A CIDADE LUZ EM TRÊS DIMENSÕES
IMPRESSÕES DE PARIS (I)
Paris é bege
Musée du Louvre
XISTO BUENO
A expressão não é minha, mas só tomei ciência disso depois que o Paulo me disse que o Mário Rui já a tinha dito antes. De qualquer forma, a primeira impressão que se tem de Paris, depois que se chega nela e se começa aperceber da arquitetura napoleônica, é que a cidade não tem cor. Aliás, tem cor. É bege.
Tudo é praticamente como era no século XIX. Salva dos bombardeios na segunda guerra mundial, a cidade se manteve como era: bela, conservada e bege. Tudo bem, estou sendo injusto… Paris não é apenas bege, também tem uns tons de cinza.
La Seine
Por todos os lugares a cidade se repete. As construções mantêm o mesmo padrão, as mesmas cores. Muros e paredes sem tinta, tijolos aparentes, belas sacadas, janelões. Existe um “quê” de histórico no ar. Tudo remete ao passado. Placas nas casas informando que ali viveu ou morou ou dormiu ou morreu ou bebeu ou foi ao banheiro ou seja lá o que tenha feito, fulano ou cicrano ou beltrano. A gente quase se sente remetido ao tempo deles.
Para quem assistiu o recente “Meia Noite em Paris”, é quase como se se fizesse a viagem a que o filme se propõe. Você vai ao mesmo bar onde Hemingway bebia, passa pelas ruas onde Voltaire passava, anda pela praça onde foi guilhotinada meia Paris durante os anos da Revolução, vai até a cela da Maria Antonieta e vê a recomposição do ambiente. É você dentro da história.
Uma história que seria em preto e branco (aliás, em bege e cinza), se não fossem as pessoas. Como a cidade não tem tinta na parede e padece do quase monocromatismo, as pessoas se colorem. Homens e mulheres sempre bem vestidos. Aliás, como a Dani sempre diz, parece que acabaram de sair de um catálogo de moda. Cores, muitas cores…
Uma cidade de poucas cores, com gente colorida e que exala o cheiro da história em cada esquina.
Paris é linda.
Referência:
BUENO, Xisto. Impressões de Paris – Parte I – Paris é bege. Arquivos do Xis, 30 jul. 2011. Disponível em: http://arquivosdoxis.blogspot.com/2011/07/impressoes-de-paris-parte-01-paris-e.html . Acesso em: 7 mar. 2012.
IMPRESSÕES DE PARIS (II)
Paris é a Babel
Tour Eiffel
XISTO BUENO
Sabe o mito bíblico da famosa torre que almejava chegar ao céu e que industrioso patriarca celeste, com sua jocosidade literária, resolveu melar os planos fazendo com que os construtores se desentendessem, mudando as línguas que falavam? Pois é, o melhor retrato dessa piada é a cidade de Paris. A cada vinte metros você pode ouvir uns cinco ou dez idiomas diferentes.
Não é exagero. A cidade mais visitada do mundo fala o idioma pátrio e exige respeito quando se fala a língua deles. A permissividade brasileira, que se esforça para entender e traduzir qualquer tentativa arranhada dos turistas de falar português, não encontra reflexo no dia-a-dia parisiense. Não que haja má-educação ou mau-humor, como é geralmente alardeado.
Se você tenta emendar um francês macarrônico, sem a acentuação devida e com uma palavra lembrando outra, o interlocutor ou diz que não está te entendendo ou te responde em inglês. Muito justo. Assim a língua se mantém. Eu mesmo quis comprar um “carte orange”, em uma tentativa ridícula de francês e a balconista me olhou com uma cara de “eu, heim!” e perguntou: “o senhor é brasileiro?”.
Mas não é essa nossa temática. O fato é que a cidade mais visitada do mundo traz consigo as línguas de cada um dos visitantes. Europeus, asiáticos, africanos, americanos. Uma invasão multicultural (muitas vezes pouco educada) por toda a cidade, fotografando, admirando bestificada a cidade.
