo para Barcelona, quando a agente-chefe, num gesto de hipócrita sensibilidade, indica-me a direção dos bancos para eu sentar e, enfim, descansar. Contendo a ira que me corrói por dentro, lanço-lhe um olhar enfurecido, e me dirijo ao balcão onde ponho minha bagagem e me apoio, pois mantendo-me de pé, dou as costas para os quatro, a quem não mais desejo ver nem mesmo pelas costas.

Enquanto aguardo a conexão, concluo que acabo de adentrar o terceiro mundo, e preparo-me para mais provações.


Referência:

BRITO, Leila. De Lisboa  Barcelona – no aeroporto sob esdrúxula escolta. Chá.com Letras, 8 dez. 2011. Disponível em: www.chacomletras.com.br . Acesso em: dia (8) mês (dez.) ano (2011).

Ilustração:
Foto/vídeo do Comandante António Escarduça da TAP, vindo do Rio de Janeiro.
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=eQgH1GvS6Eg>

A um menino inesquecível

Postado em: 26-10-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Memória, fotografia

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Britinho002
VEM CÁ-BRITINHO!!!

LEILA BRITO

Vermelho de raiva, espumando pelos cantos da boca, os olhos saltando das órbitas, o menino grita um insulto para outro, numa tentativa de golpe mortal para a pendenga principiada na sala de aula. E a turma dele, solidária, faz coro entoando o refrão ofensivo: Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! O som estridente das vozes desce pela rampa lateral do grupo escolar e ganha a rua, explodindo triunfante!

Mas Britinho não dá o braço a torcer. Acostumado ao insulto, sai correndo, saltando feito um cabrito por cima do próprio orgulho. Para o cacófato, que soberbamente ele sabe denominar, não há resposta que faça frente. Nem mesmo “macarrão-da-santa-casa”, um insulto tão temido pelos garotos branquelos como seu contendor, faria o efeito desejado. Melhor mesmo, é fingir que não está ouvindo, e dar o troco numa hora em que o inimigo estiver vivendo um momento menos glorioso.

Chegando em casa, conta a história para a mãe, fazendo-se de vítima. Ele não fizera nada de mal para o colega insultá-lo daquele jeito. Uma tremenda injustiça! E tanto se defende que passa a acreditar na própria mentira. Horas depois, junto com o primo Edilson e o irmão Humberto, trama uma vingança à altura do insulto. Assunto resolvido e os três caem no rio num mergulho perto do “redimunho” que fica próximo à outra margem. Tudo escondido da mãe e do pai, claro. Nadando de braçadas, eles voltam para a margem do quintal da casa do primo, e com a água na altura da cintura, passam à pesca de saco. Os peixes que caírem na rede improvisada, vão fritar e saborear, depois de cortá-los ao meio, de fora a fora, e de retirar os miúdos, que nem tinham  aprendido na aula de Ciências.

Quando voltam pra casa, depois de horas de desaparecimento, ele tem na ponta da língua outra história pra contar: “É que fomos buscar lenha no mato com o Edilson, lá pra cima do hospital. A mãe dele pediu pra gente! Pergunta pro Edilson! Pode perguntar pra “cumadre” também! Olha como a gente tá cheio de carrapato!” Dizendo isto, sai de fininho pra não dar chance de outras perguntas que possam complicar a situação. E como ele já havia sofrido uma dura humilhação naquele dia, a mãe está por demais sensibilizada para ter coragem de castigá-lo.

No dia seguinte, depois da vingança, outra confusão na saída da escola e, de novo, o coral de vozes estridentes: Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! Só que desta vez, cheio de moral, ele devolve o insulto com aquelas “bananas” que tão bem sabe dar, e sai correndo em disparada, dando pulos e gritos, orgulhoso de si mesmo. É… O inimigo tem direito de reagir, depois de ganhar tantos cascudos e pontapés. E o coro da garotada soa como um hino de louvor à sua fama de menino esperto e valente.

Um menino tão forte, mas tão forte, que não morre nunca. Ele permanece vivo no enredo de suas incríveis histórias de sustos de assombração, fugas pro açude, nadanças no Rio das Velhas, mentiras fabulosas, castigos drásticos e surras homéricas, disputas de bolas de gude, peladas de rua, pesca de saco, caça a passarinho, namoricos de quintal, aventuras ao volante do caminhão da Samsa… E por mais que o tempo corra, por mais que a vida passe, por mais que o corpo cresça e desapareça, ele sobrevive triunfante no grito da garotada que ecoa solto pelas memórias das ruas de Rio Acima: Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!! Vem cá-Britinho!!!