A Torre é um dos locais onde isso é mais evidente. As filas sempre enormes, com pessoas de todos os locais do mundo, cada um falando seu idioma. Até francês se ouve por lá (mas é pouco!).

Assemblee Nationale
E a cidade vê as pessoas passarem, indo de monumento em monumento, em uma mistura de idiomas, etnias, sorrisos. Cada um falando uma língua, mas todos se entendendo na alegria de estar naquela cidade bege.
Enquanto isso, os franceses continuam vivendo seu cotidiano, falando em francês e se incomodando com o excesso de turistas, que superlotam a cidade.
Paris é linda.
Referência:
BUENO, Xisto. Impressões de Paris – Parte II - Paris é a Babel. Arquivos do Xis, 2 nov. 2011. Disponível em: http://arquivosdoxis.blogspot.com/2011/11/impressoes-de-paris-parte-02-paris-e.html. Acesso em: 7 mar. 2012.
IMPRESSÕES DE PARIS (III)
Paris é tensa

Cathédrale Notre Dame
XISTO BUENO
A mais tradicional imagem de Paris é a de cidade romântica. Inúmeras pontes sobre o rio que divide a cidade, passeio de barco, cafés, bistrôs… A cidade é praticamente um cenário para que os casais possam andar de mãos dadas, apreciando a arquitetura (bege!), monumentos, parques e, porque não?, estações de metrô.
O fato é que, se no passado a cidade foi um marco com casais se beijando pelas ruas, em uma época em que isso causava certa transgressão social, se havia demonstrações explícitas de romantismo no ar (sobretudo por ser o berço dos movimentos literários que estimularam as demonstrações dessa natureza), hoje é uma cidade como todas as outras, com pessoas apressadas, indo e vindo do trabalho. E com turistas. Milhares deles.
Arc du Triomphe de l’Etoile
Sim, a cidade é bela, mas o tão falado romantismo não está, de fato na cidade: está nos turistas que buscam o romantismo por lá. Sim, o cenário é cinematográfico, mas houve uma construção para que ALI fosse tido como romântico. Há umas centenas de cidades na Europa com características semelhantes, mas a literatura e cinema construíram aquela imagem da Paris e todos nós compramos a ideia sem questionar.
O parisiense é um cidadão inquieto, apressado e barulhento. Como dito, ele precisa ir ao trabalho, precisa pagar contas, pegar filas, enfrentar metrôs, assistir aulas. O dia-a-dia dele é igual ao meu e ao seu. Não existe, para ele, essa suposta aura romântica no ar. Mas existem os milhares de turistas pela cidade (sendo que muitos deles são mal educados ao extremo). O trânsito é caótico e, em que pese sejam os motoristas educadíssimos com os pedestres, nunca se incomodam em “pregar a mão” na buzina do carro. Pouco importa o horário, frise-se.
Enfim, a cidade não é romântica, mas as pessoas são românticas na cidade. Aproveitam que ela ajuda e se deixam fluir naquilo que foi um “constructo” mental, trabalhado na literatura e no cinema, e se entregam a um sentimento que existe nelas e que projetam na cidade (mas poderia ser Bruxelas, Amsterdã, Oslo, Veneza, etc, etc, etc, etc…).
Paris é linda.
Referência:
BUENO, Xisto. Impressões de Paris – Parte III – Paris é tensa. Arquivos do Xis, 7 dez. 2011. Disponível em: http://arquivosdoxis.blogspot.com/2011/12/impressoes-de-paris-parte-03-paris-e.htmlAcesso em: 7 mar. 2012.
Culminando as perfeitas tomadas de cena do cronista mato-grossense,
que em seus surpreendentes enquadramentos cinematográficos,
projeta a Cidade Luz em cor, movimento, sentidos e sentimentos,
pondo-o em primeiro plano, faço um close do êxtase que Paris exala.
LEILA BRITO
Belo Horizonte, 7 de mar. 2012.
Ilustrações:
Fotos de Leila Brito – 25/26 jul. 2008 (arquivo pessoal)
Vídeo em destaque:
Destination Paris. Enviado por Frenchpilot em 10/10/2006. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=xg2RpK7UkV8&feature=fvwrel