Britinho_e_Tequinha0005Britinho e Tequinha

Ah… Rio Acima!
Terra de minhas travessuras.
Nadanças no límpido rio

e brincadeiras nas ruas.
Quisera que fossem tuas

as ondas dos meus delírios.

Ah… Rio Acima!
Recordo belos momentos

em tuas ruas passeando.
Meu coração, em pensamento
,
com teu coração conversando.

(Poema de Higesipo Brito Júnior – “Britinho” – Junho/89)

Referência:
BRITO, Leila. Vem-Cá Britinho. Folha de Nova Lima, jun. 1999, Caderno Cultura, p. 5.

Ilustração:
Britinho aos 3 anos – 1947 – Foto de família.

Vídeo em Destaque

Postado em: 23-10-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Memória, Música, fotografia, Áudio

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Higesipo e Maria-untitled

LOVE STORY

Tudo começou quando a bela Maria via a banda passar e, no compasso do dobrado, deixou-se levar pelo flerte do ousado saxofonista Higesipo.
E tudo parecia ter chegado ao fim quando, após sessenta e dois anos, o som do sax foi o que restou de Higesipo na fugidia memória de Maria.
No entanto, “num milagre supremo”, como previa sua canção favorita, tudo recomeçou quando Maria reencontrou o olhar de Higesipo, depois de seis anos de longa e sofrida espera.

HINO AO AMOR

Edith Piaf e Marguerite Monnot
Versão de Odair Marsano

Se o azul do céu escurecer
E a alegria na Terra fenecer
Não importa, querido
Viverei do nosso amor

Se tu és o sol dos dias meus
Se os meus beijos sempre foram teus
Não importa, querido
O amargor das dores desta vida

Um punhado de estrelas
no infinito irei buscar
E a teus pés esparramar
Não importa os amigos,
risos, crenças e castigos
Quero apenas te adorar

Se o destino então nos separar
Se a distante morte te encontrar
Não importa, querido
Porque morrerei também

Quando enfim a vida terminar
E dos sonhos nada mais restar
Num milagre supremo
Deus fará no céu eu te encontrar

Convido-o(a) a ouvir a canção
(áudio disponível no espaço de vídeo)
para imaginar esse reencontro amoroso.

LEILA BRITO
Belo Horizonte, 23 OUT 2011

Ilustração:
Maria e Higesipo – Foto de família.

Referência:
Hino ao Amor na voz de Dalva de Oliveira (Meus Momentos).

In Memoriam

Postado em: 23-10-2011 | Por: Leila Brito | Categorias: Literatura, Memória, fotografia

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Vovó0001-recortadaMaria da Conceição Brito
Moeda – 1920 / Belo Horizonte – 2011

REVERENCIANDO MARIA


LEILA BRITO

Maria, Maria é um dom / uma certa magia / uma força que nos alerta…
Maria, Maria é o som / é a cor / é o suor / é a dose mais forte e lenta…

Permito-me a delirante, porém coerente ousadia de supor que, quando Milton Nascimento compôs esse poema suavemente musicado com o merecido impacto sonoro, ele estava sob o efeito devastador da poética de Adélia Prado que, como poucos artesãos da palavra, vem alcançando, com uma fidelidade intimidadora, o sentido e o desafio de ser mulher nesta e para esta vida: “Ser mulher ainda dificulta muito as coisas. Muita gente boa ainda pensa, em pleno século quase vinte e um, que mulher é só seu oco. Fosse só assim a gente não tinha coração nem cabeça, precisava nem ser batizada. Mas digo que tem e igualzinho a dos homens: boa e ruim. Jesus, muito mais antigo que nós, entendeu isto direitinho”.

Apresentada pelo Francisquinho à nossa Maria, de pronto, a sensível poeta, mulher que nem ela, mineira que nem ela, idosa que nem ela, crente em Deus que nem ela, passiva que nem ela mas também resistente que nem ela, se reconheceu em cada palavra vertida sobre a humilde submissão do seu papel social de suprir marido e filhos de alimentos e cuidados, pela identificação do mesmo desejo esquecido no cansaço de cada dia: “Riqueza pra mim era se eu pudesse não levantar de manhã cedo, com alguém fazendo as coisas pra mim, soltando o cachorro, pondo o feijão no fogo, coando e levando o café na cama pra mim. Tem maior conforto não. Quando o sol esquentasse, aí eu levantava, ia mexer nas coisas devagarinho”.

familiabrito Maria comemorando seus 90 anos com sua prole,
menos Britinho, falecido em 02/09/1998.

E na impossibilidade desse merecido conforto, a nossa Maria sentia-se gratificada pelo milagre alcançado com a existência de saudáveis e ruidosos filhos: Britinho, Stela, Humberto, Leila, Francisquinho, Ângela, Riva, Guida, Clarinha e Geninho que, num imperioso e incansável revoar no espaço ainda reduzido de suas liberdades, respondiam positivamente à educação transmitida por ela e Higesipo, atendendo à sua prece diária: “peço à Sagrada Família que faça a nossa casa ter uma natureza de alegria, um sentimento seguro, formado pela cantiga na boca, pela mão cozendo, cozinhando, acarinhando, sem as profundas vaidades que esvaziam o coração e nos deixam tão fracos”.

Isto porque, pensava ela que nem Adélia: “Obrigação nossa de pai e de mãe, é dar amor perfeito, é falar olha fulano é assim, assim, assado, Deus existe, esta vida tem fim, estamos aqui é emprestados, a fim de fazer o bem, amar nossos semelhantes. É debater com eles quando as tiriricas das más companhias e das influências ruins ameaçar a lavoura. Eu tenho para mim, depois que a gente tem filho só existe uma tarefa para fazer: cuidar deles. O que está mais perto do amor de pai e mãe é ódio de pai e mãe. Que graça tem meu boteco prosperar se faltar alegria dentro da minha casa? Segue o fio da amargura das pessoas para ver onde ele vai parar: esbarra no pai e na mãe. Não tou falando que a bondade do pai e mãe acaba com o sofrimento das pessoas, não; [...] Eu só quero dizer que se a gente se esforçar para ser pai e mãe com decência, parar de pensar na gente, para se incomodar mais com esses que nós pusemos no mundo, eles vão dar conta de sofrer sem perder a esperança.

Britinho003-corrigidaHigesipo Augusto de Brito Júnior – Britinho
Rio Acima-MG – Anos 1960

Como toda Mulher-Mãe que assumiu missão incompatível com sua própria fragilidade humana, “A mãe era desse jeito: [...] Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor. [...] A senhora tá triste, mãe? eu falava. Não. Só tou pedindo a Deus pra ter dó de nós.” Por outro lado, “A mãe era um estrago de braba, mas quando eu lembro dela me castigando com um safanão do pente na cabeça e me fazendo dois molhos de caxinho pra eu ir bonita pra escola, me dá um engasgo, uma saudade sem remédio, uma vontade de ser pobre igual antigamente, só pra escutar ela falar: já tá ficando uma mocinha, umas roupinhas melhores… e o pai: moça bonita precisa disso não… Eh, meu Deus, quanto jeito tem de ter amor!”

Como Adélia, a nossa Maria também era encantada por São Francisco de Assis e parecia imitá-lo em sua vida de devotada renúncia, mostrando entender, como o Santo, que “a simplicidade não acha que as melhores glórias são as da cultura, e por isso prefere fazer e não aprender ou ensinar”. Condoía-se com as dificuldades daqueles que amava, dividindo o pouco que tinha como se seu gesto reproduzisse o milagre da multiplicação dos peixes. Por isso, certamente, o generoso Irmão Francisco debruçou-se sobre seu leito agonizante e disse baixinho no seu ouvido, fazendo resplandecer de alegria a sua alma:

O Senhor te abençoe e te guarde,
Volta a ti o Seu Rosto e se compadeça de ti,
O Senhor te dê a paz.

Referência:
PRADO, Adélia. Solte os cachorros. Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 27, 29, 38, 39 e 95.

Referência deste ensaio:
BRITO, Leila. Reverenciando Maria. Belo Horizonte: Chá.comLetras, 20 out. 2011.

Ilustração:
Fotos de família